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Na última reunião de pais do ano, os alunos que não apresentam ocorrências disciplinares durante o ano letivo recebem um Certificado de Boa Conduta, que são entregues aos pais pelos professores. Este certificado possui impacto na comunidade escolar, pois alguns pais chegam a moldurar o documento emitido pela escola. A compreensão desta receptividade do Projeto pelos pais expõe fragilidades e comunica muito sobre a comunidade atendida pela escola.

O Certificado de Boa Conduta é um documento emitido pela escola e entregue aos pais no final do ano letivo. O documento possui o nome do aluno e a assinatura do Diretor da instituição, certificando a boa conduta do discente dentro do ambiente escolar. Esta “boa conduta” se refere ao respeito às normas da escola estabelecidas através do Projeto. O primeiro Certificado, entregue em uma reunião bimestral para os pais, gerou grande impacto na comunidade, especialmente no segmento dos pais. Nesta ocasião, alguns pais saíram insatisfeitos por não receberem o certificado, outros solicitaram dos filhos uma postura mais austera quanto ao respeito às regras da Escola. Esta insatisfação, que deve ser levantada em pesquisa de campo, era aparentemente motivada pela vaidade de não ser agraciado diante de seus pares. A equipe pedagógica, percebendo o interesse dos pais pelo Certificado, passou utilizar o documento em todas as reuniões bimestrais. Entretanto, com o objetivo de valorizar o documento, a partir de 2011, a Escola passou a emitir o certificado apenas na última reunião do ano. Segundo a avaliação da equipe pedagógica, a oferta limitada do Certificado elevaria o interesse dos pais pelo documento e, consequentemente, levaria a um acompanhamento mais adequado da vida escolar dos filhos.

A equipe pedagógica da escola certificou-se do interesse dos pais pelo Certificado; quando em uma visita a casa de um aluno, um membro da equipe notou o certificado emoldurado e afixado a uma das paredes da sala. A valorização do documento pela família, de baixa condição socioeconômica, motivou a equipe a utilizar o documento como forma de premiar os alunos e os pais que zelavam pelo bom comportamento dos filhos. A iniciativa de valorização do aluno considerado disciplinado passou a ser uma constante em toda reunião de final de ano.

A persistência do Certificado de Boa Conduta revela a valorização da comunidade escolar pelo documento. A sua manutenção dá indícios de como

pensam os membros a respeito da indisciplina escolar. A visão dos profissionais da educação sobre o Certificado, que deve ser fruto de investigação de campo, pode revelar como estes profissionais enxergam a disciplina. A valorização do aluno ou dos pais através do documento pode indicar que, na visão dos profissionais da escola, a disciplina é responsabilidade restrita a estes. Neste contexto, a dinâmica da sala de aula teria pouca influência sobre o comportamento do aluno. Não seria o professor um ator importante neste processo?

A postura dos alunos considerados “disciplinados”, acerca do Certificado de Boa Conduta, de certa forma harmoniza com a postura da maior parte da comunidade escolar. Estes alunos aprovam o projeto e acreditam que a sua existência melhora a organização da escola e favorece o aprendizado. Entretanto, a postura dos alunos considerados “indisciplinados” diverge do restante da comunidade escolar. Os efeitos punitivos do Projeto e a exclusão destes alunos de atividades extraclasse certamente influenciam nesta postura. Não seria, sob este aspecto, o Projeto Boa Conduta um projeto excludente? Afastar os alunos considerados problema das atividades extraclasse não traz mais problemas que soluções? Estas atividades deveriam ser a oportunidade destes alunos de se integrarem ao ambiente escolar e desenvolver a capacidade de convivência e tolerância. Há, certamente, necessidade de se verificar, através de pesquisa de campo, a receptividade deste Certificado pelos alunos.

2 A ANÁLISE DO PROJETO BOA CONDUTA E DE SEUS DESAFIOS

O objetivo deste capítulo é analisar o Projeto Boa Conduta e o contexto que permitiu seu surgimento. A investigação visa mapear as causas de seu surgimento e as fragilidades que perpassam o ambiente escolar.

O Projeto que se iniciou como uma forma de identificar os alunos com conduta inadequada em sala de aula, para posterior intervenção, se tornou um Projeto marcado pela vigilância e punição. O Projeto se expandiu para fora do ambiente da sala de aula, na tentativa de resolver outros problemas, como atrasos de alunos na chegada do turno e a falta de uniformização. Embora tenha se notado, inicialmente, uma melhoria dos índices de utilização do uniforme, dos atrasos dos alunos na entrada do turno e dos conflitos de uma forma geral, os índices se estabilizaram e se mostram estagnados nos últimos três anos (2013, 2014, 2015). Esta estabilização demonstra uma fragilidade do Projeto. Neste contexto, é preciso questionar: como o projeto disciplinar Boa Conduta pode se tornar uma ferramenta de gestão adequada para lidar com a questão da indisciplina? Para responder a esta pergunta analisaremos o conceito de indisciplina e os dados levantados na pesquisa de campo.

Para tanto, dividiremos este capítulo em três seções. Na primeira seção é apresentada a metodologia e os instrumentos de coleta de dados utilizados no processo de investigação do caso. Na segunda seção analisaremos o conceito de indisciplina conforme a concepção de Foucault (1999). A visão deste autor será utilizada na análise da perspectiva de indisciplina presente no ambiente escolar em estudo. Além disto, pretende-se verificar o entendimento dos professores e da equipe gestora sobre o conceito de indisciplina e a sua representação no PPP da Escola. Na terceira seção analisaremos os dados coletados em pesquisa de campo. Mediante os dados, pretende-se analisar a visão dos alunos, dos professores e do gestor sobre o projeto, além de detectar assimetrias no equilíbrio de forças na relação professor/aluno, ou um possível empoderamento do corpo docente. A partir destes dados será possível verificar a pertinência do PPP como condutor dos trabalhos pedagógicos e possíveis fragilidades do mesmo para o combate à indisciplina.