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3 z COMMUNICATION FINANCIÈRE AU QUOTIDIEN
Em que consistiu a virada freudiana em relação à noção de corpo? No primeiro capítulo desta parte, aludimos à concepção com que a modernidade pensou o corpo. Nesse sentido lembremos que a tendência com que se instituiu a ciência moderna pretendeu propor conhecimentos e uma metodologia esvaziada de toda subjetividade (LINHARES, 1999, p. 86-96).
A dissecação de cadáveres se constitui em modelo de um modo de construção de conhecimento e de um objeto de estudo que devia ser demonstrável e universal. Linhares nos convida a evocar a obra de Rembrandt A lição de anatomia46, como uma
alegoria da observação científica de uma “coisa” inerte, muda e exposta. Nessa cena pode se observar de um lado, “o objeto de investigação: um corpo morto; do outro, um pensamento vivo que disseca e observa. O sujeito observador e seu objeto de estudo se encontram assim partidos, radicalmente opostos quanto à matéria constituinte de sua própria natureza” (LINHARES, 1999, p. 86). Aqui apreciamos a radical separação do objeto científico, externo ao observador, o qual observa segundo o ideal da assepsia. A
46 Um dos quadros mais famosos de Rembrandt: A lição de anatomia do Dr. Tup, pintado em 1632, pertence ao acervo do Museu Rijnmuseum de Amsterdam.
141 observação, então solidária a uma simples constatação, se assemelharia a uma experiência esvaziada de toda subjetividade. Como já o comentamos anteriormente, Freud contribuiu substancialmente para uma ruptura dessa concepção de ciência. Sabemos que Freud sempre reivindicou a cientificidade da psicanálise, posicionando-se como herdeiro do positivismo, mas não podemos desconhecer que o nascimento da psicanálise se funda numa filiação feita de rupturas. Rupturas que dizem respeito às vias de acesso ao conhecimento e, consequentemente, à relação entre o sujeito-observador e seu objeto de estudo (LINHARES, 1999, p. 87).
Freud, quando escuta o discurso das histéricas e lhes confere um saber ao que elas tem a dizer sobre seu padecimento, tira o corpo do somente biológico por meio de uma operação segundo a qual, reveste o corpo com uma operação de linguagem. Assim, por uma parte, recusa a importância do biológico como única fonte causal do distúrbio psíquico, mas, por outra, também o reencontra ao afirmar seu papel como lugar da manifestação do psíquico e do somático. São muitos os lugares na vasta obra freudiana onde podemos encontrar referências ao corpo marcado pela linguagem: na sexualidade infantil e em sua concepção sobre a criança perverso-polimorfa; na conversão somática da histeria; no narcisismo do eu; na satisfação auto erótica; no fator constitucional na etiologia das neuroses; nas zonas erógenas; na pulsão e sua fonte somática; na linguagem de órgão da esquizofrenia; no eu corporal; na satisfação pulsional do sintoma e no masoquismo primário.
Para conceber a noção de corpo em Freud deve se fazer referência a que na metapsicologia freudiana existe um conceito princeps que ultrapassa o biológico, um conceito limite entre o psicológico e o biológico: a pulsão (Trieb). Quando Freud inventa essa dupla inscrição implícita no conceito de pulsão, vai além do biológico porque coloca em evidência que o somático habita o corpo como lugar da realização de um desejo inconsciente. Por que isto? Porque Freud reconhece que a excitação do corpo se encontra na pré-história da pulsão, mas o organismo e sua excitação se situam aquém da pulsão: “o organismo não é causa de nada, nem da pulsão, nem do prazer de órgão, mas sem a corporeidade nada seria possível” (ASSOUN, 1995, p. 182).
O psicanalista francês Paul-Laurent Assoun (2003), em sua pesquisa sobre o campo semântico de corpo na obra de Freud, encontra diferentes termos: o corpo é
142 designado por uma certa coesão anatômica; mas também é Leib, ou seja, o corpo tomado em sua própria substância viva, que não é apenas um corpo, mas o “Corpo”, princípio de vida e de individuação, o qual teria uma certa conotação metafísica. Por fim, o corpo remete ao registro do somático, somatisches, “adjetivo que permite evitar os efeitos dos dois outros substantivos ao descrever processos determinados que se organizam segundo uma racionalidade ela própria determinável. Tal é o leque revelador de registros, que vai dos processos somáticos à corporeidade, passando pela referência ao corpo” (ASSOUN, 1995, p. 17).
