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Após as campanhas de campo pode-se constatar que, de fato, o corpo pegmatítico da pedreira Marcação é, segundo classificação de Cameron et al. (1949), um pegmatito homogêneo.
O corpo pegmatítico correspondente à Pedreira Marcação está localizado a aproximadamente 6 Km ao sul da cidade de Currais Novos. Trata-se de um leucogranito pegmatítico homogêneo, com dimensões de 2 km por 0,7 km, alongado na direção norte-sul, encaixado nos micaxistos da Formação Seridó. Por serem mais resistentes ao intemperismo que as rochas encaixantes, esses se corpos sobressaem na paisagem, com feições de relevo positivo (Fig. 4.6).
Figura 4.6: Aspectos geomorfológicos gerais da área mapeada. Ao fundo, as frentes de exploração da pedreira Marcação. Visada para leste.
Esse corpo apresenta composição granítica, exibindo granulação grossa a muito grossa e tem mineralogia essencial formada por feldspato potássico, plagioclásio e quartzo, embora algumas fácies possam conter significativas quantidades de biotita e muscovita, assim como granada e turmalina. Esta mineralogia corresponde as fácies Bt + Mus + Grt de Sallet et al. (2015). Nesta rocha se desenvolve uma foliação incipiente marcada pela orientação das micas e, em alguns casos, pelo estiramento de cristais de feldspato potássico, com direções NE (Figura 4.7A).
Beurlen et al. (2009b) estudando este mesmo corpo identificou quatro fácies distintas: leucogranito fino, leucogranito pegmatítico, aplito sódico e pegmatito potássico, baseado na classificação de Černý et al. (2005). Neste trabalho reconheceram-se fácies equivalentes, porém foram abordadas com uma nomenclatura diferente, que estão detalhadas mais adiante. Além disso, foram observados inúmeros bolsões pegmatíticos (Figura 4.7B).
Outra feição reconhecida em campo foram diques pegmatíticos frequentemente bandados, que comumente cortam a foliação principal dos pegmatitos em direções NNW-SSW. Há casos em que os bolsões (Figura 4.7C) se desenvolvem a partir desses diques e chegam a formar estruturas de pegmatitos zonados.
As fácies observadas em afloramento serão descritas foram:
• Pegmatítica média: é formada por feldspato potássico, plagioclásio, micas (muscovita > biotita) e pouca granada. Os minerais atingem dimensões de até 3 cm, em textura média a grossa, equi- a inequigranular. Exibe foliação incipiente para NE-SW. É nesta unidade onde ocorrem em maior número os diques pegmatíticos bandados discordantes. Estes são ricos em granada e turmalina, e chegam a desenvolver bandas, marcadas por finas faixas ricas em granadas em uma matriz quartzo-feldspática. Em determinados cortes é possível visualizar o crescimento de minerais orientados (turmalina e feldspato)
perpendicularmente ao contato com a rocha a encaixante. É frequente a ocorrência de bolsões contendo turmalinas. Essa fácies corresponde à fácies leucogranito fino definida por Černý et al. (2005), utilizada por Beurlen et al. (2009b).
Figura 4.7: Aspectos gerais da fácies pegmatítica média. A) vista em planta da foliação marcada pela orientação das micas. Notar simplectito de muscovita e biotita. B) Pegmatito de granulometria média sendo cortado por bolsão pegmatítico grosso composto por feldspato potássico, quartzo e turmalina. C) Seção de um dique pegmatítico grosso da pedreira Marcação, onde é possível observar sua verticalização.
• Pegmatítica grossa: é a segunda unidade mais frequente na área. Sua mineralogia é composta por feldspato potássico, plagioclásio, quartzo e micas (biotita > muscovita). No geral, esta fácies pode apresentar textura gráfica, mas sua característica marcante é o aumento no tamanho dos cristais que possuem, dimensões maiores que 3 cm, podendo chegar a megacristais maiores que 30 cm (Figs. 4.8A, 4.8B, 4.8C e 4.8D). Apresenta textura média equi- a inequigranular muito grossa e geralmente apresenta contatos difusos com as outras fácies. É nessa fácies que a foliação é mais proeminente e sua orientação é sempre para NE-SW. Ocorrem pockets de feldspato potássico, plagioclásio e turmalina. Nessa fácies é possível observar a foliação de baixo ângulo do pegmatito (Fig. 4.9), tendendo a horizontalidade, juntamente acompanhando as foliações dos
micaxistos. Essa fácies grossa corresponde às fácies leucogranito pegmatítico de Černý et al. (2005), utilizada por Beurlen et al. (2009b).
