3. Establishing Procedures to Prevent Security Problems
3.8 Communicating Security Policy
Essa atuação de setores ligados à Igreja Católica, também foi identificada por Estevão Palitot (2008) que ressalta a forte influência da Diocese de Crateús, através de sua “orientação progressista”. O autor afirma que, “o movimento indígena na cidade de Crateús e demais munícipios da Serra da Ibiapaba tem suas origens nestas experiências de organização da igreja voltadas para a libertação das classes mais pobres” (PALITOT, 2008, p. 1). Nesta mesma perspectiva Bruno Silva, no contexto de Poranga também ressalta que “descrever o contexto da organização indígena nos remonta ao período de atuação religiosa e política produzida no âmbito da Diocese de Crateús” (SILVA, 2013, p. 66). A exemplo do que foi identificado por ambos os autores, também foi percebido na cidade de São Benedito representado pela Diocese de Tianguá sob a liderança de Dom Javier, que ficou à frente da Diocese até o início do ano de 2017. Esse é um agente externo, que muito contribui para motivar a luta indígena Tapuya Kariri, através dos responsáveis pela Pastoral Social irmã Maria Luisa e Felipe.
Os trabalhos da Diocese de Tianguá junto aos indígenas, começam em meados do ano de 2009. De acordo com os relatos da cacique Andrea, a equipe da Pastoral Social tinha ido na Muricituba, localidade vizinha a Carnaúba II, a procura de um grupo quilombola. E sta informação, havia sido passada a equipe por um senhor que trabalhava em projetos da igreja. Entretanto, quando o grupo chegou na localidade, os moradores não se identificavam enquanto tal, o que logo, ocasionou a volta da equipe para Tianguá. No retorno, ao passarem pela Carnaúba, acabaram desembarcando na localidade, onde estava acontecendo uma reunião do movimento Tapuya Kariri. Ao presenciar tal acontecimento e com uma primeira escuta dos indígenas acerca das reivindicações, bem como a conversa com Andrea, a irmã Maria Luisa se interessou pelo assunto e marcaram uma reunião posterior com a comunidade.
Este caso é parecido com o quadro encontrado por Carmem Lima (2010) na Diocese de Crateús, onde a Pastoral Indígena, atuou no início em parceria com a Pastoral da Consciência Negra, que já existia na Diocese. As pesquisas objetivavam “pesquisas de origens” que viesse a identificar as “raízes negras e indígenas”. Entretanto, houve um maior quantitativo de pessoas que se identificaram como indígenas e com isso, cria-se a Pastoral Indígena. Aqui, ocorre o inverso, invés de negros, encontra-se índios.
Desde então, é muito forte a representatividade que estas pessoas têm junto aos Tapuya Kariri. As ações desenvolvidas, são vistas como uma ferramenta que muito auxiliou no enfrentamento as opressões sofridas pelos indígenas. Em 2009, a Pastoral Social de Tianguá procurou o Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar vinculada à Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia de Assembleia legislativa para falar sobre as opressões vivenciadas pelo povo Tapuya Kariri, entre eles, os conflitos voltados para o uso do território pelos posseiros, acarretando problemas para os indígenas.
Chico Antônio um agente da pastoral que estava retomando o acompanhamento a desenvolvido pela Diocese, afirma que a Pastoral chegou a comunidade, pelo interesse na “identificação como indígena”. Ele lembra que na época, foi Felipe Sanches e a irmã Maria Luísa que ficaram à frente das ações que vieram a ser desenvolvidas, visto que, ele, estava se ausentando para se dedicar a outros projetos pessoais. Em sua análise, muita coisa mudou nesses oito anos. Ressalta ainda, que o caminho percorrido pelos dois junto com a comunidade, teve muito haver com a luta e conquista pela terra e nisso, enfatiza a evolução em relação a conquista de direito, sobretudo a luta pela demarcação do território17.
Dentro deste contexto, a irmã Maria Luiza, ou simplesmente irmã é alguém que ajudou a erguer o movimento na aldeia e ensinou os Tapuya Kariri a seguir lutando por seus direitos, sendo o apoio nas horas de maiores necessidades, fossem elas físicas, ou não. Sua predisposição em ajudar é marcada nas lembranças e ações que ali desenvolveu. Ela, juntamente com a equipe que a acompanhava, de modo especial, o Felipe, é lembrado pelos indígenas, participando de muitos momentos de luta, seja na denúncia de irregularidades, na companhia em audiências, nas retomadas, onde sempre esteve presente, nos aconselhamentos, elaborando estratégias junto com o povo para conseguirem conquistar os espaços que hoje, ocupam.