Como expus anteriormente, Freud se negou a admitir que as doenças psíquicas fossem causadas apenas pelo corpo biológico. Isto foi constatado muito cedo em sua constituição teórica, quando comprovou que os sintomas de conversão histérica cediam ao deciframento. Entretanto, embora Lacan não tenha aludido especificamente à noção de corporeidade, este problema aparece com uma grande relevância em sua teoria.
Tributária deste campo de preocupações, a psicanalista francesa Colette Soler (2010) postula a noção de “corpo falante”. Salienta que Freud, quando descobre que a vida psíquica não se limitava à consciência, concebe o inconsciente como incidindo sobre o corpo. Esta concepção do corpo em Freud obedece à descoberta do caráter traumático da sexualidade humana, pela falta essencial do que seria o instinto sexual; o Édipo supriria essa falta por meio de incidentes sintomáticos (SOLER, 2010, p. 65). Desse viés, a “psicanálise trata o corpo”, mas o corpo erótico.
“O que é o corpo?”, se pergunta esta autora. Nesse ponto, lembra que foi pela imagem que Lacan abordou o problema do corpo. Para ela o estádio do espelho reordena um grande número de fatos destacados pelos etólogos e psicólogos: “Implica que para fazer um corpo, seja necessário um organismo e uma imagem” (SOLER, 2010, p. 69).
O problema é captar o que faz o “um” de um corpo, aquilo que faz o sentimento da unidade ou do pertencimento. A unidade é aqui atribuída à consistência da forma Gestalt visual, oposta ao estado de mal-estar e de deiscência do organismo prematuro que a imagem ainda não reuniu. E uma vez que é a prótese do imaginário que faz um corpo unificado, a partir de um organismo que sofre de despedaçamento, concebe-se que esta imagem se oferece ao amor e toma seu valor libidinal – narcisismo, dizia Freud. (SOLER, 2010, p. 69)
143 O movimento de transposição produzido por Freud na concepção do corpo toma aqui toda a sua dimensão: o corpo psicanalítico é, portanto, construído pela
alteridade. É nessa vertente que Lacan vai inscrever sua postulação sobre o estádio do
espelho e da imagem corporal, na qual ele vai além dessa tese, em relação ao mais substancial do corpo (SOLER, 2010, p. 71), Lacan chega a uma concepção que não é mais aquela da unidade imaginária ou do recorte significante, senão a que condensa o valor erótico.
Às duas oposições precedentes, do corpo unificado ao organismo despedaçado, do vivente funcional ao corpo retalhado pela representação inconsciente, acrescenta-se a do corpo mortificado ao que lhe resta vivo e que não é seu funcionamento biológico, do qual a psicanálise nada tem para conhecer, mas seu ser libidinal. (SOLER, 2010, p. 71)
Esta autora ressalva que Lacan se esforçou para dar conta das particularidades do ser libidinal, da forma como elas são provadas pela experiência psicanalítica. Aí se impõe que o gozo não se diz a não ser como periférico, fragmentário e localizado em bordas corporais, chamadas por Freud de zonas erógenas, cativadas por objetos que são peças destacadas do corpo, objetos que na teoria clássica são qualificados como pré genitais e dos quais Lacan enumera quatro: seio, fezes, voz, olhar (estes dois últimos objetos serão abordados no próximo capítulo).
