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O corpo que cria é um corpo atento ao mundo em seu entorno. É o corpo vazado – com seu fluxo livre de informações – em permanente estado de reflexão e geração de idéias, possuidor de uma mente criadora e produtora de imagens. Gaston Bachelard (1998) refere-se de forma poética às imagens da mente criadora e de como elas surgem a partir dos devaneios:

De repente uma imagem se instala no centro do nosso ser imaginante. Ela nos retém, nos fixa. Infunde-nos o ser. (p.147) [...] uma imagem que nos deleita porque acabamos de criá-la fora de qualquer responsabilidade, na absoluta liberdade do devaneio. (p.145).

O corpo num processo de criação artística é um corpo em devaneio. Um corpo que devaneia suscita imagens que, geralmente, são deflagradoras dos processos de criação da cena, incitando o desejo criador. O devaneio requisita os sentidos que nos remetem a memórias. Memórias são também imagens que, num fluxo livre de pensamento, vão levando o criador a criar novas imagens ou trazer ao devaneio presente, imagens de devaneios passados que se encontram armazenadas no corpo.

Devaneios são um misto de reflexões, imagens, memórias e histórias de corpo. Como intérprete-criador, sou surpreendido por imagens que surgem a partir de minha interação com o mundo, trazidas para dentro através da ação dos sentidos. Um cheiro, uma música, um corte na pele, uma cena cotidiana vista na rua ou a descrição dela ou até mesmo os movimentos de um outro corpo numa sala de ensaio, podem suscitar imagens e me colocar num estado de devaneio. Bachelard (1998) defende que o devaneio é uma atividade na qual subsiste uma clareza de consciência e que o sonhador de devaneios está presente no seu devaneio. Mesmo

quando se tem a impressão de que houve uma fuga para fora do real, para fora do tempo e do lugar, o sonhador do devaneio sabe que é ele quem se ausenta.

Devaneios são também conseqüência da presença do corpo no mundo. Devaneia-se o que é vivenciado e absorvido pelos corpos – com suas histórias e características idiossincráticas – em suas ações cotidianas no mundo. Devaneios na criação artística aparecem embasados no desejo comunicador do artista. No desejo de devolver ao mundo o mundo transformado em suas reflexões e imagens.

Um bom exemplo, para melhor entender o corpo em devaneio como um corpo historicizado, idiossincrático, reflexivo e presente de maneira ativa no mundo e agente de um processo de criação artística, pode ser a seqüência de movimento do dançarino Nijinsky5 na coreografia “L’Après-midi d’un Faune” (A Tarde de um Fauno) o qual simulava uma masturbação. Esta coreografia, estreada em Paris em 1912 e inspirada no poema homônimo de Stéphane Mallarmé, era dançada de pés descalços e rejeitava o formalismo do balé clássico. Nijinsky interpretava o papel do fauno que se sentia atraído sexualmente pelas ninfas. No final da cena, o fauno se ajoelhava sobre um joelho, mantendo a outra perna esticada para trás, arqueava as costas, sorria, deitava-se sobre o véu da ninfa, deslizava sua mão até a região pélvica, repetindo pequenos movimentos com a pelve e depois deitava o tronco sobre o chão.

Esta movimentação, para a época, causou um escândalo que atravessou o continente europeu. O que precisamente levou Nijinsky a criar tais movimentos é algo que não se pode afirmar. Mas não é difícil entender que esses movimentos são fruto dos devaneios do corpo Nijinsky com suas características idiossincráticas, situado num determinado espaço e tempo e possuidor de uma história. Um corpo homossexual reprimido por uma sociedade conservadora numa época – como ainda hoje – em que os valores heterossexuais eram norteadores imperativos do comportamento humano. Para Kevin Kopelson (1997, p.164) a atitude de Nijinsky refletia estereótipos homossexuais masculinos como o narcisista, o adolescente, o quiromaníaco (que se masturba), o escandaloso e o fetichista. O artista é aquele que

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Vaslav Nijinsky, dançarino e coreógrafo russo nascido em março de 1890 em Kiev. Considerado um dos maiores dançarinos de sua época pelo seu virtuosismo técnico e expressivo. Como coreógrafo, além de L’après- midi d’un Faune (1912),criou, dentre outras, Jeux (1913) e Le Sacre du Printemps (1913) que também se tornaram famosas por romperem, na época, com o formalismo do balé clássico.

tem o desejo – e a coragem – de comunicar ao mundo seus devaneios. Provavelmente o desejo do reprimido Nijinsky era exatamente chocar a sociedade.

O devaneio é essencial ao processo criativo. Salles (1998, p.43) também se refere a ele ao falar dos diálogos íntimos do artista:

Uma mente em ação mostra reflexão de toda espécie: é o artista falando com ele mesmo. São diálogos internos: devaneios desejando se tornar operantes; idéias sendo armazenadas; obras em desenvolvimento; reflexões; desejos dialogando.

Um corpo que deflagra um processo de criação artística é um complexo multissensorial atento ao mundo à sua volta. Precisa garantir um estado propício à criação para poder realizar seu desejo de comunicar ao mundo o que ele transformou a partir de sua ação, reflexão e diálogos criativos consigo mesmo e com o próprio mundo num fluxo permanente de troca de informações. A criação artística é um ato comunicativo desde o momento em que o artista gera as imagens até quando ele entrega sua obra ao mundo, dando continuidade à geração de imagens nos corpos espectadores.

Esse corpo multissensorial que se relaciona com o mundo está na metáfora utilizada por Celso Júnior ao dizer, na entrevista que realizei com ele sobre seu processo criativo, que “o artista é um agregador de ‘agoras’. Ele torna concreto uma seqüência de momentos”. Momentos por ele vividos, que nele foram armazenados, transformados e expressados.

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