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Combined XAS and magnetotransport measurement

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4.8 Probing a device’s active atoms using synchrotron radiation

4.8.3 Combined XAS and magnetotransport measurement

DAS CAPITANIAS BRASILEIRAS era certamente a de Minas a que mais motivos dava ao surto deste sentimento e aspiração. Nos povos como nos indivíduos, o principal estímulo à autonomia é a consciência, que lhes dá a abastança, de se poderem prover a si mesmos. Descobertas na segunda metade do século XVII, as minas que denominaram a região, e grandemente incrementada nesta a mineração do ouro e do diamante, aflui-lhe das capitanias vizinhas, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, toda a gente, e foi muita, para quem aquelas julgadas fáceis riquezas eram irresistível chamariz. Assim se começou a fazer a população da Capitania de Minas Gerais, desde então a mais avultada, a mais densa e logo depois a mais rica do Brasil. Como a riqueza cria a cultura, pelas facilidades que lhes proporciona, também a mais culta. Por disposição geográfica do país, e pela variedade dos sítios minerais descobertos, a vida local, longe de se concentrar exclusivamente numa cidade capital, dispersava-se por vários pontos importantes, Sabará, São João del Rei, Diamantina, Mariana, Serro. Com as suas escolas avulsas, seminários episcopais, colégios de jesuítas ou aulas de outros religiosos, também atraídos pelo engodo das minas,

eram tais vilas e cidades outros tantos pequenos focos de instrução, e contribuíam para difundi-la pelas comarcas cujo centro eram e pela capitania. Valeriam ainda porventura mais como estímulo do espírito de autonomia, do municipalismo, que devia contrastar o oficialismo reinícola da capital. A riqueza feita a muitos dos seus moradores pela mineração, do mesmo passo que os excitava a uma vida larga e de luxo, largueza e luxo relativos mas consoantes com o meio, e para ele até ostentoso, movia-os a mandarem os filhos não só a Portugal, mas também a outros países europeus, seguir estudos superiores. No século XVIII, mormente na sua segunda metade, o número de doutores, leigos e eclesiásticos, e de clérigos com estudos superiores dos seminários, era com certeza em Minas Gerais maior do que em qualquer outra capitania. Já então, devido justamente a serem principalmente de religiosos os estabelecimentos de ensino e as aulas avulsas de latim criadas em várias localidades pelas reformas de Pombal, andava muito

espalhado o estudo do latim e sabê-lo era vulgar em Minas. A ciência do latim constituía ainda, mesmo na mais adiantada Europa, o fundamento e o essencial de toda a cultura. Nas festividades feitas em Mariana, em 1748, por ocasião da ereção do bispado e posse do seu primeiro prelado, nos outeiros e academias realizadas como partes das festas, numerosos versejadores e letrados recitaram, além de discursos congratulatórios e sermões penegíricos, grávidos de erudição latina e hidrópicos de hipérboles, dúzias de poemas, curtos e longos, décimas, sonetos, elegias, acrósticos, cantos heróicos, glosas, silvas, epigramas, em latim e em português.69 Da lição e cultura da capitania podemos fazer idéia pelas livrarias particulares nela àquele tempo existentes. Dão-nos informação a respeito os autos de seqüestros feitos nos bens dos implicados na chamada Conjuração Mineira. Além dos livros profissionais de estudo e consulta, constituíam-nas geralmente os melhores autores latinos no original e gregos no original e em traduções latinas, e mais os franceses Descartes, Condillac, Corneille, Racine, Bossuet, Montesquieu, Voltaire, tratados e dicionários de história e erudição, as décadas de Barros e Couto, os poetas clássicos

portugueses, e também Tasso, Milton, Metastásio, Quevedo, afora dicionários de várias línguas, obras de matemáticas, ciências naturais e físicas e outras.70

Ainda em antes de findar o primeiro quartel do século, começaram a manifestar-se em Minas sintomas de descontentamento da metrópole e de hostilidades aos seus propostos à governança da capitania.