Figura 4.8: Aspectos gerais da fácies pegmatítica grossa. A) Foliação (NE) marcada pelos cristais de feldspato potássico orientados. B) megacristal de feldspato potássico orientado, conforme a foliação. Notar faixas perpendiculares de granada truncando a foliação principal na porção superior da figura. Essa é a principal feição dos diques pegmatíticos grossos que cortam os pegmatitos médios na área. Ponto Marc 28. C) cristais de feldspato potássico orientados e intercalados com faixas de aplitos ricos em granadas. D) detalhe da figura C. Granadas da fácies aplíticas. As linhas vermelhas em A, B e C correspondem ao traço da foliação do pegmatito.
Figura 4.9: Vista do afloramento de um pegmatito onde é possível observar sua foliação em baixo ângulo. A posição da marreta indica o mergulho aproximado da foliação, na direção NE-SW. Ponto Marc 86.
• Aplítica: É a fácies menos expressiva da área. A característica mais marcante dessa fácies é a ocorrência de uma quantidade relativamente elevada de granadas. Sua mineralogia é composta por feldspato potássico, plagioclásio, quartzo, juntamente com muscovita, biotita e turmalina. Apresenta textura equigranular fina, com cristais de dimensões milimétricas a centimétricas. Os aplitos podem ocorrer como veios que cortam a foliação ou intercalados com pegmatitos da fácies pegmatítica grossa, ou ainda disseminados entre as outras fácies, intersticialmente (Figuras 4.10A, 4.10B e 4.10C). É recorrente a presença de bandamentos, formandos por faixas claras de quartzo e feldspato e faixas escuras ricas em granada. Fácies similares a essas são observadas nas zonas de bordas dos pegmatitos zonados descritas na literatura por Webber et al. (1997) como “line rocks”.
Figura 4.10: Feições gerais da fácies aplítica. A) dique aplítico cortando a foliação de pegmatitos da fácies pegmatítica média. B) aplitos intersticiais, em contato com pegmatitos da fácies pegmatítica grossa. C) aplito intercalado com a fácies pegmatítica média. Em ambas as formas de ocorrência é frequente significativas quantidades de granada.
• Bolsões: apesar de ocorrerem de forma localizada, é bastante frequente por todo o corpo pegmatítico, podendo ocorrer em dimensões centimétricas a métricas. A característica mais marcante é a presença de grandes cristais de quartzo, feldspato potássico, plagioclásio, (± biotita ± muscovita) e turmalina. As turmalinas ocorrem frequentemente nesses pockets e geralmente intercrescidas com quartzo e feldspato (Figs. 4.11A, 4.11B e 4.11C). Quando aparecem nos diques, os minerais crescem perpendiculares às paredes do dique (Figs. 4.12A, 4.12B e 4.12C). Eventualmente esses bolsões progridem sob a forma de diques e cortam a foliação do pegmatito. Esses diques por sua vez evoluem (aumento de granulação e de espessura do dique) e chegam a desenvolver estruturas zonadas, semelhantes aos pegmatitos complexos (Figs. 4.12D, 4.12E e 4.12F). As zonas
que ocorrem são as zonas III (potássica) e IV (núcleo de quartzo), segundo a classificação de Cameron et al. (1949) e Johnston (1945b). London (1986) estudando inclusões fluidas em pegmatitos miarolíticos com características similares caracterizou as formações de caldeirões a temperaturas entre 425 e 475°C e pressões entre 2,4 e 2,8 kbars. Este autor concluiu ainda que a formação de minerais em caldeirões indica o estágio final de cristalização do pegmatito.
Figura 4.11: Aspectos gerais dos bolsões pegmatíticos. A) textura gráfica (feldspato potássico, quartzo e turmalina). B) bolsão pegmatítico com simplectito de feldspato potássico, quartzo e turmalina. C) bolsão pegmatítico sob a forma de dique. Notar os cristais de turmalina semiperpendiculares às paredes do dique.
Figura 4.12: Aspectos gerais dos bolsões e diques pegmatíticos. A) Megacristal de turmalina com 22 cm. B) Cristal de turmalina orientada perpendicularmente à parede do dique. C) Pocket de turmalina e quartzo. As figuras D), E) e F) representam a continuação de um mesmo afloramento. Notar as turmalinas delimitando o contato do dique pegmatítico. Nesses diques os minerais alcançam dimensões maiores que 5 cm. A figura F mostra o desenvolvimento incipiente de estruturas de zonação. O núcleo de quartzo (zona IV) com bordas de megacristais de feldspato potássico e turmalina (zona III). A linha vermelha tracejada indica os limites do dique.
