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: La commission spécialisée de la prévention comprend 30 membres

régionale de la santé et de l'autonomie de la région Centre-Val de Loire

Article 2 : La commission spécialisée de la prévention comprend 30 membres

Para pensar tudo que me propus inicialmente, parti de alguns pressupostos que se tencionavam no meu cotidiano. Primeiro, estamos acostumados(as) a compreender as concepções e práticas de gênero dos interlocutores e fazer o diálogo dessas concepções com o

15 A ideia de construir pressupostos de pesquisa de modo nenhum refletiu a ideia de criar respostas fechadas às perguntas de partida iniciais. A ideia de pressuposto transitou mais no sentido de procurar refletir, de modo inicial, as possíveis respostas para perguntas que inicialmente estabeleci. Sendo assim, esses pressupostos, desde o início, estiveram abertos ao novo do que eu poderia encontrar no campo da pesquisa.

seu cotidiano: como os homens presos pela Lei Maria da Penha entendem o que é ser homem e ser mulher? Quais as concepções de gênero das mulheres que sofrem a violência?16 Este trabalho, no entanto, procura pensar as concepções de gênero dos próprios pesquisadores e analisar como eles vivenciam-nas no cotidiano. Pesquisamos costumeiramente o gênero “a partir de fora”: como se dão as relações de gênero dos nossos interlocutores. A minha intenção é de construir um trabalho a partir de uma perspectiva “de dentro”: como os estudos de gênero são apropriados e vivenciados pelos próprios pesquisadores da área? Trata-se de uma pesquisa autorreflexiva. A autorreflexividade é inerente ao processo de pesquisa, pois

[...] essa travessia na direção do outro, reordena a subjetividade do pesquisador, da sua própria identidade, rearranja os fatos de sua vida, reestrutura seu próprio olhar, se reexplica novamente diante de si mesmo. É como se ele se visse diante de um outro espelho. A partir daí, parece que estamos diante de um outro sentido, inclusive para a própria existência. (SILVA, REIS e SILVA, 1994, p. 104)

Nesse sentido, o primeiro pressuposto era o de que, para a pesquisadora de gênero o conceito interfere diretamente na sua vivencia pessoal. Gênero produz um processo de autorreflexividade. Um pesquisador que estude a criminalidade, por exemplo, muitas vezes não vivencia a questão nos termos dos seus interlocutores, assim como aquele que estude o trabalho precarizado e assim por diante. Essas questões, no máximo, lhe atingem de uma forma indireta. Gênero, por sua vez, produz um processo de autorreflexividade mais contraditório, direto, posto que o pesquisador tem uma vivência como homem, mulher, homossexual, etc. difetentemente de objetos de pesquisa que não afetam diretamente a vida das pesquisadoras. Assim, gênero, sexualidade e raça/etnia também o são.

Em outras palavras, antes de ser pesquisador, ele tem uma identidade de gênero e pesquisar as relações de gênero a partir dos interlocutores, pensando as relações que eles estabelecem entre si, é também refletir sobre seu próprio gênero e, por sua vez, refletir sobre você mesmo, seu eu, o que você é. Além de processo de desconstruir-se, é um processo de reconstrução de si. Estamos imersos nos próprios objetos que nos propomos estudar.

Somos educados numa cultura em que desde criança introjetamos o que é ser homem e ser mulher, numa lógica binária e heteronormativa: no direcionamento de gênero que nossos pais nos dão, nas brincadeiras, na escola. No entanto, essas noções são desconstruídas no espaço acadêmico, a partir do contato com os conceitos de gênero. Você realiza um processo

de desconstrução (ou reconstrução) de si mesmo, da sua educação e passa a analisar sua própria fala, seus atos mais cotidianos, sua visão de mundo. Portanto, promove um exercício de auto- reflexividade intenso: um desassossego. Você passa a desvendar seu cotidiano, sua história de vida. Esse desvendamento é propulsionado pelos estudos de gênero.