Contam-se desde então alguns alvorotos e motins, pomposa e impropriamente apelidados de revoltas e até de revoluções pelos historiadores indígenas, contra o governo colonial. Reprimidos alguns com a bruta violência com que em todos os tempos todos os governos presumem impedir o natural levante contra os seus desmandos, a sua repressão apenas serviu para desenvolver ou acirrar a animadversão do brasileiro contra o reinol. Dos governadores da capitania os houve fidalgos da melhor nobreza

portuguesa, homens de corte e de sociedade, talvez com os vícios e defeitos nessas comuns, mas em todo caso com as prendas que eram o apanágio de sua classe. Acompanhavam-nos outros gentis-homens, que com os filhos da terra mais graduados por educação, haveres, famílias e postos, faziam em Vila Rica, a pitoresca capital de Minas, uma pequena corte. Festas de igreja, freqüentes e pomposas, cavalhadas, canas e outros divertimentos do Reino para aqui, a que acudiam os vizinhos desde Diamantina, Mariana e mais longe, e animavam.

Mais numerosa e mais densa que nenhuma outra do Brasil, a população de Minas, aquela ao menos que tinha Vila Rica por centro imediato, sentia-se melhor o contacto recíproco, criador da solidariedade. Sendo a mais rica, era também a mais isenta, a mais desvanecida de suas possibilidades. Este

desvanecimento bairrista tinha-o Tiradentes em sumo grau. O espírito localista, feição congênita dos mineiros, oriundos das condições físicas e morais do desenvolvimento da capitania, fortificava ali o nativismo ou nacionalismo regional. O sentimento da liberdade e da independência, atribuído geralmente aos montanheses, parece ter em Minas mais uma vez justificado o conceito. Foi este meio que produziu a floração de poetas que é a plêiade mineira. Em qualquer outro do Brasil o seu aparecimento se não compreenderia.

Esses poetas são: Santa Rita Durão (17...-1784), Cláudio da Costa (1729-1780), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793), Tomás Gonzaga (1744-1807?), Silva Alvarenga (1749- 1814). Estes são os que formam o grupo até aqui impropriamente chamado de escola mineira, e que chamaremos, porventura, com mais propriedade, a plêiade mineira. Além destes, e pelo mesmo tempo,

produziu Minas muitos outros poetas, somenos a este, meros versejadores ocasionais, como sempre os houve aqui, dos quais nenhum ultrapassou a fama local contemporânea. Os mais miúdos noticiadores nomeiam: Joaquim Inácio de Seixas Brandão, Joaquim José Lisboa, Antônio Caetano Vilas Boas da Gama, irmão de Basílio, Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira, Miguel Eugênio da Silva Mascarenhas, Silvério Ribeiro de Carvalho, Francisco e Domingos Barbosa, Matias Alves de Oliveira. São nomes sem outra significação e valia que o de servirem para atestar a existência em Minas de forças poéticas que ajudam a explicar a formação daquela plêiade. Mas a só influência deste meio, onde nasceram e se criaram, não bastaria a explicar-lhes o estro e surto poético, e menos a atividade literária. A esse primeiro influxo pátrio juntou-se preponderantemente o de sua longa permanência na Europa, do seu convívio em um ambiente social e literário mais

estimulante dos seus dons nativos do que seria a sua terra e o meio, em suma acanhado, em que se haviam criado. O contrário aliás passou com Tomás Gonzaga, do grupo o único que não era brasileiro, e o único de quem se pode dizer que foi o Brasil que o fez poeta. Não se conhece com efeito nenhuma produção anterior às liras de Marília de Dirceu, e estas resultaram de seus amores malfadados com uma brasileira, e, concomitantemente, de sucessos em que se achou envolvido no Brasil, que aos seus louros de poeta juntaram a coroa de mártir da liberdade.

I – OS LÍRICOS

Quando se lhes formou o espírito aos poetas mineiros ou começavam eles a poetar, viçava em Portugal o arcadismo, movimento propositadamente iniciado ali por meados do mesmo século XVIII contra o gongorismo do século antecedente. O arcadismo, porém, foi mais que uma escola, um estilo literário. Ao contrário dos seus manifestos intuitos não conseguiu, se não muito parcialmente, nem desbancar o seiscentismo, nem fazer regressar as letras portuguesas, como era o seu propósito, à natureza e ao natural, à nobre simplicidade, à pureza da frase, à verossimilhança dos pensamentos. Aliás estas virtudes nunca foram comuns nessas letras. E no arcadismo ficaram ainda ressaibos demasiados do sescentismo contra o qual se organizara.

