A conclusão do presente relatório da prática clínica culmina, enquanto momento final do 5ºMestrado em CP, da ESALD, do IPCB. Neste contexto, surge enquanto resultado de um completo e intenso plano de estudos, numa síntese e evidência de todo o conhecimento adquirido ao longo do curso. Culmina com um momento de mobilização do conhecimento teórico apreendido e aplicado na prática, no reflexo dos cuidados assistenciais ao doente em fim de vida. Atuando e agindo sempre, de acordo com uma postura ética e profissional. Porque só assim, seremos humanos no cuidar.
De acordo com a EAPC (2004), os CP especializados devem ser prestados por equipas multidisciplinares com conhecimento teórico-prático, com competência especializada, focados na promoção da qualidade de vida e conforto a doente paliativo. Ressalva assim, a importância do treino de profissionais, na certificação de equipas para estágios curriculares, com o objetivo máximo de aquisição e desenvolvimento de conhecimento científico creditado (EAPC, 2004).
Neste contexto, a prática clínica assentou na mobilização de conhecimento, na partilha e aquisição de novas experiências na prestação de cuidados diários ao doente paliativo. Fazendo uma reflexão da prática assistencial, fundamentando as atividades desenvolvidas e conhecimento apreendido, com base em fontes bibliográficas de referência na área dos CP.
Assim, a prática clínica na ECSCP do ACES, revelou-se um momento de conhecimento épico. No conhecimento de uma nova realidade, na confrontação com os desafios que a comunidade nos apresenta. Num trabalho direto e diário com o doente e família, nas suas zonas de conforto. No acolhimento enquanto elemento integrante da ECSCP, na participação dos cuidados e na avaliação e discussão de planos de cuidados. Permitindo também a atuação enquanto consultora no controlo de sintomas e ajuste de planos de cuidados. A receção, integração e desenvolvimento enquanto elemento da equipa, revelou-se uma mais-valia, enquanto profissional e ser humano. Numa aprendizagem contínua e duradoura, na criação de elos de ligação e numa relação de confiança e companheirismo. Um crescimento sublime. Cumprindo os objetivos delineados inicialmente, com o desenvolvimento das competências estabelecidas, pelas atividades realizadas. Fundamentado sempre, pelo conhecimento científico especializado.
A realização do projeto de intervenção na UCP, reflete a sensibilização da equipa multidisciplinar para a importância do suporte espiritual ao doente em fim de vida, a par da capacitação gradual da equipa, refletida na prática pautada, mas contínua da equipa multidisciplinar. A cumprir os objetivos a curto, médio e longo prazo, pretende-se na continuidade dos cuidados, obter o reflexo de todo um trabalho delineado e desenvolvido ao longo do presente curso. Atividades desenvolvidas na prática e expostas no presente relatório, ditam a importância do suporte espiritual ao doente em fim de vida.
No decorrer da prática clínica, foi curioso observar as diferenças presentes em ambiente hospitalar e o comunitário. Pelo destaque na ECSCP da necessidade de um cuidador capaz, 24horas junto do doente, conseguindo perceber o porquê e a inviabilidade do trabalho de uma ECSCP quando não presente um cuidador capaz; pela capacidade de apreensão de informação e ensino de práticas como a administração de terapêutica via SC e identificação de sintomas, pelo próprio doente e/ou o cuidador; pela aceitação e acolhimento do doente e família, em domicílio, na prestação de cuidados e apoio pela ECSCP; pela capacidade de aceitação da finitude enquanto ser humano e aceitação da morte em casa. Este último, talvez para mim, muito curioso de comprovar, já que no meio intra-hospitalar, na UCP, a família reflete, não raras vezes, o medo do familiar morrer em casa. Com a ECSCP, pude observar a morte serena em domicílio. Cuidadores capazes de aceitar, estar presente e prestar os cuidados ao seu familiar no momento final de vida deste.
Numa sucessão de desafios, e saindo da minha área de conforto, a realidade na comunidade põe-nos à prova a cada momento. De forma desafiante, o doente e família, aliado às suas preocupações, fragilidades e motivações, surgem como foco de trabalho e superação diária. E para tal, o apoio e acolhimento pela ECSCP foi crucial. Na perspetiva de uma equipa experiente, em crescimento contínuo, mas muito humilde e de trato fácil, o acolhimento na mesma e a troca de experiência e conhecimento, foram as bases de crescimento e superação de eventuais dificuldades vividas no seio da mesma.
Aliando também a importância do suporte espiritual para a mesma, na vertente na comunidade, com o doente e família. Sendo a ECSCP muito sensível à temática da espiritualidade, a partilha de conhecimento também nesta área foi uma constante, tornando-se em algo de benéfico também. Fundamentando cada vez mais, a importância da mesma na prática assistencial. Num trabalho, por vezes, continuado na UCP, pelo internamento do doente acompanhado inicialmente pela ECSCP, na UCP. Permitindo mais uma vez a valorização do suporte espiritual.
Pude ainda constatar a necessidade de reforço dos recursos humanos numa ECSCP. Pelo trabalho desenvolvido, pela área geográfica de atuação e pela complexidade dos doentes. O doente paliativo deve ser avaliado e cuidado nas diferentes dimensões, devendo a equipa que o acompanha ser detentora de treino especializado, com disponibilidade de recursos humanos suficiente para a área de trabalho. Não esquecendo a necessidade de estratégias de superação do burnout, uma vez que nos defrontamos diariamente com momentos de maior descarga e instabilidade física, psíquica e emocional. Tal como mencionado no PEDCP no biénio 2017-2018 (2016, p.9), “São também indicadores de complexidade a presença de problemas de ajustamento emocional e transtornos de adaptação, assim como a presença de alterações da conduta e da relação social”. Validado ainda no Relatório Primavera (2017), a necessidade da máxima cobertura nos cuidados ao doente paliativo, fazendo menção ao reduzido número de profissionais em tempo integral na prática assistencial. Reforça ainda a necessidade de priorizar o desenvolvimento de
competências. Defendido na Carta de Praga, a qual faz menção, à acessibilidade ainda por vezes, limitada ou inexistente, em muitos países, o que acarreta a um sofrimento desnecessário que pode e deve ser colmatado (EAPC, 2013).
É no decorrer de todo o processo de doença, que temos de trabalhar a perda – real ou simbólica. Sendo que, é quando nos deparamos com um processo de doença grave, incurável e progressiva, que nos sentimos ameaçados enquanto pessoa, enquanto ser holístico, com necessidade de expressarmos sentimentos, de amar e sermos amados. E são todas estas mesmas experiências com a realidade da morte que nos tornam um ser humano mais rico. Mais atenta e, acima de tudo mais desperta neste mundo. Um ser humano em crescimento, de forma ascendente e positiva, na procura da serenidade e tranquilidade, a par da prestação de cuidados àquele que padece e família que o acompanha incessantemente, numa atitude de extremo altruísmo, em que ceder por vezes surge como uma oportunidade, e a perda do ente querido, como uma realidade intangível.
Cabe a cada um de nós, enquanto profissionais de saúde e equipa multidisciplinar, aprender, apreender e transmitir esse saber. Aceitar a perda e ajudar o outro nessa mesma perda. De mente e coração aberto, e sempre cientes de que, “A última palavra e a mais preponderante é a do doente” (Chochinov, 2011, p.114).