Eva Illouz (2011) defende a ideia de que o discurso da Psicologia, ao adentrar os mais diferentes espaços sociais, contribuiu para criar o que ela chama de um eu sofredor. Isso porque há uma grande patologização da vida social: os atos mais cotidianos passaram a ser objeto de classificação da Psicologia, classificados como doenças ou transtornos. Essa profusão do discurso da Psicologia no cotidiano, tem reflexos nos relacionamentos que tendem a se basear em escolhas racionais, são mais voláteis, instrumentais e a mesma linguagem que cria a possibilidade que o indivíduo entenda mais seu próprio eu, faz com que ele se instrumentalize.

Partindo dessa análise, podemos perceber que os estudos de gênero contribuíram no sentido de que pudéssemos perceber que as características historicamente atribuídas a homens e mulheres são culturais e não naturais. Portanto, isso fez com que compreendêssemos melhor a nós mesmos como homens, mulheres ou não-binários, a nossa sexualidade. Mas o salto que as pesquisas de gênero produziram não foram acompanhados pela cultura, que ainda se apresenta de forma machista. Nesse sentido, os estudos de gênero e feministas, ao permitirem conhecermos mais o nosso eu, por outro lado, esbarra no cotidiano que limita que vivamos a plenitude dessas novas descobertas. Adquiro armas de empoderamento próprio, mas isso rebate no cotidiano de diversas formas e em vários nichos sociais: na família, na roda de amigos, da própria Academia e na internet. Isso não criaria, então, um eu sofredor?

O pressuposto geral17 que norteou a problematização inicial desta pesquisa era o de que as leituras de gênero refletem na vida dos sujeitos que pesquisam essa temática provocando diversos conflitos de ordem pessoal. Esse tipo de pesquisa pressupõe um engajamento político dos pesquisadores, que costumam afirmar que já não são mais os mesmos após essas leituras.

Foram pressupostos específicos de estudo: a partir das leituras acerca das relações de gênero, o pesquisador passa a adotar como visão de mundo que os papéis sexuais são construídos culturalmente, o que entra em choque com uma realidade social que ainda se apresenta de forma machista, tendendo a atribuir a homens e mulheres papéis conforme o sexo

17 Entendo por hipótese uma resposta provisória às perguntas de partida deste trabalho. Essas hipóteses são tomadas aqui mais como pressupostos, cabendo, no momento da pesquisa, a descoberta dos dados. Trata-se de uma maneira que encontrei de refletir previamente os problemas de pesquisa aqui propostos.

de cada um. Além disso, esse machismo pode ser, contraditoriamente, reproduzido por ele mesmo e os “seus”. Bourdieu (2002) já sinalizava isso:

Como estamos incluídos, como homem ou mulher, no próprio objeto que nos esforçamos por apreender, incorporamos, sob a forma de esquemas inconscientes de percepção e de apreciação, as estruturas históricas da ordem masculina; arriscamo- nos, pois, a recorrer, para pensar a dominação masculina, a modos de pensamento que são eles próprios produto da dominação. (BOURDIEU, 2002, p. 2002)

Outro pressuposto foi a de que ocorrem impactos na dinâmica dos relacionamentos interpessoais do pesquisador, nos quais pode se tornar agente produtor de mudanças em seu cotidiano ou reproduzir valores culturais tido como tradicionais. Por sua vez, estudar gênero não me torna imune a sofrer discriminação, violência ou praticá-las. Em termos afetivos e conjugais, ocorrem conflitos de diversas ordens: dificuldade de iniciar e manter relacionamentos pela incompatibilidade nas concepções de gênero dos parceiros; familiares (pois a família ainda é foco privilegiado na disseminação de ideologias machistas).

A ideia era, inicialmente, entender como pesquisadores de gênero se confrontavam com os conservadorismos no plano microssocial: na família, na universidade, com maridos/esposas, companheiros/as, namorados/as, enfim, com “os seus”.

Num segundo momento a ideia era confrontar os conservadorismos no plano macrossocial: como refletem em políticas públicas, casas legislativas, igrejas, mídia; como esses conservadorismos refratam-se em redução de direitos para mulheres, voltas ao passado, passos para trás e refletem em nós também, pesquisadores. Portanto, fez-se necessário construir a tese em duas partes.

Pensamos a pesquisa a partir de camadas. Primeiro quisemos identificar em que momentos da biografia da pesquisadora as questões de pesquisa foram surgindo e como elas foram se consolidando, amadurecendo e se ampliando.

