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Commune nouvelle Dinan

Dans le document CONVOCATION DU CONSEIL MUNICIPAL (Page 49-59)

Jogar mais com a liberdade do que com a obrigação pressupõe um elemento significativo na vida dos fiéis, o qual, nos tempos de hoje, perpassa também a religião, pois a relação fé e oferta não prescinde da possibilidade de não se alcançar o desejável, mesmo que seja Deus o sujeito de maior importância em tal relação: esse elemento é o risco, isto é, o aspecto negativo da possibilidade. Gomes (1992, p. 49) já havia refletido sobre o referido aspecto:

A complicada relação entre fé e oferendas, em que a oferta não simplesmente pressupõe a fé, mas, a faz existir enquanto tal é iluminada pela idéia de risco, impressiona a quem freqüenta os cultos da Igreja Universal as ofertas propostas pelos pastores, haja vista a condição financeira dos fiéis. A desproporção é assombrosa, brutal. Pede-se, por exemplo, todo o salário do mês, toda a poupança familiar, os óculos do míope, as alianças de ouro, a escritura da casa ou o dinheiro que tem nos bolsos no momento da celebração, ainda que esse se destinasse ao mercado semanal ou ao medicamento indispensável. Do ponto de vista meramente econômico, uma proposta deste tipo obviamente não é sensata; talvez fosse melhor pedir uma oferta menor, mas, que assegurasse a permanência do indivíduo como doador, sem o risco de um esgotamento dos seus recursos. Acontece que o objetivo da oferta, do ponto de vista da justificação teológica do grupo, não é assegurar um fluxo constante de recursos do fiel para os líderes da comunidade, mas, proporcionar ao fiel a oportunidade de arriscar-se. Em outros termos, a oferta deve levar o doador a uma situação de risco, onde ou Deus lhe retribui com a posse ou ele simplesmente está perdido. Assim, o indivíduo que doa o salário mensal põe em risco toda a sua família.

Colocamos a noção de risco como elemento constitutivo da liberdade, porque esta é inerente à escolha que o “eu” faz de si mesmo e a toda decisão existencial. Decidir que o dinheiro deve ir, em forma de doação, às mãos de Deus, implica, de algum modo, a possibilidade de as coisas acontecerem diferentemente daquilo que se decidiu. A fé não é tão cega que anule da consciência de que pode haver como contrapartida, em face de doação total, o poder não ser.

Na expressão "fé é certeza de coisas que não se vê (sic!) e a convicção de fatos

que deve recair, antes de tudo, sobre a instituição religiosa, pois esta joga com a sua própria legitimação. Nesse sentido, embora 'certeza' e 'convicção' funcionem como negação do risco – porque possibilitam abolir a indecisão por um lado, mas, por outro, a infidelidade do fiel não o faz sentir-se capaz de manter a oferta por ele mesmo estabelecida –, o risco termina por ser revelador da indecisão de não se ofertar sempre “o tudo”. Para encobrir a situação de risco, mas sem a negar, a instituição neopentecostal, por intermédio de seus líderes, fala do "capeta", do "demônio", do "tranca-rua", que age, forçando ou criando uma indecisão para o fiel não dar, não ofertar. Ora, o mundo dito civilizado foi o grande mentor político, ideológico e técnico que fez ruir a indecisão, em clara demonstração de que o que importa mesmo para nossa sobrevivência é tomarmos decisões, pois é exigência de nossa sociedade, na qual o risco é uma de suas preponderantes características. Nesse prisma, a instituição religiosa neopentecostal para ter êxito do ponto de vista da busca por sua legitimação, ao mesmo tempo em que procura abolir o risco, firmando a certeza e a convicção por meio das ofertas, proporciona ao fiel a oportunidade de arriscar. O passado religioso do fiel é um ponto de apoio fundamental no sentido de que deve ser rompido, porque, seja lá o que ele fez, nunca arriscar era preciso 109. No passado, sua tarefa resumia-se a confiar na religião. Na atualidade, é comum ouvirmos um "obreiro" ou "homem de Deus" dizer a determinado fiel recém- chegado que não é na religião que tem de acreditar, mas deve esperar, pois o futuro, com vitórias e conquistas, vai depender dele mesmo:

A prosperidade, admito que ela venha através da fé. A fé de cada um. Se você tem fé e crer naquilo que não se vê, aí você, lutando, consegue. Porque Deus sozinho não consegue fazer. Se a gente não lutar, também não pode obter. É essa minha opinião. Agora, como é possível dar testemunho de prosperidade? Isso aí é através do nome de Deus e através da bíblia, que é sua palavra e ela ensina muito como o homem deve prosperar. O homem prospera assim: ele tem que se lançar nas coisas de Deus e confiar que ele vai ser um vencedor; como aconteceu na minha casa. Eu, antes de conhecer a Igreja Universal, eu era uma pessoa que não sabia como agir [...]. Tem muita

109 Um crente evangélico pentecostal ex-católico possivelmente não ofertava a Deus com tanta fidelidade quanto oferta agora no novo espaço de pertencimento. Na oferta católica, a noção de risco, por certo, não era sentida ao ponto de saber que dar seria preciso e, mais ainda, o melhor, o tudo.

gente que vai e que pensa que, de uma hora para outra, acontece as coisas. É através da luta e da experiência no nome de Deus que ele vai conseguir (Entrevista n. 11).

