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Combinatorial results

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 75-78)

Conforme visto em nosso capítulo teórico, o reconhecimento está condicionado às diferentes formas de apropriação, que ocorrem segundo lógicas e gramáticas do mundo dos atores. Em nossa primeira exploração, evidenciamos alguns movimentos realizados nesse âmbito. Vimos que o discurso papal apresentado na esfera jornalística suscita diversos embates, sobretudo políticos.

Ao analisarmos de forma mais aprofundada o texto da homilia e as matérias jornalísticas, percebemos que há, além da subjetividade do ator social, as condições de reconhecimento, das quais a mídia faz parte, e importantes fagias discursivas durante o trânsito desse discurso. Nossa hipótese inicial de “papa do encontro” fica afetada quando vemos que, por mais que os sites pareçam apresentar a imagem de um pontífice acolhedor, os comentários, em sua maioria, discordam das atitudes do pontífice, questionando suas ações e, volta e meia, relacionando com outros fatos publicados pela mídia em relação à Igreja – quase sempre com caráter negativo. Em um comentário, um ator social chega a sugerir que pontífice se preocupe mais com os católicos do que com pessoas de outra religião.

Figura 35 - Comentário na notícia veiculada no Correio Braziliense

Fonte: Elaborado pela autora, com base no Correio Braziliense.93

Evidenciamos nesse comentário o que já nos lembrava anteriormente Verón (2013), ao citar Peirce e dizer que o pensamento, em um momento dado, tem existência potencial, mas “[...] depende daquilo que será mais tarde”. (VERÓN, 2013, p. 194). Percebemos, pois, que os pensamentos do pontífice são um discurso com existência potencial, pois o que ele é na mídia e o para os atores sociais se transforma conforme quem os recebe.

Essa mudança também está relacionada ao que diz Fairclough (2001, p. 290) no item

ordens de discurso, pois nesse ponto da análise discursiva a preocupação está nos “[...] efeitos

de reprodução e transformação das ordens do discurso [...]”, ou seja, no que o discurso se transforma, na medida em que se desloca. Além disso, o autor destaca que alguns dos fatores que impactam nessas transformações são a democratização, comodificação e tecnologização.

De forma mais clara, a democratização é o acesso ao discurso que está mais disponível à sociedade como um todo – e isso está estritamente relacionado à tecnologização, uma vez que a internet, como nos lembra Verón (2013), resultou em uma mutação nas condições de acesso dos atores sociais ao discurso midiático, o que gerou também transformações nas condições de circulação. Não é à toa que, nesse trabalho, analisamos a circulação do discurso papal e diversas instâncias – todas elas inscritas no ambiente digital.

A comodificação, por sua vez, diz respeito à segmentação da oferta discursiva, que ocorre conforme o público que se deseja atingir. Essa segmentação atrelada às lógicas dos dispositivos tecnológicos e dos atores sociais resulta em diferentes fluxos e circuitos. Abaixo do link da matéria do UOL Notícias, publicada no Facebook, a atitude do pontífice gerou um circuito de debates sobre pena de morte, misericórdia, amor ao próximo.

Figura 36 - Comentário na notícia do UOL Notícias compartilhada no Facebook

O comentário obteve 197 reações de “aprovação”, ou seja, likes, e 25 comentários em resposta ao posicionamento do ator social – que estão dentro da caixa maior de diálogo de comentários da plataforma. O ator social contesta a atitude de cristãos que utilizam a frase “bandido bom é bandido morto”, ressaltando que Jesus foi um ativista em prol dos direitos humanos. É um discurso que agencia um novo circuito de discussão, devido a sua situação de recepção, que é uma plataforma digital, permitindo que, dessa forma, ocorra o “fluxo adiante”. (BRAGA, 2017).

Figura 37 - Comentário na notícia do UOL Notícias compartilhada no Facebook

Fonte: Elaborado pela autora, com base no Facebook.

Vemos que o comentário do primeiro ator social desta figura utiliza da intertextualidade, mencionando uma passagem bíblica para reforçar sua posição de que “bandido bom é bandido morto”. Na sequência, o outro ator social se utiliza do mesmo recurso, mencionando uma passagem bíblica diferente para contestar o argumento anterior. O comentário que segue adota a mesma lógica. Outro ator lembra nomes que ficaram marcados

na mídia pela sua relação com assassinatos, dando um novo rumo à conversa. É um circuito que se cria dentro de outro.

