O livro Crítica pós-estruturalista e educação pode ser considerado uma das primeiras obras possuindo em seu corpo apenas ensaios de pesquisadores brasileiros que incorporam o
Domínio N. trabalhos Conceitos Autores
Poder 4
Verdade Gore; Silva
Disciplina Varela
Sujeição Deacon & Parker
Governamentalidade 4
Educação liberal Marshall Educação neoliberal Peters
Epistemologia Jones Regulação Popkewitz Ética 3 Autocriação Blacker Liberdade Pignatelli Tecnologias do eu Larrosa
Tabela 2 - Domínios e conceitos foucaultianos mapeados na obra O sujeito da
educação: estudos foucaultianos (1994a)
referencial teórico de Foucault. Organizado por Alfredo Veiga-Neto e publicado em 1995, a obra é fruto das discussões de um grupo de professores ligados ao departamento de Ensino e Currículo do programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O mesmo grupo que há cerca de quatro anos vinha movendo discussões sobre ―a teorização educacional crítica, a virada linguística, o pós-estruturalismo e suas relações com o campo da Educação‖ (VEIGA-NETO, 1995, p. 7). O grupo era organizado por Tomaz Tadeu da Silva, também responsável pela organização das duas obras que analisamos acima.
Assim, enquanto Teoria educacional crítica em Tempos pós-modernos (SILVA, 1993a) e o Sujeito da educação: estudos foucaultianos (SILVA, 1994a) foram obras com um caráter de introdução às ideias de Foucault no campo educacional brasileiro 22, a coletânea
Crítica pós-estruturalista e educação reflete os usos que já se estava fazendo do pensamento
foucaultiano entre os pesquisadores e educadores de nosso país. Embora o livro tenha sido organizado visando abordar não apenas o trabalho de Foucault, mas também de autores como Derrida, Lacan, Lyotard, Roty, Vattimo e outros, as recorrências a Foucault são constantes em todos os artigos. A obra possui nove ensaios, que, de acordo com Veiga-Neto (1995a) foram produzidos exclusivamente para fomentar as discussões que estavam acontecendo nos seminários do grupo de pesquisa.
No entanto, o objetivo central da organização do livro era reconsiderar as próprias referencias teóricas que os pesquisadores até então utilizavam, bem como ―vislumbrar e compreender o que outras perspectivas têm a nos ensinar‖ (VEIGA-NETO, 1995b, p. 8). Além disso, Veiga-Neto observava que esse movimento poderia ser produtivo, se não para superar as contradições engendradas, ―pelo menos para que não nos submetamos tão ingenuamente a ele ou, até mesmo, para que tentemos edificar novas alternativas de vida que não sufoquem nosso desejo de solidariedade‖ (p. 8). Nesse contexto, o tema do poder aparece enredado em questões relativas ao papel do discurso, embora delineando diferentes temáticas: o papel dos intelectuais e dos movimentos sociais (KINIJNIK, 1995); o poder disciplinar e a questão de gênero (LOURO, 1995); a metodologia educacional (COSTA, 1995); o construtivismo pedagógico (CORAZZA, 1995); a produção do conhecimento didático (OGIBA, 1995) o pós-estruturalismo e educação neoliberal (SILVA, 1995).
Apenas um ensaio trata, de forma breve, das questões presentes no domínio da governamentalidade: o trabalho de Marzola (1995) que trata das relações de poder, educação e regulação social inspirando-se, por sua vez, no artigo de Popkewitz (1994). Já o artigo de
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Basta observar que a quase totalidade dos ensaios se caracterizam como traduções de pesquisadores internacionais.
Veiga-Neto (1995c) traz uma sistematização do pensamento de Foucault buscando pensar suas possíveis contribuições para a educação de um modo geral, não priorizando um domínio específico de análise. O ensaio situa a relação de Foucault com o pensamento pós-moderno e pós-estrutural, afirmando, contudo, que embora as pesquisas foucaultianas se cruzem com muitos outros pensamentos, ―ele não é representativo daquilo que se entende por pós- estruturalismo‖ (p. 10). De forma sugestiva, Veiga-Neto também explora as possibilidades dos três eixos foucaultianos – arqueologia, genealogia e ética - para pensar a educação.
No que diz respeito ao terceiro eixo, o da ética, ele é explorado, ainda de forma bastante tímida. Esse domínio desponta, por exemplo, no artigo de Grün (1995) e de Louro (1995), mas é abordado de forma sintética sem mediações ou articulações com a analítica do poder. Essa temática aparece muito mais como ideias que ainda precisariam ser amadurecidas.