Digamos um planejamento de vida. Eu quero trabalhar em tal lugar, de tal forma. Aí você determina. Se você ficar parado e esperar que alguém vai te chamar, não dá [...]. É como nós aprendemos: a única coisa que cai do céu é chuva e granizo. Então, nós temos essa convicção. Não adianta nós acreditarmos que Deus pode fazer e pronto, não; nós temos que ter ação. Porque a história da bíblia, e você pode ler que não houve somente uma espera, houve também uma luta para se conquistar todas as coisas que se queria conquistar. (Entrevista n. 12).

Giddens (2000, p. 34) refletia que o risco é a dinâmica mobilizadora de sociedade propensa à mudança, que deseja determinar seu próprio futuro, em vez de confiá-lo à religião, à tradição, ou aos caprichos da natureza. “Proporcionar, ao fiel, oportunidade de arriscar-se” é, antes de tudo, numa experiência religiosa neopentecostal, elevar sua auto-estima, determinar-lhe objetivos e mobilizar-lhe a fé, ativando-a. Em outras palavras, o pressuposto desse pertencimento religioso é uma dinâmica mobilizadora, e, antes do testemunho, em viva voz, sobre a conquista alcançada, a oferta já fora depositada em altar, como sinal de resolução acerca de um problema pessoal ou familiar.

Podemos identificar essa dinâmica mobilizadora por meio das expressões, como "Crer naquilo que se vê", "Deus sozinho não consegue fazer", "se a gente não lutar não pode obter", “se lançar nas coisas de Deus”, "confiar que vai ser um vencedor", "é através da luta e da experiência no nome de Deus", "esperar que alguém vá te chamar, não dá”, “não adianta acreditarmos que Deus pode fazer e pronto", "nós temos que ter ação". Tais expressões não só compõem o discurso de fé, mas também vão testando, em determinadas circunstâncias, o caráter do fiel. E mais: ante o leque de necessidades, ainda se revigora a fé do indivíduo na experiência que faz do seu Deus, bem como se energiza o risco a que é levado no ato de ofertar: "Ou Deus lhe retribui com posse ou ele simplesmente está perdido". As mencionadas expressões significam, ainda, como a experiência neopentecostal vai moldando o fiel para mudar a sua vida, sobretudo, arrancá-lo de atitude resignativa e fazê-lo agir. Trata-se, para

nós, de uma dimensão sociológica da idéia de risco a que o fiel é levado a expor-se para superar as amarras que o diabo costura no cotidiano do crente: "Eu, antes de conhecer a Igreja Universal, eu era uma pessoa que não sabia como agir". Essa dinâmica mobilizadora, não testemunhada quando do seu pertencimento à experiência religiosa anterior, deixa claro outro aspecto inerente ao fator risco, à medida que este impulsiona mudança de posição:

Risco é uma questão de passar de uma posição para outra. Uma das mais poderosas análises do movimento na sociedade moderna veio do sociólogo Ronald Burt. O título de um livro seu sugere a peculiaridade da troca de lugares numa organização frouxa; quanto mais brecha, desvios ou intermediários entre as pessoas numa rede, mais fácil será a movimentação dos indivíduos. A incerteza na rede favorece a chance de movimento; o indivíduo pode aproveitar-se de oportunidades não previstas por outros. (SENNETT, 2004, p. 99).

O evangélico neopentecostal, em muitos casos, é um crente que mudou de posição. Embora circule no mesmo campo religioso, o cristão mudou de posição. "Agir", segundo o relato do entrevistado, não significa que ele foi posto em movimento? "Lançar-se

nas coisas", "confiar", "lutar" não é tanto um cálculo, uma escolha racional, mas a esperança de que, com a libertação (de forças que estão a amarrar a prosperidade), alguma coisa ele alcance. "Temos que ter ação" é o mesmo que “o importante é fazer o esforço, arriscar a sorte”. É salutar evocarmos, à luz da perspectiva dessa esperança, as palavras do sociólogo Henri Desroche (1985, p. 40):

Seja qual for a polarização da esperança, ora num “alhures” ora num “ainda- não”, ela é uma estratégia de transição entre o Próprio e o Outro: as situações tais quais são não estão destinadas a permanecer idênticas a si mesmas, mas podem e devem vir a ser outras, até mesmo totalmente outras, sem executar a situação que faz de mim o que eu sou e sua metamorfose que acena para aquele que ainda não sou. É esta certeza que faz da esperança também uma fé.

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