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Dans le document Office of the Auditor General Our Vision (Page 31-57)

Ao defender o paradigma dialógico como mais adequado para abordar a comunicação humana, Rommetveit contribui para a discussão sobre o processo de produção de sentidos na comunicação ressaltando a importância da convergência de atenção e interesses dos parceiros conversacionais para um determinado tópico em discussão. Segundo ele, é graças a esses aspectos na comunicação que são produzidos os sentidos sobre os enunciados.

Para esclarecer essa afirmação, ele argumenta que é necessário destacar três pressupostos do paradigma dialógico: (1) a inserção da mente humana individual em uma coletividade cultural, (2) a lógica co-genética e contextual e (3) a relatividade de perspectivas.

Rommetveit nos lembra que o primeiro pressuposto não é novidade dentro do questionamento filosófico e científico sobre a condição humana, e já era defendido, por exemplo, por Spinoza ao conceber a identidade humana como sendo completamente relacional, bem como por G.H. Mead, em sua teoria da origem social do Self. A idéia de que a mente humana emerge a partir da sua inserção em uma coletividade, sendo, portanto, produto da interação simbólica, também foi firmemente compartilhada por representantes da “era de ouro” da semiótica e da psicologia soviética, tais como Vygotsky (1989, 1999, 2000) e Bakhtin (2003, 2004). Esse pressuposto da inserção da mente individual em uma coletividade cultural e, conseqüentemente, do aspecto inerentemente social da linguagem se traduz na noção de que a mente humana é dialogicamente constituída. Isso significa dizer, como defende Bakhtin (2003), que o sujeito não existe isoladamente. Uma vez que ele é constituído no diálogo, isto é, pela sua relação com o outro, sua vida está sempre permeada por relações dialógicas, de modo que as idéias e discursos que se poderiam considerar dele próprio, na

verdade, têm um caráter social: reflete os discursos de “outros” sociais presentes em sua vida desde seu nascimento. Trata-se, portanto, de um sujeito histórico, social e ideológico.

De acordo com o segundo pressuposto, o ato cognitivo de organizar o mundo resulta em uma tríade de elementos – o objeto, seu exterior e o limite entre eles – que são indefinidos e indefiníveis individualmente, mas mutuamente definíveis quando considerados juntos21. Isso significa dizer que é graças a essa lógica que o ser humano é capaz de explorar e entender sistematicamente o mundo de forma contextualizada. A lógica co-genética reflete a noção de que “Observador” e “Observado” são entidades mutuamente interdependentes, de modo que para se saber se o que é declarado sobre qualquer coisa é verdade, é necessário primeiro identificar a posição (a perspectiva) a partir da qual uma coisa qualquer é vista e trazida para a linguagem.

Esse pressuposto reflete uma relatividade de perspectivas, segundo a qual a identidade ou a noção de verdade de qualquer coisa é contingente das posições a partir das quais ela é concebida. Rommetveit assume que a relatividade de perspectivas é uma característica inerente da cognição e comunicação humanas, e, juntamente com as condições de práticas culturais compartilhadas, constituem os pré-requisitos básicos para uma convergência de atenção linguísticamente mediada para objetos e eventos.

A fim de explicitar melhor o que significa a relatividade de perspectivas, o autor chama a atenção para o exemplo da linguagem científica. Diferentemente da linguagem cotidiana, cujos sentidos são conjuntamente produzidos pelos parceiros conversacionais a partir de inúmeras possibilidades de perspectivas que podem ser propostas e compartilhadas por eles, a linguagem científica, ao contrário, é baseada em uma posição (ou perspectiva) particular e firmemente fixada dentro de cada específico campo científico. Se, por um lado, o uso cotidiano das palavras é caracterizado pela polissemia, a linguagem científica, por outro

21 Rommetveit nos lembra que “objeto” e “seu exterior”, na lógica co-genética, assemelham-se à idéia de figura e

lado, requer precisão no uso de seus termos, os quais servem como padrões que refletem as restrições existentes para a negociação de seus sentidos. Nesse último caso, as palavras são necessariamente despidas da maioria do sentido potencial que têm no seu uso cotidiano e assumem sentidos bastante específicos dentro de específicos campos de debate científico.

