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Entre 18 de abril e 9 de dezembro de 2016, deu-se o giro 3, a partir da aplicação do projeto Conecte-se em sala de aula pelas docentes com a devida autorização da direção da escola e dos responsáveis pelos estudantes menores de idade. O período contemplou dois tipos simultâneos de atividades:

• Entre pesquisadoras e docentes: no mesmo molde do giro 2, com encontros quinzenais para avaliação das atividades realizadas em sala de aula por cada docente e planejamento das seguintes, conforme apontado no Quadro 8. Na prática, isso quer dizer que não havia manual ou modelo previamente estabelecido e que o conteúdo foi periodicamente sugerido, planejado e replanejado pelo grupo de pesquisadoras e docentes.

• Entre docentes e alunos: aplicação em sala de aula das atividades. Não havia calendário rígido de datas para esse tipo de atividade, tendo ficado acordado entre todos que cada docente seguiria seu próprio ritmo a fim de não atrapalhar o conteúdo formal a ser dado pela disciplina e o modo de perceber cada turma sob sua responsabilidade. Respeitadas as diferenças de atuação de cada professora, ao final do ano letivo de 2016 cada uma das turmas participantes teve 12 encontros de atividades, que trataram dos mesmos temas centrais: a conexão entre sentir, pensar e agir a partir de quatro emoções básicas (tristeza, raiva, medo e alegria).

A primeira vez que os estudantes das quatro turmas de primeiro ano tiveram contato com o projeto interventivo participativo foi, de fato, entre os dias 18 de abril e 03 de maio de 2016. Dias antes, as professoras receberam uma carta motivacional preparada pelas pesquisadoras (Apêndice J) e os estudantes, uma carta-convite para ingressar no projeto (Apêndice I).

A temática-chave inicial, após a assinatura dos termos de consentimento, foi o lema do projeto: “Conecte-se: Sentindo, Pensando e Agindo”. Além de apresentar a proposta oficialmente, intencionávamos captar a percepção inicial do grupo de estudantes sobre o significado da iniciativa.

O giro 3 foi marcado pela individualidade e pelo respeito à autonomia das professoras. Coube a cada uma delas a escolha de datas e horários de aplicação do Conecte-se, visto que, sem espaço oficial na grade curricular, o projeto deveria encontrar seu espaço junto com as disciplinas obrigatórias. Isso significou, muitas vezes, a obrigação de remanejar prazos e estratégias didáticas, e enfrentar imprevistos como reuniões marcadas de última hora pela direção, adoecimentos, entre outros. Os primeiros dias foram marcados pela animação das mesmas colocando cartazes em todas as salas de aula e um painel na entrada da escola sobre o projeto.

Nessa fase da pesquisa-ação, a pesquisadora-autora exerceu o papel de observadora participante em alguns encontros e pôde observar a importância de oferecer ao educador fundamentos teóricos por meio de uma formação que requer tempo e comprometimento de todos. Desta forma, as docentes tiveram autonomia para trabalharem da forma como achavam melhor em cada turma, sem oferecer uma cartilha rígida a ser seguida. Acreditamos que um processo de desenvolvimento de HSEV não pode se limitar a oferecer aos educadores atividades pré-programadas sem que eles possam conscientemente adaptá-las ao seu modo de ser, assim como ao estilo de cada turma, ora mais calmas, ora mais agitadas, O importante é formar o professor para criar e recriar intervenções pedagógicas em sintonia com o clima emocional vivenciado pelos alunos. Materiais pedagógicos podem ser úteis sim, mas precisam de um educador que os utilizem conscientes do processo de amadurecimento emocional dos alunos. Eis a necessidade de acompanhamento por parte de coordenadores e pesquisadores, como também da troca de experiência entre eles. Tudo isto precisa ser bem pensado no planejamento interventivo. O conhecimento da prática pedagógica no chão da escola da escola se alimenta das teorias desenvolvidas na academia, e vice-versa.

Numa das vezes, por exemplo, uma docente escolheu trabalhar o Conecte-se na primeira aula da tarde, das 13h00 às 14h50. Naquele dia, havia 29 alunos na sala. Como usualmente após o almoço os estudantes chegam menos motivados devido ao cansaço da jornada, ela optou por iniciar com uma dinâmica para estimulá-los. Solicitou que todos ficassem em pé e dançassem ao som de uma música bem animada da cantora pop americana Lady Gaga, cuja letra fala sobre autoaceitação. Durante a dança, ela ia mostrando números que indicavam a quantidade de pessoas de grupos em que eles deveriam se juntar para dançar juntos, que aumentou gradualmente até que todos formaram um único grande grupo. O clima foi de muita agitação e, nas palavras dos jovens, eles se sentiram “alegres”, “energizados”, com “adrenalina”, “agressivos” e imbuídos de “felicidade”.

Em seguida, a professora colocou as seguintes perguntas no quadro e orientou que cada um escrevesse suas próprias percepções a respeito delas numa folha em branco:

1. O que você pensou quando leu o lema “Conecte-se: Sentindo, Pensando e Agindo”? 2. De que maneira isso faz sentido para você?

3. Como você interpreta essa mensagem?

A docente ressaltou que eles não precisavam responder literalmente a cada uma das perguntas, mas que as respostas deveriam dar-lhes subsídios para a discussão em grupo que viria a seguir. Nesse momento, ela saiu da sala dizendo que iria buscar algum material. Como observadores, não tomamos nenhuma atitude e só registramos as reações dos estudantes que tinham ficado “sozinhos” na sala. Algumas frases ditas em voz alta pelos alunos foram captadas por nós, como “eu não acho nada”; “acho que estou um pouco confusa”; “acho que não entendi”. Quando ela voltou, iniciou-se a socialização das respostas individuais em grupos de cinco alunos que ela mesma dividiu e cada grupo recebeu uma folha de papel ofício para escrever ou desenhar aquilo que considerava como a sua síntese.