Num segundo momento do texto, tracei um histórico das origens do conceito de gênero e, com ele, do antifeminismo. A partir do mapeamento dos feminismos, poderíamos assim discutir as trajetórias de vida dos pesquisadores de gênero cearenses, inscritos nessa rede de relações de estudo e pesquisas que é o feminismo.

Na outra sessão, discutimos as trajetórias das pesquisadoras. Subdividimos o capitulo em x partes. Procuramos dividir nessas sessões porque o que mais se tem questionado

as pesquisadoras são: a divisão do trabalho domestico, a educação dos filhos. Também foi necessário explanar como as figuras femininas apareceram fortes no discurso dessas pesquisadoras no sentido de um estalar para as teorias de gênero.

Por fim, fomos até as fronteiras do campo de estudos. Lá onde os discursos antifeministas e antigênero se faziam presentes: nas produções bibliográficas conservadoras que serviam de fundamento para o discurso proferido em palestras, igrejas, redes sociais. Tentando entender o que não tem sido o feminismo, poderia compreender melhor o que ele é também.

As trajetórias dos pesquisadores também são afetadas pelas produções discursivas do que é exterior ao campo. Na medida em que o núcleo desse campo se fortalece, mais ferrenhas tem sido as críticas que lhe são voltadas. O antifeminismo só está presente e conseguindo mais adeptos porque o feminismo também está forte. Entendemos que essas críticas são lançadas a quem está produzindo teoricamente dentro do campo. Pesquisadores são interpelados e afetados pelas fronteiras desse campo.

Os pesquisadores realizam ativismos virtuais? Já se envolveram em discussões em torno de questões sobre feminismos e gênero? São afetadas pelos estereótipos construídos sobre as feministas? Afirmam-se feministas? Praticam feminismos?

Nesse sentido, o trabalho foi estruturado a partir de sete capítulos. Num primeiro momento introdutório, explicito a aproximação pessoal, acadêmica e profissional com a temática. Nele, as primeiras perguntas de partida que foram surgindo ao longo da pesquisa bibliográfica, bem como os primeiros pressupostos de pesquisa.

Em um segundo momento, discuto o percurso metodológico no qual está explicitado o caminho percorrido durante a pesquisa, ou seja, as diversas fases pelas quais passou a pesquisa. Apresento a primeira amostra da pesquisa: as pesquisadoras de gênero entrevistadas. Também a forma como houve a aproximação com os movimentos e os líderes de direita em Fortaleza, sendo esta a segunda amostra da pesquisa. Apresento os critérios de escolha e um perfil biográfico das interlocutoras e interlocutores. Por fim, um tópico foi reservado para discutir o recurso metodológico do uso da internet para a pesquisa de campo. Busquei, a partir desse recurso metodológico, entender como as pessoas tem se comportado virtualmente sobre as questões feministas. É através da internet que o feminismo se torna acessível a muitas pessoas. A questão é: como esse discurso é apropriado e sofre uma refração

nas redes? Como esse discurso é muitas vezes modificado de modo a ser usado contra o próprio feminismo? Ora, o virtual é real:

As comunidades eletrônicas não são virtuais. As pessoas que encontramos online não são virtuais. Elas são comunidades reais povoadas por pessoas reais, o que explica por que muitas acabam se encontrando em carne e osso. Os assuntos sobre os quais falamos em comunidades eletrônicas são assuntos importantes, por isso, muitas vezes, aprendemos e continuamos nos importando com as causas sociais e políticas sore as quais ouvimos falar por meio de nossas comunidades online. Comunidades online são comunidades [...] Elas nos ensinam sobre linguagens reais, significados reais, causas reais, culturas reais. ‘Esses grupos sociais tem uma existência real para seus participantes, e assim tem efeitos importantes em muitos aspectos do comportamento. (KOSINETS, 2014, p. 21-22)

Essa modificação não é só uma deturpação, mas um intenso trabalho de recriação através de estratégias afins com o funcionamento de redes sosicias: simplificação, viralização e espetacularização.