Soler lembra que, como Lacan afirmou em Radiofonia, não é o organismo que se opõe a corpo, senão a “carne” (SOLER, 2010, p. 71), na medida em que este velho termo retoma as tentações da libido. Soler continua dizendo que existe o Outro corpo, o verdadeiro, o primeiro, aquele que dá corpo, e o Outro corpo que é a linguagem: “ele é o corpo sutil, mas corpo” (LACAN, 1953, apud SOLER, 2010, p. 71). E acrescenta mais adiante que o simbólico é corpo na medida em que seus elementos estão coordenados num sistema de relações internas de seus elementos materiais, os significantes. Portanto, é o corpo do simbólico, corpo incorpóreo, que, ao se incorporar, nos dá um corpo em um duplo sentido: o simbólico atribui um corpo, mas essencialmente, o fabrica (SOLER, 2010, p. 71).
Essa autora sublinha que Lacan não se ateve só à tese de Freud em relação ao corpo e, tendo reconhecido as formações do inconsciente freudianas como mecanismos do significante, imputou as representações do despedaçamento do corpo não mais à prematuração, senão ao próprio efeito do significante. Assim, pode-se comparar a
144 coesão do corpo animal e o despedaçamento fantasmático do corpo humano. A autora ressalta que Lacan em várias partes de seu ensino afirmou que
[...] o organismo subsiste um tempo na sua forma, ao passo que sonhos e sintomas dão testemunho de uma anatomia significante despedaçada, que não tem nada de animal nem de vivente. […] significa dizer que a coesão do vivente opõe-se ao corpo talhado que a linguagem dá ao falasser e que, além disso, só mantém sua unidade de “um” do significante. (SOLER, 2010, p. 69)
Ao longo de nosso estudo sobre os instrumentos IRDI e AP3 encontramos uma e outra vez referências sobre o valor do olhar e da palavra na constituição psíquica da criança. Nessa perspectiva, Yañez de Jerusalinsky, na apresentação de um trabalho de Jean Bergès (1986) sobre a psicomotricidade infantil, expressa que a leitura lacaniana produz uma transformação dos conceitos de corpo e espaço. Já não mais se trata de entidades físicas ou emotivas, senão da circulação do desejo em termos de inscrição; desde essa vertente carece de sentido conceber o corpo desde uma mecânica ou uma mera coordenação lógica das ações. “O corpo é traço imaginário para o significante que o Outro introduz com seu olhar que não é mera percepção, senão elo de captura e invocação do sujeito” (YAÑEZ DE JERUSALINSKY, 1986)
Bergès (1986, p. 1), no trabalho aludido, postula a concepção do corpo como receptáculo; a postura e o olhar, e a postura e a motricidade sob o olhar do Outro. Ao recuperar o que Lacan diz sobre o Estádio do Espelho postula que em seu seio vai se constituir um corpo receptáculo erotizado pelos desejos da mãe, de tal modo que as imitações precoces podem aparecer como ligadas ao desejo e à demanda. O corpo aparece assim, como um receptáculo de inscrições que aludem ao fantasma, em particular, a partir dos efeitos de captura da postura ou do olhar. Em relação aos distúrbios que possam aparecer na motricidade, este autor destaca que é preciso captar sua significação em relação ao corpo do homem que fala. Referente à postura e ao olhar sublinha que aquela não é simplesmente um vetor ou uma modalidade de expressão ou de sugestão, é fundamentalmente troca entre o que não é visto e o visível. Para Bergès a originalidade da postura reside em reunir, por um lado, a prefiguração sensório-motriz e, por outro, e a estrutura do ato perceptivo, que só o podemos conceber como ação (p. 9), uma ação que se dá em profundidade sob o olhar do outro. “A postura serve de fundo, não do lado do visível, mas do lado do invisível” (p. 11). É no cerne desse jogo de posições, profundidades, posturas, olhares que podem se conceber as instabilidades psicomotoras, assunto que só apresentamos por não ser o foco de nosso estudo, mas que é importante ter em conta na hora de pensar psicomotricidade infantil e seus distúrbios.
145 Vimos que o acolhimento que a mãe dá com seu corpo, seu olhar e suas palavras são o berço em que o bebê se desenvolve e no qual se constitui como sujeito desejante. Por isso, empreenderemos na sequência do presente capítulo uma pesquisa teórica sobre o olhar e a voz em psicanálise. Aspectos, que como já afirmamos, constituem uma trama conceitual em torno da noção de estádio do espelho.