A discussão sobre a violência contra mulheres e o assédio sofrido por elas é uma pauta cada vez mais comum nos noticiários34, mas as profissionais jornalistas também passam por isso no âmbito do trabalho (LELO, 2019). Estudos sobre discriminações de gênero nas redações têm sido citados durante toda esta pesquisa, mostrando um cenário compartilhado entre as mulheres jornalistas e as especificidades que dizem respeito a essas profissionais, para as quais os exemplos das entrevistadas estarão aqui sublinhados.
A experiência da violência e do assédio permeia o cotidiano das jornalistas mulheres em âmbito nacional e internacional. O relatório realizado pela International Women’s Media Foundation35 em 2014 mostrou que, de 546 entrevistadas, 14,3% afirmaram ter sofrido violência sexual em situações relacionadas ao trabalho. Aproximadamente metade dos atos relatados pelas entrevistadas passaram por situações como “estavam tocando você de maneira sexual contra sua vontade (ou seja, beijar, agarrar, acariciar)” (BARTON; STORM, 2014, p. 8).
O relatório também aferiu que 38,7% das respondentes disseram que a violência sexual aconteceu “em campo” (ou seja, durante apuração jornalística) e 24,5% dentro das redações. As entrevistadas reconheceram que 94,6% dos casos de violência sexual são cometidos por homens e somente 19,3% denunciaram os abusos à polícia ou ao empregador.
Diretamente sobre assédio sexual, o relatório da International Women’s Media Foundation concluiu que 47,9% das entrevistadas já sofreram com isso em seus trabalhos. Das 999 respondentes, “20,2% relataram ‘comentários ou sons sugestivos’, 18,6% ouviram ‘piadas de natureza sexual’, e 14,7% ‘contato físico indesejado’” (BARTON; STORM, 2014, p. 9, tradução nossa)36. Os dados demonstram que a redação está longe de ser um lugar confortável para as mulheres, pois a pesquisa relatou que os assédios acontecem na maior parte das vezes no ambiente de trabalho, sendo seus algozes chefes e colegas de profissão.
No Brasil, o Coletivo de Mulheres Jornalistas do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) realizou em 2016 um levantamento sobre
34 De acordo com o Atlas da Violência elaborado pelo Ipea, em 2017, no Paraná foram assassinadas 247 mulheres; no Brasil, foram 4.936 casos.
35 A pesquisa foi on-line em inglês de 977 entrevistadas autodefinidas entre agosto de 2013 e janeiro de 2014, com trabalhadoras da mídia em todo mundo.
36 “Of 999 total acts reported, the most common were“unwanted comments on dress and appearance” 20.2% (202), “suggestive remarks or sounds” 18.6% (186), “jokes of a sexual nature” 16.9% (169), “invasion of personal space” 15.5% (155) and “unwanted physical contact” 14.7% (147).” (BARTON, A.; STORM, H, 2014, p. 9).
“Desigualdade de Gênero no Jornalismo”37, do qual participaram 535 pessoas que responderam perguntas sobre o direito das mulheres dentro das redações e assessorias de imprensa, contemplando quase todos os estados.
A pesquisa do DF mostra a preocupação da entidade com os casos relatados de assédio moral e machismo contra mulheres na profissão. Conforme o levantamento:
Das 535, 417 (77,9%) disseram ter sofrido algum tipo de assédio moral por parte de colegas ou de chefes diretos. Um número maior ainda, 78,5%, foi registrado quando as mulheres responderam se já enfrentaram algum tipo de atitude machista durante entrevistas. Mais de 70% delas disseram que já deixaram de ser designadas para uma pauta pelo fato de ser mulher. (SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO DISTRITO FEDERAL, 2016, on-line).
No mesmo levantamento, 47,5% das entrevistadas já sofreu algum tipo de violência apenas por ser mulher durante a cobertura jornalística; 46% já percebeu colegas sendo discriminadas por estarem gestantes no ambiente de trabalho. Um dado interessante é que 86,4% acredita que mulheres negras têm menos oportunidades no jornalismo, percepção que vai ao encontro de um cenário profissional formado em sua maioria por mulheres brancas (ROCHA, 2004; LEITE, 2015; MICK; LIMA, 2013).
No ano seguinte, em 2017, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Gênero e Número38 levantaram marcadores sobre tipos de assédio e violência sofridas por mulheres jornalistas durante o trabalho. A pesquisa “Mulheres no Jornalismo” indica que 73% das respondentes já ouviu comentários ou piadas de cunho sexual sobre mulheres no ambiente de trabalho. Outro dado relevante é que 70,2% das jornalistas afirmaram ter conhecimento ou ter presenciado uma colega sendo assediada; das 477 mulheres que responderam à pesquisa, 70,4% afirmaram já ter recebido “cantadas” que as deixaram desconfortáveis durante o trabalho.
