A puberdade, etapa transitória entre a infância e a vida adulta, caracteriza-se pelo desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e dos órgãos genitais externos e internos. Desencadeia ainda uma aceleração do crescimento, desencadeada por uma maturação da função hormonal dos órgãos genitais. É a fase da vida em que o indivíduo adquire a capacidade de procriar. De facto, uma das características mais salientes da puberdade é a maturação sexual. O desenvolvimento e maturação do corpo como sendo masculino ou feminino são iniciados durante o período pré-natal e tem o seu término na puberdade. Durante este período ocorrem transformações fisiológicas importantes que conduzem ao desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários. As principais características sexuais secundárias masculinas são o alargamento dos ombros, a formação definitiva dos braços e das pernas devido ao desenvolvimento muscular, o crescimento do pêlo púbico, assim como do pêlo facial e axilar, crescimento do pêlo nos membros, tórax e ombros, mudança de voz, mudança na textura da pele, etc. No sexo feminino, as características sexuais secundárias consistem, essencialmente, no alargamento dos ombros, aumento da largura e arredondamento dos quadris, moldagem definitiva dos braços e das pernas, desenvolvimento das mamas, crescimento dos pêlos púbicos e axilares, assim como nos membros e mudanças na textura da pele.
Uma das principais mudanças físicas que ocorrem na puberdade diz respeito a alterações em termos do crescimento e da corpulência. De facto, verifica-se um surto de crescimento durante o qual o corpo atinge o tamanho adulto. Este começa nas raparigas entre os 9 e os 12 anos de idade, com o pico (da ordem dos 8,4 cm por ano em média) por volta dos 13 anos de idade (Chaby, 1997). Depois disso a taxa de crescimento diminui gradualmente. Os rapazes têm um padrão semelhante, começando, no entanto, mais tarde e ocorrendo durante um período mais longo do que o das raparigas. Em certas raparigas, o incremento da estatura precede mesmo em alguns meses o aparecimento do desenvolvimento dos seios (Ibidem).
Paralelamente à impulsão do crescimento pubertário ocorre um aumento da corpulência, um aumento de peso devido, em grande parte, ao crescimento dos ossos, dos músculos e à aquisição de massa gorda (a quantidade de gordura acumulada durante a puberdade na rapariga é duas vezes maior do que no rapaz, com uma repartição preferencial ao nível das mamas, nádegas e coxas).
A puberdade é determinada e normativa. É um fenómeno universal com um ritmo que, embora varie de indivíduo para indivíduo, de acordo com o crescimento e desenvolvimento, é previsível dentro de parâmetros próprios da espécie. Todavia, a adolescência tem componentes não normativos, fruto de aspectos contextuais da cultura em que está inserida. Por exemplo, desde o século XIX, a idade da primeira menstruação conheceu um avanço de quatro meses por década (Chaby, 1997). No final do século XIX, o aparecimento da menstruação era mais tardio, apenas por volta dos 17 ou 18 anos, o casamento sucedia-se-lhe quase de imediato e as primeiras relações sexuais eram seguidas de uma gravidez. Actualmente, as adolescentes, menstruadas por volta dos 13 anos, têm as suas primeiras relações sexuais apenas uns anos mais tarde e esperam mais de quinze anos antes de terem o primeiro filho (Ibidem).
A grande dificuldade aparece quando se tenta enquadrar a adolescência cronologicamente, havendo a necessidade de se fazer uma caracterização e definição muito clara e detalhada. Com efeito, hoje fala-se em adolescência precoce e adolescência tardia sem se fazer referência às transformações pubertárias, sendo a adolescência precoce anterior ao aparecimento das características indicativas da puberdade e adolescência tardia a manutenção da mesma quando, pelos critérios biológicos, o indivíduo já é um adulto (Farias, 2006). Na verdade, o que tem vindo a ser considerado adolescência precoce são comportamentos estimulados pelos media e mesmo pela família, como o uso de roupas com “design” de adulto, reivindicações de independência, sem traços de maturidade, as pinturas, nas raparigas, encorajamento de comportamentos e de aproximações íntimas um tanto sexualizadas, namoros, etc. A adolescência tardia é um fenómeno que aparece em diversas sociedades ocidentais, uma vez que se exige uma especialização maior e consequentemente um maior período de preparação dos indivíduos, impedindo, assim, que estes ingressem no mercado de trabalho e assumam a tão desejada autonomia.