No terceiro capítulo procurei fazer a constituição do campo de estudos de gênero/feminista, delimitando aos poucos o contexto cearense e a entrada desses estudos nas universidades cearenses. A intenção foi que a partir da explicitação do campo de estudos e do momento histórico e conceitual no qual surge a categoria analítica gênero, eu pudesse depois situar as pesquisadoras de gênero nessa rede. Este capítulo foi um desafio pessoal de não dar um tom estritamente teórico como no início de sua escrita. Fui percebendo que a teoria não pode ser desmembrada do campo de pesquisa no decorrer do meu amadurecimento como pesquisadora e professora.

Sendo assim, no quarto capítulo tracei as trajetórias biográficas e acadêmico- profissionais das interlocutoras da pesquisa. Aqui o objetivo era compreender como foi o processo de genderificação desses sujeitos e a descoberta do gênero e da literatura feminista na Academia. Como conseguiam objetivar em suas vidas pessoais e profissionais as leituras sobre gênero e feminismos.

No quinto capítulo detive-me nas fronteiras desse campo de estudos para desvendar os sentimentos de inquietude contemporânea acerca do que chamam de “ideologia de gênero” e o feminismo. Fiz, inicialmente, um traçado histórico do antifeminismo, que corre paralelo ao próprio surgimento do movimento social feminista e depois situamos a questão na contemporaneidade. Identifico cinco pontos de conflito entre feministas e antifeministas: a

questão da igualdade, do aborto, da nudez, o estereótipo criado em torno da feminista e a relação conflituosa que os feminismos estabelecem com as diversas religiões de matriz cristã. A ideia deste capítulo foi sobremaneira descritiva, posto que, como o próprio título sugere, a proposta era situar o debate do antifeminismo, as linhas argumentativas do discurso conservador.

No sexto capítulo, muito atado ao anterior, apresentei as personalidades mais importantes geradoras dos discursos antifeministas e antigênero. No sétimo capítulo, um trecho da tese conclusivo, no qual retomo pontos discutidos anteriormente.

Portanto, a pesquisa tem dois momentos centrais. Em um primeiro momento, quis entender os reflexos que as leituras de gênero e feministas tinham na vida das pesquisadoras. Em um segundo momento, a inquietude localizada nas fronteiras do campo, a partir dos discursos antifeministas.

Os feminismos provocam desassossegos porque nascem de um conflito social, estamos imersas nesse conflito e ainda não vemos possibilidades à vista de que esse conflito se dissolva. Desse modo, o sossego não é possível, mas é prudente ressaltar que desassossegar não tem um sentido negativo aqui. Quando se trata de feministas, desassossegar significa aqui desnaturalizar o olhar, desessencializar, tirar do lugar-comum o que parece mais natural, desestabilizar noções previamente construídas sob forte cimentação desde a infância, politizar o comportamento e os relacionamentos, descentrar o olhar para enxergarmos outras possibilidades para o ser mulher e para os relacionamentos. Desassossegar faz parte do processo de pesquisa e do ofício de sociólogos. Ora, “A vida científica é extremamente dura. Os pesquisadores estão expostos a sofrer muito e eles inventam uma porção de estratégias individuais destinadas a atenuar o sofrimento.” (BOURDIEU, 2004, p. 73).

Mechemos no que está naturalizado, mesmo no ambiente acadêmico. Portanto, mais do que compreender o sentimento de desassossego provocado nas pesquisadoras de gênero e nos céticos dos feminismos como um todo, pretendo gerar outras questões que possam nos desassossegar mais. Pretendo nos tirar das nossas zonas de conforto e, quem sabe, buscar pistas para uma saída mais tranquila para esses desassossegos.

Quando o desassossego é produzido em céticos dos feminismos, ele é de outra ordem. Esse desassossego é desestabilizador de suas crenças em torno do gênero como uma categoria natural desde sempre, uma verdade eminentemente biológica, a-histórica, atemporal. Contudo, ele reafirma essa naturalização do social, promovendo uma severa resistência a tudo

que remeta ao feminismo e à desnaturalização da cultura, do biológico. Por fim, essa tese não deixou de ser uma forma de compreender-me melhor e de tentar lidar melhor com meu eu.

2 TRILHAS METODOLÓGICAS: O FAZER DE UMA ESCRITA