I. La fuerza performativa del tabú y la memoria
2. El común olvido: el tabú, el secreto y la búsqueda
As figuras do aedo, dos viajantes, dos guerreiros e dos comerciantes participam da constituição literária, pois são eles que fazem o intercâmbio e perpetuação de histórias e lendas, levando a locais estrangeiros sua mitologia e trazendo à sua terra natal personagens e sonhos de outras paisagens. Em momentos de profunda expansão territorial, tais como as Cruzadas, a expansão do território romano, a rota de comércio de especiarias com as Índias e outros, era muito comum que os viajantes, como forma de apresentação, narrasse os feitos de seus heróis, as origens cosmogônicas de sua gente, as tradições e lendas que resumissem sua identidade aos povos que acabara de conhecer. Tudo isso revela a profunda ligação entre a contação (ou transmissão) de histórias com a ordenação de uma identidade, de um imaginário:
22 “Longe de ser unanimidade, o nome do “autor”, pela diversidade de símbolos que ele resume, parece, por
vezes, tão logo nos esquecemos de sua diversidade, que o substantifica, um artifício destinado a unificar um campo muito diverso, de figuras que não têm muito a ver – e isto, às vezes, no seio de um campo discursivo historicamente homogêneo, para autores de época e de ambiente relativamente próximos, como, por exemplo os escritores franceses do século XVII” (tradução nossa).
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A cultura, portanto, teve como suporte a organização do imaginário e o desenvolvimento da capacidade simbólica do homem. Nesse processo, a imagem interiorizada é expressa ou exteriorizada, sendo devolvida ao mundo sob a forma de um signo. E é como signo veiculado pelas formas de comunicação que a imagem individual pode ser apreendida e compartilhada, passando a constituir a bagagem cultural coletiva.
[...] As imagens criadas, uma vez expressas, são devolvidas ao mundo de onde provêm, passando a constituir novos elementos da realidade que, abstraídos, dão prosseguimento a esse fluxo contínuo do exterior para o interior e vice-versa. Toda manifestação da cultura humana reflete portanto essa dialética de perda e ganho, de morte e vida, de desejo e sublimação, do vivido e do imaginado.
[...] São, portanto, os processos culturais que permitem ao homem distinguir o mundo e reconhecer-se nele, embora esses processos recuperem e expressem elementos ancestrais da gênese dialética da cultura – a conquista da humanidade e a perda da integração à natureza e ao Éden. (COSTA, 2000, p. 34-35)
Esta disseminação de histórias culturais também revela as metamorfoses que se passavam nos encontros entre povos distintos. Quem chegava levava as narrativas do local de parada; quem ficava, absorvia as lendas e personagens dos viajantes. Ao fim de tudo, temos uma gama de similaridades e repetições em diversas culturas, construindo uma grande trama onde a autoria é popular (portanto, coletiva) e fortemente ligada ao caráter religioso, ou, pelo menos, à origem religiosa de uma comunidade.
A partir do momento em que a figura do autor se descola de uma influência celestial (quando, por exemplo, não é mais necessário glosar em honra às deusas protetoras para pedir inspiração e sobriedade no relato das histórias – comum ainda no século XVI, o que podemos atestar pelo prefácio de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões), temos enfim o surgimento da figura do autor, tanto como ofício quanto cumpridor de um papel na sociedade:
[...] parler d’auteur, ce peut être parler (et parfois tout ensemble) d’une figure historique spécifique (Gustave Flaubert, 1821-1880), d’une autorité (comme dans le Dictionnaire des idés reçues), c’est-à-dire d’une valeur reconnue (par l’institution, la societé, ou seulement par le lecteur), et d’une fonction construite par l’œuvre ou par tel ou tel texte [...].23 (BRUNN, 2001, p. 14)
Uma figura que agora tem um lugar no espaço e no tempo, ou melhor, construído por esse espaço e tempo. Ao citar Flaubert, Alain Brunn também traz à baila informações como temáticas comuns neste autor, cenários constantes (França), um período histórico delimitado (século XIX) e uma função social, cultural e histórica demarcadas. O discurso de um autor está fortemente comprometido com o momento histórico que vive; com as questões filosóficas, religiosas e sociais de sua época; enfim, trata-se de uma escrita que carrega em si
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“[...] ao falar de autor, pode-se falar (e, por vezes, significa tudo simultaneamente) de uma figura histórica específica (Gustave Flaubert, 1821-1880); de uma autoridade (como no Dictionnaire des idées reçues), quer dizer, de um valor reconhecido (pela instituição, pela sociedade ou apenas pelo leitor); e de uma função construída pela obra ou por algum texto. [...]” (tradução nossa).