Cada um dos sete grupos compostos escolheu um representante para apresentar o que tinha sido produzido. Os discursos dos estudantes foram expressos por meio de textos, prosa e desenhos, tal como o da Figura 20.

Figura 20 – Exemplo de material produzido pelos estudantes no giro 3

Fonte: Projeto Conecte-se (2016).

Foram comuns entre os resultados menções aos aspectos tecnológicos por causa do nome Conecte-se, que sugeria inicialmente para os adolescentes a conexão com amigos via redes sociais.

Em outra ocasião, uma professora optou por utilizar as duas últimas aulas do período da manhã, entre 10h20 e 12h00 para o Conecte-se. Com 32 alunos presentes, ela escolheu uma dinâmica voltada para o aquietamento por ser o retorno do intervalo, um horário em que estão todos mais agitados. Distribuiu uma folha de papel para cada aluno e colocou no quadro as mesmas perguntas norteadoras que a professora da tarde utilizou:

1. O que você pensou quando leu o lema “Conecte-se: Sentindo, Pensando e Agindo”? 2. De que maneira isso faz sentido para você?

3. Como você interpreta essa mensagem?

Em seguida, para estimular a socialização das respostas ela dividiu a sala em seis grupos e orientou que cada integrante lesse para os colegas o que tinha escrito e, depois, todos do grupo realizassem uma reflexão em conjunto. O resultado dessa reflexão foi apresentado em cartazes tamanho A3 entregues por ela. Em virtude do tempo gasto nas discussões em grupo, os cartazes não foram finalizados. A professora informou aos alunos que os cartazes ficariam afixados na própria sala e que poderiam mexer nestes quando tivessem vontade.

Como observadores participantes, percebemos in loco o modo de ação de cada professora: a influência dos estados emocionais de cada uma na forma de planejar e de falar

com os estudantes e até a reação a nossa presença na sala. Uma delas foi bastante técnica, preocupada mais em adequar a atividade ao tempo disponível. A outra claramente ficou nervosa porque teve a preocupação de dar o máximo de tempo possível e começou a achar que o programado por ela não seria suficiente. Relatou depois que se sentiu como se estivesse sendo avaliada de algum modo, “como uma estudante em época de prova”. E, no momento das discussões em grupo, externou que se sentiria mais à vontade se as pesquisadoras não estivessem na sala.

Essa solicitação foi aceita e acabou estendida também para as outras professoras. As pesquisadoras passaram a não comparecer às atividades em sala de aula no giro 3 e confiavam inteiramente nas docentes para desenvolver o que estava sendo acordado mutuamente nas reuniões quinzenais de acompanhamento.

A partir de então, passamos a produzir para as docentes tutoriais com sugestões de atividades para serem desenvolvidas em sala de aula (Apêndices K, L, M, N, O e P) e textos de apoio aos estudantes (Apêndices P, Q, R, S, T e U), seguindo o planejamento de usar os temas raiva, medo, tristeza e alegria como mote central para estimular o manejo das emoções nos âmbitos intrapessoal e interpessoal. Tais materiais eram preparados previamente pelas pesquisadoras, mas avalizados coletivamente pelas docentes nas reuniões em grupo. Mesmo assim, não eram de uso obrigatório e tinham a função de apontar caminhos que elas tinham a liberdade de seguir ou não.

Na nossa percepção, a decisão de sair das salas de aula e dar total autonomia às docentes fez muita diferença para elas na motivação em prosseguir com o projeto. Formou-se um clima de cooperação mútua, de construção coletiva e de união que contribuiu inclusive para que elas lutassem pela continuidade do projeto. Quando, em dado momento do ano de 2016, motivos externos e alheios à vontade de todos ameaçaram a continuidade do Conecte-se, elas se mantiveram firmes na decisão de continuar. Por exemplo, o espaço e o tempo reservados para as discussões em grupo com as pesquisadoras foram prejudicados em função de novas orientações da direção e da coordenação pedagógica, que alegavam a necessidade de usar a sala ou dar novas funções às professoras. Contudo, elas não cederam. Foram unidas dizer para a direção que estavam construindo um projeto que elas julgavam ser de fundamental importância para a escola.

Desse modo, as discussões em grupo continuaram e, além de construir os tutoriais de atividades e as fichas de reflexão para os estudantes, olhávamos os materiais eventualmente

produzidos pelos adolescentes. Mas, principalmente, praticávamos a escuta sensível dos relatos das experiências das professoras em sala de aula.

O giro 3 foi finalizado com a qualificação do projeto de tese diante da banca de avaliação na Universidade Federal de Pernambuco, no início de dezembro de 2016. Na ocasião, o material apresentado foi acolhido e elogiado pelos avaliadores. Entre as recomendações, foi sugerido que a pesquisa-ação passasse para a fase de análise do material produzido, por ser a quantidade de informações colhidas até aquele momento grande o suficiente para atingir os objetivos da tese. Mesmo assim, julgamos pertinente acrescentar ao teor, o segundo grupo focal com os estudantes no final de dezembro que como será demonstrado adiante teve grande valia para compreender como os mesmos estavam vivenciando o projeto.

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