Os eventos protagonizados por essas pessoas estão vivas na memória Tapuya Kariri, Quando foi pra gente derrubar a torre, ela, que ensinou como era e como não era. Quando o posseiro quis vir construir aí, ao lado da casa do papai, nós ligamos pra ela e de tarde ela já estava aqui com um carro cheio de muda pra gente plantar e arame para cercar e marcar como nosso. Na hora que precisasse, era só a gente ligar, quando a gente cuidava que não, ela chegava aqui com o pessoal dela (Vice-cacique Neguim, maio de 2016).
17 Reunião com os jovens e lideranças indígenas em setembro de 2016. Na ocasião, a Caritas estava retomando
alguns projetos entre eles o acompanhamento com outras pessoas que estavam a frente frende do movimento, junto aos Tapuya Kariri.
São muitos os momentos em que a atuação da igreja católica aparece em auxílio a luta pelo território junto ao povo Tapuya Kariri. De certa forma, a chegada da Pastoral no ano de 2009, especificamente das pessoas já citadas, amenizou o tempo da dureza, do baixar a cabeça para os poderosos que marcou tantos anos da vida dos moradores. A colaboração, o auxílio de diferentes maneiras, era um recurso certo. Foi este contexto que deu segurança para os Tapuya Kariri seguirem na luta, pois sabiam que tinham alguém a quem recorrer na hora do sufoco: “a gente recorre é a Diocese mesmo, né a FUNAI não. Se a gente fosse esperar só pela FUNAI, coitados de nós” (cacique Andrea, fevereiro de 2017). Logo, estes agentes pastorais, “animaram os ânimos” daquelas pessoas e juntos transformaram um movimento cada vez mais organizado. Sobre isso Palitot (2008), afirma que:
[...] Os trabalhos dos agentes pastorais com os grupos populares serviram como catalisadores de processos de reconhecimento e comunicação das experiências sociais, criando um campo comunicativo de interpretações e significados que afirmam uma trajetória comum: a abundância proporcionada pelas terras originariamente livres, a exploração do trabalho pelos donos de terras e as relações de patronagem, o êxodo rural movido pela perda das terras, a convivência nas periferias, o encontro com histórias de vida semelhantes na caminhada do movimento pastoral (PALITOT, 2008, p. 9).
Um acontecimento marcante, foi a ajuda financeira que a Diocese de Tianguá ofereceu para a construção da escola indígena. Grande parte do dinheiro para a compra do material, foi doação da Igreja. Por essa e tantas outras manifestações de ajuda, o Dom Javier é uma pessoa muito querida pelos indígenas ainda hoje. Na comemoração do dia do índio em abril de 2016, o Dom, esteve na aldeia para festejar junto com eles. Apesar da irmã Maria Luiza e do Felipe Sanches não mais fazerem o acompanhamento junto ao movimento hoje em dia, outros membros da Diocese estão à frente. No mês de outubro de 2016, uma equipe da Cáritas de Tianguá esteve na aldeia em reunião com jovens, professores e lideranças indígenas buscando reafirmar o acompanhamento que já vem há alguns anos. Em fevereiro de 2017, uma equipe da Cáritas Diocesana que trabalha com juventude, também esteve na aldeia gravando um documentário com os jovens indígenas. Nesse sentido, a Diocese de Tianguá tem acompanhado ao longo dos anos o crescimento da população, mas sobretudo as lutas e conquistas já alcançadas.
Diante do que foi visto aqui sobre o movimento indígena Tapuya Kariri e o que foi encontrado em Crateús em relação ao papel da Igreja, existe uma pequena diferença no sentido de como ocorreu a organização e a reinvindicação étnica oficial. No caso de Crateús,
[...] mesmo havendo certa noção de ancestralidade indígena desses grupos que seja anterior à sua chegada na cidade é apenas através do trabalho da Pastoral Raízes Indígenas, enquanto um desdobramento da pastoral mais ampla da igreja popular, que eles passam a se organizar e a reivindicar o reconhecimento étnico oficial (PALITOT, 2008, p. 17). Como se vê, a Pastoral foi essencial para essa primeira mobilização, como identificado pelo autor acima citado e também por Carmem Lúcia (2010) e Bruno Silva (2013). Já em São Benedito, os indígenas já estavam a quase três anos organizados e reconhecidos oficialmente, inclusive com uma escola diferenciada. Logo, enquanto em Crateús a Pastoral Indígena desenvolveu ações para a “construção da etnicidade indígena” (LIMA, 2010), o papel desempenhado pela Pastoral Social junto aos Tapuya Kariri, foi no sentido de fortalecer, de dar subsídios para o crescimento, desenvolvimento e autonomia para a tomada de decisões e enfretamento.
É perceptível os agentes aqui mencionados desempenharam um papel de grade valia para o processo de solidificação do movimento indígena Tapuya Kariri local. Contudo, o acionamento da memória social para além de uma marca identitária, configurou-se como mecanismo de reconstruir vivências e relações que legitimam o pertencimento territorial. A finalidade do próximo tópico é de demonstrar, que a representação do passado é sempre evocada através das narrativas que estão diretamente ligadas a identidade deste povo.