3. Le goût de la lecture
3.2. Une communauté de lecteurs
A análise dos atributos dos estabelecimentos rurais existentes no Banco de Dados extraiu informações que permitiram a qualificação das Trajetórias Tecnológicas, adaptando a metodologia desenvolvida por Costa (2009b, 2011). Nesta metodologia, Costa utilizou o meio eletrônico de publicação dos dados censitários, desagregando-os no âmbito de microrregiões para toda a região Norte, aumentando muito as possibilidades de utilização das informações, permitindo, não só a edição de variáveis existentes e a criação de novas variáveis e
região, na qual a equipe de mapeamento testou as classificações via sensoriamento remoto perguntando aos moradores sobre suas propriedades (tamanho e ocorrência de jardins agrícolas).
indicadores com abrangência total, como a melhor operacionalização de conceitos-chave para a compreensão da realidade agrária em âmbito bem mais elementar, e, nesse sentido, estatisticamente bem mais abrangente. Às trajetórias tecnológicas reveladas por esta metodologia foram aplicados recursos estatísticos, tais como agregados, médias, variâncias para verificar os diversos atributos que as qualificam comparativamente nas regiões de Paragominas e Santarém/PA.
A primeira categorização, baseada no tipo de força de trabalho empregada, serviu para distinguir os agentes patronais e os camponeses/familiares e, por definição, considerou-se a força de trabalho familiar total (x) igual ao total da categoria “membros não remunerados da família maiores de 14 anos” (y) mais a metade da categoria “membros não remunerados da família menores de 14 anos” (z). A força de trabalho de terceiros, ou seja, o número de trabalhadores assalariados equivalente (w) foi obtido pela soma dos gastos com salários, com empreitas e outros contratos de prestação de serviço dividida pelo valor médio de diária prevalecente multiplicada por 300 dias médios de trabalho por ano. Considerou-se “familiar” ou “camponês” o caso cuja participação relativa da força de trabalho de terceiros global estimada no total da força de trabalho (t) não ultrapassou ½ (50%), e “patronal” o estabelecimento rural com força de trabalho de terceiros acima de ½ (50%) em relação à força de trabalho total.
As equações que representam estes cálculos são: t = x+ w
(Eq.2.1 - Total da Força de Trabalho)
(Eq.2.2 - Força de Trabalho Familiar Total)
A condição que definiu o agente como sendo camponês ou patronal foi: Se w < 50% t, então = FAMILIAR/CAMPONÊS, senão então = PATRONAL.
Isto feito submeteu-se os resultados a processos de discernimento sobre os sistemas produtivos, de forma a detectar três processos diferentes importantes: o primeiro trata-se da relevância de um dado produto ou conjunto de produtos, que nas variações da produção total revela a sua importância, e por essa via a relevância social (para o todo da economia em questão) da trajetória que lhe é subjacente – seu peso na configuração da divisão social do trabalho. Segundo, a capacidade de um dado conjunto de produtos de compensar os gestores dos processos produtivos revela sua eficiência e, em consequência, a eficiência da trajetória
de que participa na realização subjacente dos anseios privados – sua relevância microeconômica privada. A relevância social e a influência dos grupos de produtos na rentabilidade podem guardar relação dinâmica. Terceiro, se um dos grupos se revela fonte de investimentos, ele é base da capacidade de expansão da trajetória que lhe é subjacente (COSTA, 2011).
Conhecidas a relevância social e privada dos grupos de produtos, bem como se os mesmos constituem-se como fonte de investimentos, oito combinações lógicas são possíveis, as quais permitem inferências na qualificação dos modos como participam das trajetórias que lhes fundamentam, conforme é ilustrado na tabela 1.
Tabela 1 – Atributos dos grupos de produtos e expectativa quanto às formas respectivas de participação nas trajetórias tecnológicas subjacentes
P os sib ili da d es
Atributos dos grupos de produtos C la ss e do p ro du to o u gr up o de p ro du to s qu an to a os s eu s at ri bu to s
Expectativa quanto ao modo de participação na trajetória subjacente
S oc ia lm en te re le va nt e C om pe ns aç ão pr iv ad a po si ti va F on te d e in ve st im en to 1 V V V G1
Posição principal, influenciando na expansão de modo consistente e com
capacidade endógena de
desenvolvimento.
2 V V F G2
Posição principal, influenciando na expansão de modo consistente, porém sem capacidade endógena de desenvolvimento.