Outra questão que não se pode deixar de mencionar, nessa obra, é a angústia de alguns pesquisadores por terem que se confrontar com os fundamentos que até então utilizavam para refletir acerca das questões pedagógicas. Costa (1995), nessa direção, explicita que estava realizando um movimento de revisão dos trabalhos que havia ancorado na teoria educacional crítica a partir das ferramentas do pós-estruturalismo. Para a autora, os textos de Foucault teriam abalado sua crença na pedagogia moderna, desconstruindo a premissa ―que vincula poder à opressão e saber à verdade e à liberdade‖ (p. 121). Já Ogiba (1995) afirma que
por ter ingressado no campo profissional da educação num período em que o pensamento pedagógico buscava romper com pressupostos epistemológicos positivistas e afirmar-se como uma instância de teorização educacional crítica, o pensamento pós-estrutural não deixa de provocar em mim e, certamente, na grande maioria dos/as educadores/as, uma profunda inquietação e um certo sentimento de desconforto. E isto porque esse tipo de pensamento nos remete a uma posição de agente transgressor/a da racionalidade e tradição ocidental modernas, pelo fato de nos colocar frente à ruptura com paradigmas científicos que até então direcionaram as investigações. (OGIBA, 1995, p. 232, grifo nosso).
A análise das temáticas, presentes na obra, permite destacar a prevalência da questão do poder e seus desdobramentos com um total de seis ensaios; um artigo que aborda o domínio do saber e um que trata das questões acerca da governamentalidade (ver Tabela 3).
Em relação aos conceitos utilizados, percebe-se uma inversão no domínio do poder, a temática da verdade se destaca seguida, agora, da noção de disciplina. No domínio do saber, evidencia-se a categoria discurso e no domínio da governamentalidade a ideia de educação como regulação social. Assim Crítica pós-estruturalista e educação parece representar um movimento de síntese dos usos do pensamento de Foucault pelo campo pedagógico brasileiro nesse momento. Mais do que isso: parece expressar o esforço de um grupo de professores, que, de forma ousada, ensaiaram formas de explorar outros modos de teorizar a educação.
No conjunto, as três obras destacadas trouxeram contribuições significativas, nos anos 1990, para a disseminação do pensamento foucaultiano no campo educacional. Paraíso (2004) observa que as linhas de reflexão mais exploradas foram ―as relações de poder na educação [...] a do sujeito [...] a da descrição e análise da artificialidade da produção de saberes na educação‖ (p. 289). Mais:
algumas linhas traçadas são exploradas, estendidas, traçadas de outros modos. Outras linhas parecem desmancharem-se logo que traçadas. Algumas fazem contornos. Outras demarcam diferenças. Outras ainda parecem sumir no silêncio dado em resposta à sua força de inquietação. Algumas linhas proliferam. Outras não aumentam sua potência e não há continuidade nos seus traçados iniciados. Talvez porque, naquele momento, as linhas tenham sido fortes, vivas e cortantes demais. (PARAÍSO, 2004, p. 289).
Rago (1993) também analisa que, nesse momento, estava entrando ―em cena as reflexões sobre os modos de subjetivação e seus processos diferenciados‖ (p. 122). Entretanto, ela afirma que as discussões ainda eram muitas confusas, tendo em vista a tentativa de utilizar Foucault para fortalecer as discussões sobre identidades e luta de classes. Como resultado, a temática do poder desdobrava-se na reflexão sobre a produção de identidades assujeitadas,
Domínio N. trabalhos Conceitos Autores
Saber 1 Discurso Grün
Poder 6
Relações de poder Kinijnik
Verdade Costa; Corazza; Ogiba
Disciplina Louro; Silva
Governamentalidade 1 Regulação Marzola
Fonte: Dados de pesquisa
Tabela 3 - Domínios e conceitos foucaultianos mapeados na obra Crítica pós-
mas a problematização da questão do sujeito, ela mesma, não se articulava diretamente com o debate sobre os processos de subjetivação.
Assim, os caminhos trilhados nessa segunda recepção do pensamento de Foucault, entre os educadores, ainda não permitiam confrontar a imagem cristalizada do pensador como um anti-humanista inveterado e um demolidor irascível do papel e do estatuto do sujeito da educação. Nos termos mais amplos, desse trabalho, Foucault figurava ainda como um inimigo da educação pensada pelos ideais da formação humana.
1.2.2 A aparição de um pensador desconcertante na pesquisa educacional brasileira e o