OBSERVACÕES DOS DEMAIS GRANITOS PEGMATÍTICOS DA ÁREA ESTUDADA
Essa seção abordará algumas observações e características gerais (contato, bandamento aplito-pegmatito, etc.) observadas em campo de outros granitos pegmatíticos da província estudados (Areias, Marcação, Malhada Limpa, Tópico, Regina, Picuí e um corpo granítico pegmatítico a oeste de Parelhas-RN). Além dos outros corpos abordados neste trabalho, visitamos o pegmatito Regina, o corpo estudado por Pereira (2000) e Baumgartner (2001), chamado por estes autores de pegmatito Parelhas e granito pegmatítico peraluminoso, respectivamente. Este corpo localiza-se a norte do município de Parelhas-RN. Visitou-se também o pegmatito Tópico, um granito pegmatítico que está localizado a leste da Serra das Queimadas, na região do Seridó-RN, cerca de 12 km a norte da cidade de Equador-RN.
Esses corpos geralmente são subconcordantes, representando soleiras, em escalas decamétricas a quilométricas (Figs. 4.13 e 4.14). A maioria dos contatos entre os granitos pegmatíticos e suas respectivas encaixantes são retos, com exceção do corpo Malhada Limpa e de alguns contatos do corpo Marcação, que exibem uma faixa de contato gradual (Figs. 4.15 e 4.16). A presença de turmalinização recorrente nos pegmatitos zonados, como reportado em bibliografia (Da Silva, 1993), foi observada na rocha encaixante junto ao contato com o pegmatito Tópico (Fig 4.17).
Outra feição recorrente nesses corpos é a ocorrência de bandamento aplito-pegmatito, que ocorre por todo o corpo e geralmente se apresenta paralelo as rochas encaixantes (Figs. 4.18 e 4.19). As faixas aplíticas são marcadas por quantidades significativas de granadas milimétricas, quase sempre euédricas.
Estruturas incipientes de zoneamento, semelhante à dos pegmatitos complexos (zonados) também ocorrem em alguns desses corpos. Apesar de não ter grande continuidade, essa estrutura apresenta escalas centimétricas a métricas, onde se observa a individualização de um núcleo de quartzo (zona IV), bordeado por feldspato potássico maciço (zona III) (Figs. 4.20 e 4.21).
As magnetitas das fácies Bt + Mgt (Sallet et al. 2015) do corpo Picuí ocorrem como agregados e/ou isoladas, evidenciadas por seus hábitos octaédricos em formas euédricas (Fig. 4.22), e atingem 6 cm de tamanho. No corpo Picuí, apesar de estar encaixado nos micaxistos da Formação Seridó, há a presença de inúmeros xenólitos de gnaisses referentes ao embasamento (Complexo Caicó).
Figura 4.13: Visão geral do contato entre o corpo Areias e a rocha encaixante (paragnaisse Jucurutu), na porção basal.
Figura 4.14: Relação de contato reto abrupto do pegmatito Areias com sua rocha encaixante (paragnaisse Jucurutu). Em A) visão do contato reto abrupto. Em B) relação concordância do pegmatito, com a foliação da rocha encaixante, corroborando com a interpretação de soleiras.
Figura 4.15: Relação de contato gradacional do pegmatito Malhada Limpa com sua encaixante (micaxisto Seridó). Em A) Visão geral do afloramento. Em B) foto interpretada dos contatos com os respectivos limites e a faixa gradacional (micaxisto com injeções pegmatíticas) entre eles.
Figura 4.16: Contato gradacional observado no pegmatito Marcação e sua rocha encaixante (micaxisto Seridó).
Figura 4.17: Turmalinização observada na rocha encaixante (micaxisto Seridó) junto ao contato do pegmatito Tópico. Em A) visão geral do efeito de turmalinização na rocha encaixante; Lupa mineralógica como escala. Em B) turmalinização em fraturas da rocha encaixante próximo ao contato com o pegmatito.
Figura 4.18: Estrutura de bandamento aplito-pegmatito observada nos granitos pegmatíticos estudados. Em A) pegmatito Picuí. Em B) o pegmatito Regina e C) pegmatito Tópico.
Figura 4.19: Estrutura de bandamento aplito-pegmatito observada em granitos pegmatíticos (feições ressaltadas pela alteração intempérica) a oeste de Parelhas-RN.
Figura 4.20: A) Estrutura de zoneamento incipiente observada no granito pegmatítico Marcação. B) delimitação do zoneamento, semelhante aos pegmatitos zonados com núcleo de quartzo (zona IV) e zona feldspática potássica (zona III).
Figura 4.21: A) Estrutura de zoneamento incipiente observada no granito pegmatítico Marcação. Notar dimensão métrica do núcleo de quartzo leitoso. B) Delimitação do zoneamento, semelhante aos pegmatitos zonados com núcleo de quartzo (zona IV) e zona feldspática potássica (zona III).
Figura 4.22: Aspectos gerais das magnetitas do corpo Picuí. Em A) bolsão pegmatítico com agregados de magnetitas. Em B) detalhe da figura A). Em C) magnetitas bem formadas em hábito octaédrico, na fácies pegmatítica média.