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OTs são capazes de inibir competitivamente a aromatase, provocando a diminuição de estrogênio (OMURA et al., 2001) e aumento nos níveis de testosterona (GROTE et al., 2004). Tais hormônios modulam a função reprodutiva de mamíferos. EMA e MIYAWAKI (2002) reportaram que os OTs diminuem o peso uterino, o ganho de peso materno, a taxa de gravidez e o número de implantes em ratas pseudográvidas. Além disso, nosso grupo demonstrou que 100 ng/kg de TBT promoveram irregularidade no ciclo estral, atresia ovariana, acúmulo de Sn nos ovários e soro, adipogênese ovariana anormal, feedback negativo irregular dos esteróides ovarianos (ARAUJO et al., 2018; PODRATZ et al., 2012; SENA et al., 2017), associado a resistência à insulina e intolerância a glicose, aumento da adiposidade e acúmulo de vacúolos lipídicos no fígado (BERTULOSO et al., 2015).

COOKE e colaboradores (2008) mostraram que o TBT pode se acumular e atravessar a placenta. OTs também se acumulam em tecidos fetais, como o fígado (GRUN

et al., 2006). Na geração F1, a exposição parental a 20 mg/kg de TBT, nos dias 0-19 ou 8-

19 de gestação, diminui o peso corporal (ADEEKO et al., 2003). A redução de 46,1% no número de células germinativas é observada nos ovários após 10 mg/kg de TBT, nos dias 8- 19 de gestação (KISHTA et al., 2007). Além disso, CHAMORRO-GARCÍA e colaboradores (2013) demonstraram que a exposição pré-natal ao TBT foi capaz de gerar herança transgeracional de complicações metabólicas até a 3ª geração, como desenvolvimento de obesidade e esteatose hepática em ambos os gêneros de camundongos.

Dessa maneira, a proposta deste estudo foi avaliar se a biotransferência dos OTs entre diferentes espécies poderia comprometer os sistemas reprodutivo e placentário de ratas adultas, e os possíveis efeitos herdados pelos fetos.

2 JUSTIFICATIVA

A contaminação ambiental provocada pelos OTs, a exposição de humanos a estes xenobióticos e a desregulação endócrina que geram em invertebrados marinhos e roedores já são estudados ao longo de várias décadas, em diversos países. No entanto, ainda não há um modelo de biotransferência dos OTs para mamíferos. Analisar os prejuízos que a exposição a soluções individuais de OTs, compradas no mercado, geram em roedores são importantes para demonstrar a toxicidade desses compostos e os efeitos sobre órgãos- alvos. No entanto, a principal via de exposição de humanos se dá com a transferência dos OTs provenientes da ingestão de organismos aquáticos contaminados, que contém uma mistura de OTs, e assim, apresentam metabolização e propriedades cinéticas diferenciadas. Além disso, uma pesquisa na base de dados digital PubMed, realizada em março de 2017, revelou apenas 12 artigos relacionando os OTs e placenta de ratas. Nesses estudos, as avaliações restringiam-se à dosagem dos OTs na placenta; registro do peso; um estudo realizou análise histológica placentária após exposição ao DBT; testes comportamentais após aplicação dos OTs na placenta; e avaliação da transferência dos OTs via placenta, após exposição das mães e dosagem nos filhotes.

Neste contexto, surgem os seguintes questionamentos: uma vez verificado o problema reprodutivo em gastrópodes, decorrentes da contaminação por OTs, poderia haver a transferência deste xenobiótico e dos distúrbios gerados nos moluscos, para outras espécies, como mamíferos terrestres, por meio da ingestão alimentar? Os possíveis prejuízos endócrinos poderiam influenciar o estado energético e o funcionamento placentário, e, assim, afetar a gestação? As alterações gestacionais poderiam acarretar danos aos fetos?