Os poetas mineiros, como os demais poetas brasileiros da mesma época, nenhum benemérito de menção particular, são antes de tudo Arcades, ainda quando não pertencem efetivamente a alguma das Arcádias do Reino. No Brasil nenhuma houve com existência real de sociedade organizada de poetas. As de que se fala não passaram de imaginações e fingimentos seus. Como Árcades portugueses, eles não foram somente ao geral dos seus contemporâneos da metrópole, antes, como reconheceu Garrett e o têm verificado outros historiadores da literatura portuguesa, contribuíram para lhe avultar e enriquecer a poesia naquela época. O que decididamente os sobreleva àqueles e os torna mais notáveis e, para nós ao menos, mais interessantes, são as suas novas contribuições à poesia portuguesa, com as quais também entra a nossa a se distinguir dela. Introduzem um novo elemento de emoção, o seu nativismo comovido, o seu patriotismo particular; um novo assunto, a gente e a natureza americana, e com isto, e resultante disto, novos sentimentos e sensações, indefiníveis talvez mais sensíveis, que o meio novo de que eram, do qual ou no qual cantavam, lhes influía nas almas. Escapando, pelo seu mesmo exotismo ao predomínio absoluto das tradições literárias portuguesas, ao rigor da moda poética então na metrópole vigente, puderam ser e foram mais naturais, mais isentos dos defeitos e vícios em que se desmanda ali essa moda. São, em suma, menos gongóricos que os portugueses, sacrificam muito menos à mitologia e ao trem clássico do que eles.

Segundo a ordem cronológica de sua manifestação, Cláudio da Costa é o primeiro destes poetas. Nasceu no Sítio da Vargem, distrito da cidade de Mariana, aos 5 de junho de 1729, de João Gonçalves da Costa, português, e Teresa Ribeiro de Alvarenga, mineira. Seu pai ocupava-se de mineração e lavoura. Por parte de pai, seus avós eram portugueses, e de mãe brasileiros, de São Paulo e de boa geração. Eram gente abonada, pois quatro dos seus cinco filhos cursaram a Universidade de Coimbra. Tinha em Minas um tio frade e doutor, Fr. Francisco Vieira, que fora opositor daquela Universidade e era agora

procurador-geral da Religião da SS. Trindade no Brasil. Com ele iniciou os primeiros estudos de latim em Ouro Preto, donde aos quatorze anos se passou ao Rio de Janeiro. Aqui, no colégio dos jesuítas, estudou filosofia. Com vinte anos embarcou para Portugal, com destino a Coimbra, em cuja Universidade se formou em cânones. Entre 1753 e 54 recolheu ao Brasil, dando-se à advocacia em Vila Rica, onde também exerceu o importante cargo de secretário do Governo. Por sua idade, boa lição clássica, fama de douto e crédito de autor publicado, exerceu Cláudio da Costa ali uma espécie de magistério entre os seus confrades em musa, maiores e menores, que todos lhe liam as suas obras e lhe escutavam os conselhos. Aos sessenta anos foi comprometido na chamada Conjuração Mineira. Preso, e sem dúvida apavorado com as conseqüências da tremenda acusação de réu de inconfidência, suicidou-se na prisão.71

Na minuta manuscrita de seus escritos que acompanha os citados apontamentos, declara Cláudio que "aplicado desde os primeiros anos ao estudo das belas-letras" conservava inéditos em 1759: Rimas nas línguas latina, italiana, portuguesa, castelhana e francesa em poesia heróica e lírica, dois tomos in 4º. É preciosa a confissão, menos como testemunho da capacidade poética do nosso patrício em cinco línguas, que por mostrar quanto, com mais de meio século de permeio, e a despeito da Arcádia, estava ainda perto de Botelho de Oliveira, o poeta seiscentista da Música do Parnaso em quatro coros de rimas portuguesas, castelhanas, italianas e latinas. Cláudio Manoel da Costa é aliás, e ficaria, o mais português dos poetas mineiros, o mais seiscentista e simultaneamente o mais arcádico, o mais achegado à inspiração e poética portuguesa tradicional e a do momento em que se lhe formou o espírito, em suma, o menos brasileiro do grupo. Di-lo bastantemente o só título de seus escritos inéditos e publicados, Rimas pastoris ou Musa bucólica, centúria sacra, poema ao glorioso parto de Maria Santíssima, Monúsculo poético, Culto métrico a certa abadessa, e quejandos.