Assim, pode-se dizer que a linguagem científica é fundada sob conceitos bem delimitados, que refletem versões sistematicamente transformadas e inequívocas de um mesmo fragmento particular da realidade. Nela, a perspectiva é delimitada desde o início. Contudo, do ponto de vista da abordagem dialógica, não se pode dizer o mesmo a respeito da linguagem humana cotidiana. Aqui, a relatividade de perspectivas trazidas pelos parceiros conversacionais não apenas é possível como é necessária para a produção de sentidos. É graças a ela que diferentes sentidos podem ser produzidos em um mesmo discurso.

Dissemos que, de acordo com Rommetveit, a relatividade de perspectivas, juntamente às condições de práticas culturais compartilhadas, constitui os pré-requisitos básicos para uma convergência de atenção linguísticamente mediada para objetos e eventos. Segundo o paradigma dialógico, é graças a essa convergência de atenção e interesses dos parceiros conversacionais para um tópico em discussão, que se inicia o processo de produção de sentidos dos enunciados do discurso. Isso porque durante tal convergência, a subjetividade de cada um dos parceiros é convertida temporariamente em uma intersubjetividade compartilhada que permitirá a negociação e produção conjunta dos sentidos. Tal processo ocorre da seguinte forma: de início, na conversação, um dos parceiros conversacionais é quem estabelece uma das possíveis perspectivas a partir da qual os sentidos poderão ser negociados. Se seu assunto de interesse tornar-se um interesse compartilhado pelo outro parceiro conversacional (se houver a convergência da atenção do interlocutor para esse tópico e a adoção22 da perspectiva estabelecida pelo outro), ambos se engajam em uma negociação de

22 Essa adoção da perspectiva do outro não é passiva, no sentido de que o interlocutor simplesmente aceita a

sentidos que reflete a cooperação por meio da qual o discurso torna-se coerente para os dois. Por isso que, de acordo com a abordagem dialógica, os parceiros conversacionais são concebidos como epistemologicamente dependentes um do outro e co-responsáveis pelos sentidos produzidos durante a “forma de vida” que eles temporariamente compartilham. Essa dependência epistemológica significa uma distribuição da “responsabilidade epistêmica, isto é, da responsabilidade de fazer sentido do estado das coisas sobre o qual se fala, trazendo-os para a linguagem” (ROMMETVEIT, 1990, p. 98). Assim, na “forma de vida” que os parceiros conversacionais compartilham, o que é declarado pelo enunciado pode ser apenas relativamente acessado de acordo com o que é conjuntamente pressuposto pelos parceiros conversacionais em termos de condições e perspectivas de práticas compartilhadas.

Por outro lado, Rommetveit também chama a atenção para o fato de que se a perspectiva inicial não é claramente estabelecida por quem propõe o tópico sobre o qual versará a conversação, esse interlocutor estará deixando o outro livre para especificar sua posição dentro do espaço de perspectivas possíveis que podem apoiar os sentidos a serem intersubjetivamente produzidos. Disso resulta que, se o enunciado do segundo interlocutor não tiver aparentemente nada a ver com o que tencionava tratar aquele que iniciou a conversação, ainda assim esse enunciado pode ser considerado como perfeitamente apropriado ao enunciado apresentado pelo primeiro interlocutor, cuja perspectiva não foi delimitada. Nesse caso, a liberdade proporcionada ao segundo interlocutor pelo enunciado do primeiro justifica o enunciado daquele, embora se tratem de enunciados que não são embasados pela mesma perspectiva. O exemplo que o autor nos fornece a esse respeito é bem interessante. Imaginemos o seguinte diálogo entre duas pessoas:

A: você conhece Ingmar Bergman?

constantemente pelos parceiros dialógicos a cada contribuição, afinal eles são epistemologicamente responsáveis pelo que acontece ao longo do diálogo. No entanto, a adoção passiva também é possível e traz implicações para o interlocutor que assim se comporta (sobre isso discutiremos no próximo subtópico).

B: Sim, ele não é maravilhoso? Mostre-me qualquer filme de Bergman que eu não tenha visto, e eu aposto que serei capaz de selecionar dentre aqueles que ele fez os que são muito similares a esse.

A: você o conhece pessoalmente? Eu soube que ele chegará aqui a qualquer momento, e queria saber se você poderia apontá-lo pra mim. B: Desculpe-me. Eu não sei como ele se parece.