Nossa hipótese é de que a exposição aos OTs, por meio da ingestão de moluscos contaminados, prejudica a morfofuncionalidade reprodutivo-placentária e os perfis energéticos, produzindo respostas adaptativas, que são memorizadas e culminarão em distúrbios efêmeros e/ou permanentes nos fetos de ambos os sexos. Sendo assim, este estudo é pioneiro na avaliação das vias moleculares de regulação dos transportadores placentários de nutrientes após exposição de ratas adultas aos OTs, assim como em relação ao tipo de exposição aos OTs pelas ratas, que reflete mais fidedignamente a principal via de exposição de humanos.

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo Geral

Investigar a gênese e os mecanismos envolvidos nas alterações reprodutivas e do estado energético de ratas adultas, assim como na disfunção placentária e nos prejuízos aos fetos de ambos os gêneros, induzidos pela exposição direta e por herança multigeracional materna de ingestão de moluscos contaminados com organoestânicos.

3.2 Objetivos Específicos

a) Determinar as concentrações de estanho no soro das ratas, para confirmar a transferência dos organoestânicos via ingestão de moluscos contaminados;

b) Determinar os efeitos da exposição aos moluscos contaminados com organoestânicos sobre a morfofuncionalidade dos ovários e úteros de ratas adultas;

c) Determinar os efeitos da exposição aos moluscos contaminados com organoestânicos sobre a fertilidade e a implantação embrionária;

d) Determinar os efeitos da exposição aos moluscos contaminados com organoestânicos sobre os perfis lipídicos e glicêmicos de ratas adultas e grávidas;

e) Determinar os efeitos da exposição aos moluscos contaminados com organoestânicos sobre a estrutura microscópica, o processo inflamatório, a deposição lipídica e a expressão proteica na placenta;

f) Determinar os efeitos da exposição materna aos moluscos contaminados com organoestânicos sobre parâmetros antropométricos e hepáticos nos fetos de ambos os gêneros.

4 MÉTODOS

4.1 Descrição do gastrópode

Neste estudo, os moluscos usados foram da espécie Leucozonia nassa (L. nassa) (fotos representativas na Figura 9). Esta espécie pertence à classe Gastrópode, característica da zona entre marés, principalmente em regiões abrigadas. Distribui-se no Brasil desde o Ceará até Santa Catarina, e em ilhas oceânicas e demais regiões do Continente Americano, como Flórida, Texas, Colômbia e Venezuela (THOMÉ et al., 2010). Sua concha normalmente apresenta uma linha central branca e um dente no lábio externo da abertura da concha. Possui um pé pequeno em relação ao animal, de coloração rosada e com manchas brancas. Locomove-se mais à noite e se esconde em fendas e bancos de

Phragmatopoma sp. durante a baixa-mar. Alimenta-se de outros gastrópodes, poliquetas,

ostras e cracas. São presas de cefalópodes, como polvos, e crustáceos, que são amplamente consumidos por humanos e, portanto, ocorre bioacumulação trófica dos OTs (RIOS, 1994).

L. nassa mostrou ser uma boa espécie bioindicadora da poluição por TBT na costa

do Espírito Santo por apresentar-se altamente sensível à exposição por esse poluente, registrando elevados índices de imposex em fêmeas e anomalias em pênis de machos, principalmente em regiões próximas a portos e marinas. Tal fator, associado à facilidade de coleta de exemplares, à presença de grandes populações e sua ampla distribuição ao longo do litoral brasileiro, a selecionam como uma espécie sentinela para a presença desses compostos, sendo adotada em programas de biomonitoramento costeiro (PEDRUZI, 2009; COSTA, 2012).

Figura 9: Gastrópode Leucozonia nassa. (A) Espécime com concha; (B) Fêmea normal, G.C.: glândula da cápsula, v: vulva; (C) Fêmea imposexada, v.d: vaso deferente, p.p: pré- pênis; (D) Macho, p: pênis. Fotos fornecidas pela Drª. Mércia Barcellos da Costa.

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