35 as marcas de sua localização histórica. Contudo, a postura do escritor perante o discurso em voga muda com o passar do tempo. De um mero representante da opinião de seu leitor, o escritor é obrigado a adotar e defender por um ponto de vista:
Até o século XVIII, os autores nunca haviam sido outra coisa senão os porta-vozes do seu público; [...]. Escreviam as suas obras para um público claramente definido e claramente limitado e não procuravam, por nenhum meio, conquistar novos leitores. Deste modo, não havia qualquer tensão entre o público real e um público ideal. O escritor não conhecia nem o angustiante problema de ter que escolher entre diferentes possibilidades subjetivas, nem o problema moral de ter que se pronunciar por uma das camadas da sociedade. É só no século XVIII que o público se separa em dois campos diferentes, e a arte em duas tendências rivais. Daí por diante, cada artista é confrontado por uma dualidade de ordens opostas: o mundo da aristocracia conservadora e o da burguesia progressiva, [...]. Deixam, pois, de ser apenas os porta-vozes dos seus leitores; são, ao mesmo tempo, os seus advogados e os seus mestres [...]. (HAUSER, 1972, p. 884-885)
Neste flanco de interpretação da produção literária está a obra de Arnold Hauser,
História social da arte e da literatura. Neste estudo, Hauser entrelaça as correntes literárias e
artísticas do Ocidente com os movimentos sociais e históricos, construindo um panorama em que estas questões justificam a escritura e a pintura dos artistas, e vice-versa. Hauser sublinha que o ponto de clímax deste entrelaçamento está no romantismo francês, pois sua inovação sociológica é a politização da arte, e não meramente no sentido de artistas e escritores entrarem nas fileiras dos partidos políticos, mas também no de transportarem para a própria vida artística a política partidária (HAUSER, 1972, p. 841).
Um excelente exemplo é o caso do folhetinista francês Eugéne Sue. De origem aristocrática, falido em sua juventude, iniciou seu trabalho Os mistérios de Paris com pretensões meramente artísticas de retratar a classe mais pobre da capital da França, o aspecto mais sombrio da cidade. Contudo, à medida que tomava contato com a realidade que inspirava seus personagens, passou a adotar linhas socialistas em seus textos. Se antes sua preocupação era estética e artística, com o desenrolar dos capítulos sua escrita passa a se comprometer com a postura política do escritor. O vínculo entre escrita e ato político, ficção e realidade chegou a tal ponto de amálgama que Sue foi eleito deputado com um grande volume de votos do operariado parisiense (MEYER, 2005, p. 80-81).
A referência que o nome do autor traz a seu texto vai além das características de construção de uma persona literária ou de sua posição política. Ao identificarmos um texto como sendo originário da lavra de alguém, estamos atribuindo um significado específico a esta narrativa, identificando uma característica da literatura (não se trata, por exemplo, de um texto epistolar ou de uma reportagem) e localizando esta obra no contexto do panorama
36 literário. Esta contextualização de uma obra através do nome do autor constrói um universo de significados além da própria narrativa:
Le nom d’auteur n’a pourtant pas seule propriété de pouvoir désigner une œuvre : il est, d’une certaine manière, beaucoup plus. Indexant l’œuvre à un corpus, l’auteur l’indexe aussi à la littérature : le nom d’auteur devient moyen d’intertextualité (de relation à la littérature) dans l’exacte mesure où il est marquage de littérarité.24
(BRUNN, 2001, p. 12)
A autoria definida possibilita a compreensão transversal dos textos, como o faz os estudiosos especializados em literatura comparada. É o que permite que uma obra de Flaubert possa encontrar pontos de contato, cruzamentos, distâncias de outras obras contíguas na época, no tema, etc. É o que possibilita que o texto tenha uma leitura mais complexa.