Thales Vilela Lelo (2019) fez um estudo sobre as reestruturações nas empresas de mídia e, embora discutir desigualdade de gênero não tenha sido seu objetivo a priori, os dados coletados por ele na survey e nas entrevistas semiestruturadas (como os casos de assédio
37 A pesquisa foi realizada entre março e maio de 2017 por meio de questionário on-line e recebeu informações de profissionais dos seguintes estados brasileiros: Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Tocantins.
38 A pesquisa foi realizada com apoio da Google News Lab, por meio de questionário on-line, entre 26 de junho a 28 de agosto de 2017, com a participação de 477 mulheres de 271 veículos diferentes. Disponível em: https://www.mulheresnojornalismo.org.br/ Acessado em 27 de fevereiro de 2020.
ocorridos contra mulheres jornalistas durante o trabalho) evidenciaram a necessidade de tratar a questão. Durante a fase de entrevistas, nove de 15 entrevistadas afirmaram já terem sido vítimas de assédio ou visto alguma colega jornalista sofrer com desrespeito dentro da profissão.
Além disso, a inserção de um marcador de gênero na segmentação dos dados de ambos os surveys aplicados nesta pesquisa acarretou em sensíveis disparidades no tocante à remuneração, à mobilidade profissional e às formas de contratação, não obstante os indicadores de educação formal serem mais elevados entre as mulheres. (LELO, 2019, p. 118).
Segundo o autor, os casos de desrespeito sofridos pelas mulheres não podem ser negligenciados, até porque ficou evidente a indignação das profissionais quanto às injustiças que observam durante suas trajetórias profissionais. Então, a fim de entender as assimetrias de gênero no processo de feminização e a precariedade das relações de trabalho, o autor propôs quatro vetores de análise: “a) no campo da divisão sexual do trabalho; b) nas culturas organizacionais; c) nas culturas profissionais e; d) no seio das rotinas produtivas” (LELO, 2019, p. 118).
A partir da elaboração desses vetores, o autor organizou um quadro categorizando as assimetrias as quais as mulheres jornalistas estão propensas no mundo do trabalho. Para Lelo, esse quadro pode ser ampliado a partir de resultados de outras pesquisas.
Quadro 3 - Vetores de expressão das desigualdades de gênero no jornalismo 1. Divisão sexual do
trabalho A) Dupla jornada de trabalho inconciliável com a intensificação dos fluxos de produção jornalística; B) Predominância de profissionais jovens, solteiras e sem dependentes.
C) Discriminação sofrida por mulheres casadas e com filhos. D) Tendência de flexibilização dos contratos de trabalho no intuito de
conciliarem a dupla jornada.
E) Abandono precoce da carreira e dificuldade de posterior reintegração aos quadros funcionais.
2. Cultura organizacional A) Cultura organizacional que idealiza a figura masculina. B) Segregação vertical.
C) Desigualdade salarial (a despeito de maior formação escolar). D) Homossocialidade masculina.
E) Exercício de “rituais de reparação” em cargos de chefia. F) Avaliação do desempenho tacitamente ancorada em gênero. G) Avaliação profissional baseada em padrões estéticos em produtos
audiovisuais.
H) Intimidação, assédio e violência sexual.
I) Ausência de políticas para coibir casos de assédio nas empresas de comunicação
3. Cultura profissional A) Valores profissionais atrelados ao universo masculino. B) Maior prestígio atribuído aos profissionais do gênero masculino.
C) Segregação horizontal (por pautas, editorias, estilo de escrita). D) “Neutralização” da expressão de gênero por mulheres que almejam não
serem avaliadas em função de suposta “feminilidade” intrínseca
4. Rotinas produtivas A) Reprodução de binarismos de gênero nas redações.
B) Intimidação, descrédito profissional, assédio e violência perpetrados por fontes de informação e entrevistados (sobretudo autoridades públicas, membros
das elites financeiras e celebridades). C) Hipersexualização na relação com as fontes.
D) Acesso restrito a determinados espaços e maior risco de sofrer violência na cobertura de acontecimentos públicos.
E) Intimidação e ameaça na interlocução com a audiência (sobretudo na cobertura de temas supostamente ligadas ao universo masculino e em
reportagens sobre questões de gênero e sexualidade). F) Silenciamento de profissionais vítimas de assédio.
4. Rotinas produtivas G) Ausência de políticas nas empresas incumbidas de oferecerem amparo psicológico e jurídico às profissionais.
Fonte: Adaptado de Lelo (2019, p. 129).
Nesta dissertação, parte-se dos vetores elaborados por Lelo e dispostos no quadro para observar como as assimetrias de gênero aparecem tanto na fase quantitativa da pesquisa quanto nas entrevistas com as jornalistas. Nem sempre esses vetores aparecem de forma clara no cotidiano de trabalho, justamente por serem fatores que impactam principalmente as
mulheres dentro das redações, sejam elas em redações de veículos ou em assessorias de imprensa.