3 V F F G3 Posição principal, porém inconsistente e decadente.
4 F F F G4 Decadente ou ad hoc ou experimental.
5 F V V G5 Emergente com capacidade endógena
de desenvolvimento.
6 F F V G6 Subordinado, podendo se constituir
financiador.
7 V F V G7 Principal, inconsistente ou subordinada
como financiador.
8 F V F G8 Emergente, sem capacidade endógena
de desenvolvimento.
2.2.1 Sobre a Relevância Social (Macro) dos Grupos de Produtos
As “formas de produção” prevalecentes no agrário da região amazônica, assentadas sobre “peculiares relações sociais” (trabalho familiar e trabalho assalariado), distinguem-se entre si por seus fins e pelos meios utilizados para alcançá-los.
As interações trabalho-natureza, mediadas por conhecimentos e meios materiais de produção, constituem os “fundamentos técnicos” das formas de produção. As diferentes composições de produtos agregadas pelas formas de produção fundamentais são expressas genericamente por funções:
(Eq.2.3 - Valor Bruto da Produção Total) Onde a variável dependente é = Valor Bruto de Produção (VBP) total da forma de produção em questão (R$) e as variáveis independentes são (Valor Bruto da Produção da pecuária bovina: boi em pé (R$)), (VBP da pecuária bovina: leite e venda de matrizes e outros produtos (R$)), (VBP da pecuária de médios animais: basicamente suínos (R$)), (VBP da pecuária de pequenos animais: basicamente aves (R$)), (VBP das culturas permanentes (R$)), (VBP de culturas temporárias (R$)), (VBP de hortigranjeiros (R$)), (VBP da silvicultura (R$)), (VBP do extrativismo vegetal: madeira em tora (R$)) e (VBP do extrativismo vegetal: produtos florestais não-madeireiros (R$)).
Os coeficientes descrevem o modo como cada grupo de produtos e, consequentemente, o subsistema de produção a ela subjacente, participam na variação da produção total de um modo de produção. E corresponde ao número de desvios- padrão que varia em torno da sua própria média para uma variação de 1-desvio-padrão em
em torno da sua própria média, enquanto que a soma dos coeficientes em representaria o número de desvios padrão que este variaria em torno de sua média quando todas as variáveis variassem 1 desvio-padrão e, assim, podem ser comparados diretamente na explicação do que ocorre em .
Para qualificar um grupo de produtos segundo o atributo “socialmente relevante”, utilizou-se o critério: βGrupo de Produtos_VBP> 0.06 então “Verdadeiro”; senão, “Falso”. Dessa
forma, os grupos de produtos cujos VBP variam na mesma direção que o VBP total, correspondente a pelo menos 6% daquela variação.
2.2.2 Influência dos Grupos de Produtos na Rentabilidade: sua Relevância Privada
A composição da produção, tal como se encontra no momento da aplicação do questionário socioeconômico ambiental, expressa ajustamentos processados cumulativamente para atender às necessidades sociais. Também reflete finalidades das formas de produção na ótica privada, isto é, na perspectiva de seus gestores. Ajustada pela interação dos vetores (condições internas às unidades produtivas ou externas, relacionando-se com cada unidade por iniciativa de seus controladores, mas pela via do mercado ou de outras instituições), a composição da produção que reflete as necessidades privadas dos gestores dos processos produtivos pode ser expressa pela Equação 2.4:
(Eq.2.4 - Renda Líquida Total) A variável dependente corresponde à Renda Líquida (VBP total menos Custo da Produção Total), isto é, a remuneração privada dos agentes controladores dos estabelecimentos considerados. Trata-se de uma função de desempenho, cuja regressão atua na remuneração dos gestores, sua variável dependente (Equação 2.4).
A função Valor Bruto da Produção expressa o resultado social (total) de uma divisão social do trabalho (Equação 2.3), a função Renda Líquida (Equação 2.4) expressa de que modo os resultados importam aos agentes privados, suas remunerações, dependem de tal estruturação. A mesma variável independente , que na regressão da função do Valor Bruto da Produção influencia na variação da produção total, mediante a regressão da função da Renda Líquida influencia na variação da rentabilidade líquida dos estabelecimentos. Se capta com isso o papel dos sistemas produtivos de produções (os mesmos) na determinação das duas qualidades: a produção social total e a massa de excedentes (lucro) distribuídos entre os agentes privados.