Nesse caso, percebemos que o sentido do discurso se torna outro e não mais o acontecimento, ou seja, o discurso do papa na missa de Lava-Pés. Evidenciamos aqui o que já nos mostrava o trabalho de Souza (2016), ao analisar a circulação, em sites jornalísticos, de pequenas frases proferidas pelo Papa Francisco. Em sua análise, a autora concluiu que o que circula são os sentidos e não mais os acontecimentos. O mesmo evidenciamos agora em nosso estudo. O trecho da fala se torna subsídio para o debate. É o seu poder simbólico que o faz permanecer em fluxo. O que ocorre, nesse caso, é o mesmo processo evidenciado por Rosa (2019) ao analisar a imagem da mulher muçulmana, que permanece circulando por seu poder simbólico – que a torna totêmica.

Estabelecem-se, portanto, diversos contratos de leitura, destinados a um leitor idealizado, uma vez que já se sabe as condições de reconhecimento que está inserido – ou seja, um ambiente que propicia o debate. Portanto, esse leitor produz sentidos em uma plataforma que possui uma discursividade que lhe é própria.

Também é interessante observar como as condições de reconhecimento se transformam com o tempo, algo próprio de uma sociedade em midiatização, que se complexifica a cada instante, resultando em novas e distintas formas de sociabilidade. Ao analisarmos o Facebook do portal Terra em 2019, a fim de observarmos a abordagem realizada pelo portal para noticiar a missa de Lava-Pés presidida pelo pontífice no ano seguinte ao considerado por nós nesta pesquisa, evidenciamos que o site se utiliza do mesmo enfoque ao chamar o acontecimento na rede social.

Figura 38 – Publicação no Facebook do portal Terra

Fonte: Elaborado pela autora, com base em Facebook.

Da mesma forma que no ano anterior, o portal destaca a nacionalidade dos presos e, neste caso, que um deles é brasileiro. Mais uma vez menciona que essa não é a primeira vez que o rito acontece em uma penitenciária e dá a localização dela. No ano anterior, vimos que os comentários na matéria faziam alusão, principalmente, à política, pois o país vivia um cenário de eleições e os atores estavam envolvidos e, consequentemente, afetados por essa ambiência.

Em 2019, a publicação aciona um circuito em torno de outro acontecimento, ocorrido na semana anterior, envolvendo o Papa Francisco. Menos de um mês antes da cerimônia de Lava-Pés, um vídeo do pontífice recusando o beijo de fiéis em seu anel94 viralizou na internet, causando polêmica. Posteriormente, o diretor do gabinete de imprensa do Vaticano explicou que o pontífice fez isso por questão de higiene e para evitar a disseminação de germes.

Figura 39 - Comentários na notícia do portal Terra compartilhada no Facebook

Fonte: Elaborado pela autora, com base no Facebook.

Vemos que a explicação dada pelo Vaticano, e que se disseminou na mídia, sendo publicada em diversos sites de notícias, também foi usada como subsídio pelos atores sociais para explicar a atitude do pontífice. Evidenciamos, portanto, que os atores sociais se apropriam de conteúdos midiáticos os utilizando de forma diversa em seu cotidiano – nesse caso como argumento em uma discussão dentro das caixas de diálogo do Facebook. Outros comentários argumentam que o pontífice tomou tal atitude por questão de humildade, pois não quer ser adorado.

Encontramos essa explicação também em portais de notícias. A matéria da Revista

Fórum leva o título “‘Papa não quer ser tratado como rei’, diz vaticanista sobre recusa em

beijo no anel”95 e o conteúdo da notícia destaca que o pontífice se recusou em aceitar beijos no “anel do pescador”, que é um dos símbolos do poder papal, pois o papa se incomoda com a mistificação do cargo e não quer ser tratado como rei.

Os dois argumentos, distintos, se confrontam nos comentários, mas é interessante observar que isso só acontece, pois há uma plataforma que permite isso, ou seja, que diversos aspectos sejam trazidos em um circuito que não se fecha em uma única opinião, mas se expande. Salientamos, no entanto, que isso não se deve unicamente ao dispositivo, mas também ao que o ator social faz nessas novas mídias – as táticas que ele desenvolve. O 95 Disponível em: bit.ly/2FSI45K. Acesso em: 12 jan. 2020.

comentário ultrapassa as paredes de uma discussão familiar, por exemplo, tensionando a ação de um líder religioso por meio de um comentário on-line com pessoas que podem estar no outro lado do mundo – é a complexificação das relações sociais, característica própria da midiatização.

A fim de encontramos outras marcas que nos ajudem a compreender essa sociedade em midiatização, bem como de que forma se configuram as disputas de sentidos nos processos de apropriação e reapropriação do discurso do Papa Francisco, nossa pergunta central nessa pesquisa, partiremos para o próximo episódio de nossa análise.

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