Poetou e escreveu com abundância segundo se vê das suas mesmas citadas informações, e o testemunha a parte publicada de sua obra.72

Nos citados "Apontamentos" figuram entre os seus manuscritos Poesias dramáticas que se têm muitas vezes representado nos teatros de Vila Rica, Minas em geral e Rio de Janeiro e Várias traduções de dramas de Metastásio. Alguns destes dramas em rima solta, outros em prosa, proporcionados ao teatro português. Sobre confirmarem a variedade de aptidões poéticas de Cláudio da Costa, seriam estas obras contribuição porventura estimável para a história da nossa literatura dramática e ainda do nosso teatro. Parece que se perderam todas. De sua copiosa obra poética, a porção verdadeiramente insigne são os Sonetos, entre os quais os há rivalizando os mais excelentes da língua. Obedecendo à poética preconizada pelos fautores da Arcádia, embora com sobrevivências do seiscentismo, duas feições distinguem os sonetos de Cláudio Manuel da Costa: um vago perfume camoniano e uma sensibilidade particular porventura a primeira manifestação da nostalgia brasileira, depois repetida por tantos poetas nossos. São amostras destes dois traços os sonetos:

Se os poucos dias que vivi contente Foram bastantes para o meu cuidado, Que pode vir a um pobre desgraçado Que a idéia do seu mal não acrescente! Aquele mesmo bem, que me consente, Talvez propício, meu tirano fado Esse mesmo me diz, que o meu estado Se há de mudar em outro diferente. Leve pois a fortuna os seus favores; Eu os desprezo já; porque é loucura Comprar a tanto preço as minhas dores: Se quer que me não queixe, a sorte escura Ou saiba ser mais firme nos rigores

ou saiba ser constante na brandura. * * *

Onde estou! este sítio desconheço; Quem fez tão diferente aquele prado! Tudo outra natureza tem tomado; E em contemplá-las tímido esmoreço. Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado: Quanto pode dos anos o progresso! Árvores aqui vi tão florescentes Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes, Meus males com que tudo degenera!

* * *

Este é o rio, a montanha é esta, Estes os troncos, estes os rochedos, São estes inda os mesmos arvoredos; Esta é a mesma rústica floresta. Tudo cheio de horror se manifesta, Rio, montanhas, troncos e penedos Que de amor nos suavíssimos enredos Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh! quam lembrado estou de haver subido Aquele monte, e às vezes, que baixando Deixei do pranto o vale umedecido! Tudo me está a memória retratando; Que na mesma saudade do infame ruído Vem as mortas espécies despertando. * * *

Memórias do presente, e do passado Fazem guerra cruel dentro em meu peito; E bem que ao sofrimento ando já feito, Mais que nunca desperta hoje o cuidado. Que diferente, que diversos estado É este, em que somente o triste efeito Da pena, a que meu mal me tem sujeito, Me acompanha entre aflito e magoado!

Tristes lembranças! e que em vão componho A memória da vossa sombra escura!

Que néscio em vós a ponderar me ponho! Ide-vos; que em tão mísera loucura Todo o passado bem tenho por sonho; Só é certa a presente desventura.

Adorador fiel das musas européias, age não obstante nele o incoersível império da terra natal, para onde quisera trazer e onde quisera aclimatar aquelas musas, e o seu cortejo clássico de "ninfas, o pastor, a ovelha, o touro":

Musas, canoras Musas, este canto

Vós me inspirastes, vós meu tenro alento Erguestes brandamente àquele assento. Que tanto, ó Musas, prezo, adoro tanto. Lágrimas tristes são, mágoas e pranto, Tudo o que entoa o músico instrumento; Mas se o favor me dais, ao mundo atento Em assunto maior farei espanto.

Se em campos não pisados algum dia Entre a Ninfa, o Pastor, a ovelha, o touro, Efeitos são da vossa melodia;

Que muito, ó Musas, pois, que em fausto agouro Cresçam do pátrio rio à margem fria

A imarcescível hera, o verde louro!