Ex.6: Diálogo em Rommetveit (1990, p. 100, tradução nossa)

Como nos sugere esse exemplo, quando o interlocutor A pergunta a B se esse conhece Ingmar Bergman, ele não estabelece para B em que perspectiva se baseia a sua questão (ou seja, que ele tem em mente a necessidade de saber se o outro conhece Ingmar Bergman “pessoalmente”, de modo a ser capaz de reconhecê-lo fisicamente). Dessa forma, A deixa B livre para responder conforme sua interpretação daquela pergunta inicial, de modo que, embora a resposta de B não corresponda ao que tencionava A, ainda assim ela pode ser considerada uma resposta apropriada, por refletir um sentido possível produzido sobre a questão inicial.

Dos argumentos de Rommetveit sobre a produção de sentidos na comunicação, destacamos particularmente esses dois aspectos – responsabilidade epistêmica e estabelecimento da perspectiva – por compreendermos que, se por um lado, ambos são imprescindíveis na produção de sentidos numa conversação (entendendo, nesse caso, a produção de sentido como um processo dinâmico que envolve todos os interlocutores que participam da conversação), por outro lado, tais aspectos assumem um caráter peculiar - e, por isso, requerem especial apreciação - quando nos referimos à produção de sentido na conversação com um chatterbot. E, nesse caso, nossas análises apenas se enriqueceram com a consideração desses aspectos.

Tudo isso que discutimos sobre responsabilidade epistêmica e estabelecimento da perspectiva torna-se complexo quando consideramos a conversação com chatterbots, por diversos motivos. Como já dissemos repetidas vezes, nessas conversações não há uma partilha

de conhecimentos entre os interlocutores, necessários ao compartilhamento das perspectivas estabelecidas (e esse compartilhamento de perspectivas jamais ocorrerá), e também não há a possibilidade de uma construção mútua de informações contextuais e semânticas, nem a inferência conjunta de pressupostos cognitivos e culturais, que garantam a facilidade de compreensão dos enunciados apresentados. Enfim, não é possível uma prática compartilhada de produção de sentidos ao longo da conversação, pois apenas um dos interlocutores é humano, e, portanto, esse trabalho de produção de sentidos se restringe a ele. Também não podemos dizer que ambos os parceiros, nesse caso, são epistemologicamente dependentes um do outro e co-responsáveis pelos significados construídos, pois, como afirmado acima, apenas o sujeito que conversa com o chatterbot, por ser humano, é capaz de ser epistemicamente responsável: ele é epistemicamente dependente do chatterbot, por ser um sujeito dialogicamente constituído; mas, do chatterbot podemos apenas dizer que é reativamente dependente do usuário.

Além disso, numa conversação com um chatterbot, sabemos que esse não é capaz de estabelecer para o interlocutor humano nenhuma perspectiva, já que se trata de um sistema artificial. Isso permite que o interlocutor humano se sinta livre estabelecer a perspectiva que lhe pareça mais apropriada naquele contexto em que se desdobra a conversação, e para direcionar a conversação conforme melhor lhe pareça, e geralmente assim ele o faz. Enquanto o chatterbot é apenas reativo às contribuições de seu interlocutor, devolvendo-lhe enunciados selecionados de seu banco de dados a partir do reconhecimento de palavras chaves presentes nos enunciados do sujeito, esse, por outro lado, revela-se responsivo ao enunciado do chatterbot, na maior parte do tempo. Mais especificamente, ele se engaja na produção de sentidos ao procurar ativamente compreender o que o chatterbot está “querendo” lhe dizer com seus enunciados. O sujeito que conversa com chatterbots tanto é capaz de estabelecer a perspectiva segundo a qual os sentidos poderão ser produzidos na conversação (e, inclusive, de

acreditar que está apenas compartilhando uma perspectiva que ele supõe ter sido estabelecida pelo chatterbot), como também é capaz de se desengajar desse processo quando se depara com enunciados do chatterbot que frustram suas expectativas. Esse é o caso, por exemplo, de enunciados elaborados segundo um gênero textual cientificamente embasado que, segundo Markovà, configuram-se como tentativas discursivas de desdialogização da linguagem. Sobre isso, esclarecemos no subtópico abaixo.

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