Em relação ao atributo “Compensação privada positiva”, o procedimento utilizado foi: se (βGrupo de Produtos_VBP)/(βGrupo de Produtos_RL)> 0 então “Verdadeiro”; senão, “Falso”. São
considerados consistentes com os fins privados, os grupos de produtos cujos VBP influem positivamente na variação da Renda Líquida total.
2.2.3 Influência dos Grupos de Produtos nos Investimentos: Fontes Endógenas e Exógenas
Os investimentos fundamentam a dinâmica das formas de produção e das trajetórias que organizam, garantindo sua expansão. Podem ser analisados pela ótica da sua fonte, isto é, por um lado, como uma função da renda gerada na economia em questão; por outro, como uma função das disponibilidades exógenas representadas por outras fontes de financiamento.
Considerando que a renda é diretamente correlacionada com o Valor Bruto da Produção e os créditos bancários indicam a participação das fontes exógenas de financiamento, tem-se na Eq. 2.5:
(Eq.2.5 - Volume de Investimentos)
Onde é o volume de investimentos observado em função dos grupos de produtos de Valor Bruto da Produção e Renda Líquida, e de volume de crédito para investimento obtido.
Segundo este método, os coeficientes das variáveis nas regressões resultantes são medidas da participação dos grupos de produtos nas oscilações de investimentos (uma medida de participação de Y na variação do investimento); da variável CI (volume de crédito para
investimento obtido), medida da participação do crédito nessas variações. Esta função é denominada “investimento-fonte”.
A qualificação segundo o atributo “Fonte de investimento” aplicou o seguinte teste: se βGrupo de Produtos_I > 0 então “Verdadeiro”; senão, “Falso”. Se o grupo de produtos se expande,
ele contribui para a ampliação do investimento global do modo de produção – constituindo-se, portanto, fonte de investimentos.
2.2.4 Interação e atuação institucional de grupos de produtos
Considerando que as trajetórias podem se expressar em mais de um grupo de produtos, estas podem emitir diferentes sinais de seu movimento. Com isso, é necessária a observação das estruturas de correlações existentes entre os dados de produção dos grupos de produtos, e uma importante ferramenta para esse tipo de tarefa é análise fatorial, que sumariza ou reduz dados em um conjunto de variáveis observadas. Nas sumarizações, explicitam-se as cargas
fatoriais de cada variável em relação ao fator, que correspondem a coeficientes que expressam o quanto uma variável observada está carregada ou saturada em um fator.
Hair Júnior et al. (1998) ratifica que a análise fatorial pode ser utilizada para examinar os padrões ou relações que formam a base de um grande número de variáveis e determinar se as informações podem ser condensadas ou sumarizadas em um conjunto de fatores ou componentes menores. A análise fatorial é o nome genérico dado ao método de estatística multivariada, cujo propósito inicial é a definição da estrutura subjacente a uma matriz de dados.
Segundo Dosi (2006) e Arthur (1994) as trajetórias desenvolvem-se, confrontando-se em concorrência materializada no embate entre as estruturas que operam os processos produtivos e suas instituições de suporte. O modo como o ambiente institucional age sobre as estruturas produtivas e é influenciado por elas são, assim, determinantes na concorrência entre as trajetórias, fundamento no diferencial de rendimentos que as qualificam nessa concorrência.
Dessa forma, as informações relacionadas ao crédito agrícola, extraídos do questionário socioambiental, são relevantes, pois na agricultura o crédito é fundamentalmente crédito de fomento, refletindo o estado geral do ambiente institucional nas áreas rurais. Conforme Costa (2005), a variável crédito pode ser vista como proxy das relações institucionais dos agentes e suas formas de produção.
2.2.5 Trajetórias Tecnológicas reveladas
Qualificada a produção quanto à relevância social, à efetividade na compensação privada e ao desempenho no investimento; verificada, ademais, a estrutura das relações que seus componentes guardam entre si, Costa (2012) indicou os grandes movimentos que, resultantes de processos adaptativos conduzidos por agentes, de busca e seleção de possibilidades produtivas e reprodutivas, nos quais se incluem recursos institucionalmente distribuídos, conformam as trajetórias, ou seja, a sequência de eventos estruturalmente coerentes que configuram o agrário da região Norte.
Para a qualificação das trajetórias tecnológicas prevalentes nos estabelecimentos rurais investigados nesta Tese, replicou-se todas análises estatísticas efetuadas por Costa (2012), comparando os resultados encontrados com os coeficientes betas das regressões relacionadas à produção, compensação privada e investimentos, além das cargas fatoriais das combinações de grupos de produtos relativos às estruturas camponesas e patronais.