Sem embargo dos seus poemas de intuitos nativistas, como a Fábula do Ribeirão do Carmo e Vila Rica, faltou-lhe infelizmente talento para desta transplantação fazer melhor do que instalar na paisagem e no ambiente americano os estafados temas e motivos da cansada poesia pastoril portuguesa, sem ter ao menos, como Gonzaga, alguma forte paixão que os reviçasse. Influenciado sem dúvida pelo exemplo de Basílio da Gama e de Durão, compôs o seu poema brasileiro, se não pelo sentimento e inspiração, pelo assunto, Vila Rica. É uma obra medíocre, indigna do poeta dos Sonetos e ainda de outros versos, a qual apenas revê o apego à tradição que fazia anacronicamente viver esse gênero na literatura da nossa língua. Vernáculo nesta e correto na forma e estilo poético de fino e delicado sentimento, com tons bastante pessoais, apenas um todo nada gongórico, Cláudio Manoel da Costa é, todavia, julgando-o pelo conjunto da sua obra, o mais árcade dos árcades brasileiros. Não tem alguma emoção grande ou profunda, poetiza por poetizar, academicamente, seguindo de perto a escola na inspiração, nos temas preferidos, nas formas métricas. É um virtuose e um diletante, se podemos juntar os dois termos, mas o é com engenho e não raro, nos Sonetos, formosamente. Nenhum dos seus poemas em que se pode enxergar algo de sentimento pátrio, ou de influxo da terra natal, se distingue na sua obra. Revelam, porém, todos, ainda que

vagamente, como tais motivos começavam a impor-se aos engenhos brasileiros, dos quais volvido meio século se iam tornar prediletos.

Nasceu Tomás Antônio Gonzaga em Portugal, na cidade do Porto, em 1744, de pai fluminense e mãe portuguesa, filha de inglês. Como o pai houvesse exercido a magistratura na Bahia, Tomás Gonzaga passou algum tempo da adolescência nessa cidade, ainda então a principal do Brasil. Voltando com a família a Portugal, aos vinte e quatro anos bacharelou-se em leis em Coimbra. Por ter sido opositor a

cadeiras da faculdade jurídica, fez jus ao título de desembargador. Com essa graduação veio para o Brasil, em 1782, nomeado ouvidor de Vila Rica, a pitoresca e sombria capital de Minas Gerais. Afora a declaração de uma de suas liras, de que por amor de Marília destruíra os versos que antes de a conhecer consagrara a outras mulheres, declaração que apenas será gentileza de namorado, não se conhece

testemunho de que Gonzaga houvesse poetado antes de vir para o Brasil. Ao contrário, nenhum indício há de o ter feito.73 Foi o Brasil que o fez poeta, e é isto que o naturaliza brasileiro. Aqui se lhe depararam os motivos do seu poetar, primeiro a mulher que parece ter amado de um grande e terno amor, principal estímulo do seu estro até então adormecido; depois os sucessos que, a despeito da sua inocência, o envolveram na chamada Conjuração Mineira. Despedaçando-lhe a existência, que se lhe antolhava auspiciosamente fagueira, esses sucessos ajuntaram às emoções dolorosas dos seus contrariados amores o abalo cruel de uma calamidade inaudita: a acusação do crime de lesa-majestade, a prisão, os ferros, os maus tratos, a masmorra, um longo e martirizante processo, a perspectiva da forca, em suma o

desmoronar súbito e brutal de todas as suas risonhas esperanças de namorado e funcionário, em via de realização. De sua dor fez as formosas canções que o imortalizaram, como um dos bons poetas do amor da nossa língua. A brasileira sua amada era uma jovem matuta, sem outra cultura e espírito que as suas graças naturais. Para ser dela entendido e tocá-la, versejou-lhe naturalmente, simplesmente, com o mínimo de artifícios clássicos possível à poética portuguesa, quase sem arrebiques literários, nem rebuscas de expressão, que ela pudesse desentender. Assim como lhe forneceu o motivo e o estímulo de inspiração, deu-lhe o Brasil também o estilo que o distingue e sobreleva aos seus pares. Como poeta é, pois, Gonzaga um lídimo produto brasileiro.

Comutada a pena de morte, imposta pela alçada que julgou a presumida conspiração, em degredo para

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