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COMMENTAIRES ET DISCUSSIONS Caractéristiques sociodémographiques

Définition et classification :

COMMENTAIRES ET DISCUSSIONS Caractéristiques sociodémographiques

Governar, portanto, irá se restringir à construção de fortalezas e a constituição de um sistema de defesa que afaste o perigo que o rosto da ameaça externa representa? Certamente não, e isto já se destacou mais acima quando se tratou de distinguir a diferença da preocupação soberana com o espaço, tal como se pode ver em sua aurora, com Maquiavel, com esta que se pode ver a partir do início do século XVIII, com o inquérito espaço-militar de Aguiar. De fato, dirá Tolozano, a obrigação de um governador de praça consiste em conservar e defendê-la, mas a estes dois pontos se reduzem muitos outros, sobretudo aqueles que tocam ao governo civil e militar. “O que toca ao governo civil, consiste em dar boa ordem entre os moradores, e ao governo militar, consiste na boa disposição e ordem com que devem viver e tratar-se os soldados para com seus cabos, uns com os outros, e para com os paisanos”65.

Antes de Tolozano, a fortificação como dispositivo arquitetônico-militar não diz nada a respeito de uma ordenação que se deva fazer na cidade; fortificar é estabelecer uma relação geométrica no espaço voltada para o seu exterior; este autor a direciona também para o seu interior e a ela acrescenta uma nova questão. Se antes a defesa e a segurança da praça estavam unicamente ligadas à relação que a fortificação estabelece com o seu exterior, a partir de Antoine de Ville Tolozano o que se vemos, é o desenvolvimento da noção de segurança interior da praça; ou seja, a sua ordenação deve permitir e revelar que o seu inimigo não se encontra apenas no seu exterior, mas que pode se encontrar na própria praça, entre os seus moradores, donde a necessidade de se conhecê-los em sua variedade.

Não basta apenas fortificar a cidade, é preciso saber ordenar as suas coisas e os seus moradores; de nada adianta a um governador, possuir em uma cidade, um grande número de moradores, que lhe

64 “Aqui começa [com a invasão comandada por Cevallos no dia 20 de fevereiro de 1777] a discussão sobre a utilidade e praticidade das fortificações catarinenses”.

SOUZA, Sara Regina Silveira de. As fortificações catarinenses: notas para uma revisão histórica. Florianópolis: edufsc, 1991. p. 7.

proporcione uma boa arrecadação fazendária; que lhe disponibilize um bom número de soldados; possuir um grande número de armas e munições se não as souber distribuir acertadamente, dispô-los em uma boa ordem.

Tenho observado que a maior parte dos governadores não tem outro cuidado ou inclinação mais que a de fortificar as suas praças; e me parece que isto só não basta, e que é necessário ter igual cuidado de tudo mais (...) pois sem isto não pode subsistir a praça: não haverá coisa que mais alegre a um governador do que depois de ter mostrado uma boa praça, mostrar também bons soldados, bem armados e bem disciplinados, e depois disso os armazéns bem providos e dispostos na forma e ordem que temos dito. E não há dúvida que se deve estimar por bom governador aquele que sabe prever tudo o que lhe é necessário, e tendo-o, o dispõe com boa ordem66.

Um bom governador deve saber quais são as armas necessárias para a defesa de sua praça; mas deverá também saber, como distribuí-las, como conservar a munição e como ela deve ser utilizada; deve saber se utilizar de inúmeras provisões que são necessárias em uma praça, como lenha, madeiras, pranchões, panos, cousas para diferentes usos, medicamentos e todo tipo de instrumentos67.

A ordenação da cidade – e note-se aqui que para a engenharia militar os termos cidade e fortaleza são usados freqüentemente como sinônimos68 - deve começar pelo próprio tecido urbano, para a qual o domínio

da engenharia como saber do espaço, é imprescindível. Nele, deve-se estabelecer, fazer reinar em seu interior, a maior “regularidade possível”, seja pela simétrica distribuição das ruas e das casas de seus moradores, seja pela precisa localização dos corpos de guerra, casernas, depósitos e armas e munições; da mesma maneira, deve-se estabelecer no seu centro, uma figura quadrada que servirá como praça pública, e junto a qual se localizará a igreja e o cemitério, que ficarão assim, ao alcance dos seus moradores69. Nesta

figura quadrada, que também poderá servir como ponto de encontro e distribuição dos soldados em caso de guerra, poder-se-á também realizar os exercícios necessários através dos quais um governador deverá instruir e regulamentar os seus soldados70. A geometria não fornece apenas uma imagem de como a cidade

deve ser ordenada; ao contrário, é ela a sua própria imagem; é ela quem fornece um saber sobre o espaço e