Os adolescentes manifestam algumas preocupações relativamente ao desenvolvimento do seu corpo. Com efeito, a puberdade envolve mudanças na aparência e formas do corpo, o que, por seu lado, parece afectar a imagem e a satisfação corporais. Assim, durante a adolescência a
imagem corporal, que envolve as atitudes e representações dos atributos físicos, tem sido considerada central para o desenvolvimento do auto-conceito e tendo consequências significativas para o ajustamento (Williams & Currie, 2000). Com efeito, comportamentos desadaptativos, envolvendo restrições da participação em actividades que envolvam a exposição do corpo, comportamentos de camuflagem que prejudicam as interacções sociais e evitamento de relacionamentos com elementos do sexo oposto constituem, desde os primeiros anos da adolescência, estratégias utilizadas para lidar com a imagem corporal negativa (Gaspar, 1999). Embora rapazes e raparigas sofram grandes transformações no seu corpo, este fenómeno parece ser vivenciado de uma forma insatisfatória e muitas vezes com grande sofrimento, principalmente pelas raparigas, que veêm os seus corpos afastar-se do ideal de beleza física instituído socialmente: como já referimos, um desenvolvimento pubertário normal nas raparigas envolve um significativo aumento da quantidade de gordura e, portanto, do seu peso, o que parece provocar uma diminuição na satisfação corporal nas raparigas nesta fase, com uma atenção especialmente focalizada nas partes do corpo associadas ao depósito de gordura (ex. coxas, barriga, pernas), o que provocará um aumento da frequência e intensidade do controle do peso (Attie & Brooks-Gunn, 1989; Lamb, Jackson, Cassidy, & Priest, 1993; Rierdan & Koff, 1985; Rierdan, Koff & Stubbs, 1989). A insatisfação difere consoante o género, com as raparigas mais insatisfeitas com o seu corpo em geral e com as pernas, coxas e ancas em particular (Gaspar, 1999; Silberstein, Striegel-Moore, Timko, & Rodin, 1988).
Como já foi mencionado anteriormente, a definição de imagem corporal refere-se à avaliação subjectiva que o indivíduo faz da sua aparência física, deste modo, a imagem corporal é uma experiência personalizada, não havendo necessariamente nenhuma correlação entre a experiência subjectiva e a realidade objectiva (Blyth, Simmons & Zakin, 1985; Cash & Pruzinsky, 1990). Não sendo um fenómeno estático, elabora-se e estrutura-se progressivamente desde o nascimento, segundo um processo de mediatização indivíduo-família-sociedade. Assim, o desenvolvimento de uma imagem corporal positiva e estável é mais do que a mera aceitação das mudanças anatómicas, é também um fenómeno cultural (Stenberg & Blinn, 1993), afectado por diversos factores como o estado de humor, a forma de vestir, a influência dos media (Pruzinsky & Cash, 1990), entre outros.
Segundo Grogan (1999), as mensagens dos meios de comunicação social podem ser particularmente importantes na produção de mudanças na forma como o corpo é percebido e
avaliado, dependendo da percepção da importância daquelas pistas para quem as vê. De facto algumas pessoas são mais sensíveis a essas mensagens do que outras.
Os adolescentes, cuja imagem corporal é particularmente elástica (instável e responsiva a muitos factores, Myers & Biocca, 1992), tornam-se particularmente mais vulneráveis à preocupação excessiva e negativa com a percepção que eles e os outros têm do seu corpo. A adaptação a estas mudanças corporais exerce uma grande influência no ajustamento social do adolescente, no seu bem-estar psicológico e comportamentos saudáveis (Pritchard, King & Narins, 1997).
Paralelamente, sentimentos de sucesso e bem-estar decorrentes da resolução das tarefas desenvolvimentais também influenciam as atitudes relativas ao corpo. Segundo Birraux (1990), a construção da identidade de género neste período resulta assim da dialéctica entre o familiar corpo infantil, construído ao longo da vida, e o corpo misterioso, desconhecido, sexualmente maduro, que resulta da puberdade (in Ferron, 1997). Com efeito o desenvolvimento da identidade de género inclui a tarefa fundamental de integrar as mudanças físicas com as definições e expectativas sociais de um determinado comportamento e aparência (Petersen, 1988), expectativas essas que se tornam mais fulcrais nesta importante conjuntura do desenvolvimento do adolescente (Usmiani & Daniluk, 1997).