66 Tolozano, p. 51. 67 Idem, p. 14.

68 É o que dizia Perret ao se referir a planta de uma cidade que iria descrever: “Esta fortaleza ou vila, como se queira nomeá-la, tem sua cidadela ou meio em

quadratura perfeita de 80 toesas cada lado”. PERRET, Jacques. Architecture et perspective des fortifications et artifices, mis en lumière par la veuve et les deux fils de Théodere de Bry. Francfort, 1602. p. 5.

69 Cf. “De la distribuition des rues dans les villes de guerre”. Livro 4, cap. VII. BELIDOR, M. La science des ingenieurs dans la conduite des travaux de fortification et d’architecture civile. Paris, 1739. (BRG).

que produz esta simetria no seu tecido urbano. A soberania, através da engenharia militar, procede a uma

geometrização do espaço a ser defendido.

A noção de regularidade aqui não deve passar despercebida. Proveniente da fortificação como dispositivo arquitetônico-militar, a partir do século XVII, ela parece se duplicar e se tornar um princípio de constituição do próprio espaço da povoação que se governa. A engenharia militar concebe o plano arquitetônico de toda fortaleza, como regular e irregular. A esse respeito, em 1682, escreve Rohault que todo o desenho de uma fortificação “pretende ensinar a construir uma fortificação a mais regular e mais perfeita que se possa fazer”. Assim, não se deve ignorar os desenhos de certas praças que poderiam fornecer alguns exemplos. “Pois é certo que não se saberá jamais melhor fortificar uma praça irregular, se se é obrigado, seja pelo terreno, seja por qualquer outro impedimento, que se praticando o que mais se aproximar, na medida do possível, do que se praticaria numa praça regular, onde não há obstáculo e onde nada está sujeitado a nada”71. Da mesma maneira Pimentel, na introdução do seu Método Lusitano de Desenhar

Fortificações, relembra deste princípio arquitetônico que deve conduzir os engenheiros em seus trabalhos. “E porque uma das principais máximas que os Autores fundamentalmente encomendam se observe, é que a fortificação irregular se disponha de modo que se chegue a regularidade o quanto for possível, tratei de assim o conseguir pelos métodos que proponho, com tanto extremo, que em todas as figuras, por mais irregulares que sejam, fortificados os lados dos polígonos exteriores para dentro, fica cada um dos lados fortificado regularmente, e portanto, o polígono interior paralelo ao exterior”72.

Mas a quê esta noção de regularidade irá remeter? A fortificação será regular, quando o espaço e o plano da povoação em questão puder ser inscrito num polígono regular; ela será irregular, de maneira inversa, quando o seu plano não fornecer a imagem de um polígono regular. Fortificar, nada mais é do que inscrever uma vila, povoação ou cidade, num polígono regular ou irregular. Assim, o espaço é concebido a partir de uma figura geométrica; é o infinito número de polígonos que lhe fornece uma imagem e sua existência; no entanto, o círculo jamais poderá se tornar a figura da fortificação, porque toda a praça fortificada deverá ser sempre flanqueada; contudo, se ela não pode se tornar esta figura, ele não deixará de

ter a sua importância, pois o círculo, no desenho da fortificação, é uma espécie de base ou referência a todos os polígonos possíveis, que em seguida, são desenhados e que constituem a fortaleza; o círculo é termo de referência para a fortificação, ou seja, termo de inscrição e circunscrição do polígono regular ou irregular que a define. A irregularidade da fortificação se define pelas figuras geométricas regulares, que se constituem como sinônimos do que é defensível e seguro; ou seja, o espaço a ser fortificado é visto como regular ou irregular porque a geometria é o saber que constitui o olhar do espaço. O tema da ordenação do espaço da cidade ou povoação, e que pretende nela estabelecer a maior regularidade possível, é proveniente desta concepção geométrica do espaço que vemos surgir com a engenharia militar e com o problema da fortificação.

A importância do círculo como figura geométrica para

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