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Os estudos de Dejours (1994) são relevantes para compreensão dos processos de saúde, doença e sofrimento no trabalho. Dejours desenvolveu conceitos de motivação e desejo, subjetividade do trabalhador, carga psíquica, estratégias defensivas e o papel da organização do trabalho para compreensão da Psicodinâmica do Trabalho.

A carga psíquica inscrita na subjetividade do indivíduo deixa claro o caráter qualitativo e dinâmico do trabalho, enquanto vivência articulada às exigências ou pressões do trabalho cotidiano. Esse conceito aproxima a Psicopatologia do

Trabalho da ergonomia, que tem na carga de trabalho um dos seus principais conceitos. Nessa aproximação, a organização do trabalho aparece como central na determinação do sofrimento mental, tendo a liberdade como condição necessária à estabilidade (GLANZER, 2008).

A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do trabalhador com a injunção do empregador, contida na organização do trabalho. Em geral, a carga psíquica do trabalho aumenta quando a liberdade de organização diminui. E quando não há mais arranjo possível dessa organização pelo trabalhador, abre-se o domínio do sofrimento. E se uma interrupção não vem interromper a evolução do processo, se nenhuma modificação da organização do trabalho intervém, então o trabalho fatigante pode desencadear patologia (DEJOURS, 1992).

Para Dejours (1994), a transformação de um trabalho fatigante em trabalho equilibrante é possível quando a flexibilização da organização do trabalho permite maior liberdade para cada um rearranjar seu modo operatório para encontrar atividades e atitudes que são capazes de fornecer prazer ou uma diminuição de carga psíquica no trabalho. No caso da impossibilidade de liberalizar a organização do trabalho, é preciso levar em consideração as aptidões do trabalhador e as necessidades de sua economia psicossomática, pois o pleno emprego das aptidões psicomotoras, psicossensoriais e psíquicas parece ser uma condição de prazer do trabalho.

Na compreensão da relação entre trabalho e saúde mental, é importante destacar que nem sempre o trabalho é patogênico; ele tem ao contrário um poder estruturante perante a saúde mental e a saúde física, colocando a história primária dos indivíduos como a principal razão do modo de expressão de sofrimento psíquico.

A fonte de equilíbrio para um trabalhador pode ser a causa de fadiga de outro. Dejours e Jayet (1994) citam algumas expressões que devem ser percebidas como sofrimento no trabalho: morosidade, desânimo, desencorajamento e resignação; sentimento de não reconhecimento dos méritos do trabalhador pelos colegas da empresa; vivência de injustiça e iniquidade em face de remuneração; tensões em equipe que podem se transformar em conflitos abertos; atitudes agressivas; desenvolvimento do individualismo e de um fechamento de cada um em sua esfera privada; diminuição de confiança recíproca – solidariedade entre os trabalhadores; desorganização dos vínculos profissionais e afetivos entre os trabalhadores.

Na atualidade, o trabalhador da área de saúde mental tem se constituído diante das transformações do modelo de atenção preconizado pela reforma psiquiátrica que defende um deslocamento do saber médico-psiquiátrico para a interdisciplinaridade, da noção de doença para saúde, dos muros dos hospitais psiquiátricos para a circulação para a cidade, do doente mental para o indivíduo em sofrimento psíquico, e isso tem influenciado no trabalho dos profissionais dos CAPS.

No Brasil, os trabalhadores de enfermagem representam o maior contingente dentre as categorias de trabalhadores inseridos nas instituições de saúde. Contudo, não têm merecido a correspondente atenção dos gestores, no sentido de manter sua capacidade de trabalho e promover qualidade de vida e saúde. Após trinta anos do início dos estudos sobre condições de trabalho dos enfermeiros nos estabelecimentos de saúde, poucas intervenções foram propostas para alterar essa insalubre realidade (MININEL; BAPTISTA; FELLI, 2011a).

Os profissionais de enfermagem muitas vezes em sua prática assistencial não percebem os problemas de saúde aos quais estão expostos, nem associam seus sintomas às doenças. Raramente, esses profissionais têm ideia do que ocorre com eles em seu contexto de trabalho, a ponto de comprometer o seu humor e seu estilo de vida, não percebem a influência do trabalho em seu estado geral de saúde (PAULA et al., 2010).

Segundo Silva e Gomes (2009), a vida no trabalho é um dos principais fatores que contribui para um maior ou menor nível de saúde dos indivíduos, visto que tanto pode proporcionar satisfação e sucesso como frustração, desespero e estresse.

São os sentimentos e emoções desagradáveis que podem ter consequências nefastas no organismo, tais como a fadiga, a irritabilidade, a instabilidade de caráter, a depressão e as somatizações, que podem se manifestar e ocasionar dificuldade em realizar convenientemente as tarefas, o que gera a degradação da qualidade dos cuidados, o absentismo e abandono da profissão (FERREIRA; FERREIRA, 2014).

Para Sapata (2012), o trabalhador sob efeito emocional apresenta maior probabilidade à ocorrência de erros, comportamentos inadequados e dificuldade de planificação do trabalho. A emotividade e a sensibilidade não diminuem propriamente com a experiência, pois para os autores é impossível se manter indiferente perante um doente em fase de agonia, com dor ou perante a morte, por isso existe um limite além do qual as emoções e sentimentos se acumulam e provocam desequilíbrios na saúde do trabalhador ou no próprio trabalho. Assim

sendo, a dinâmica da organização e processo de trabalho em saúde têm sido determinantes para o desenvolvimento de psicopatologias entre os trabalhadores.

Segundo Fialkoski, Meneghetti e Rangel (2010), a organização do trabalho é percebida como uma fonte de carga psíquica que pode levar à fadiga e ao sofrimento, ou seja, levar a uma alta carga psíquica. Se nenhuma alteração na organização do trabalho ocorrer, este sofrimento interfere na saúde mental do trabalhador e o torna um indivíduo angustiado, sem desejos e motivações.

Para Frasquilho (2005), a carga psíquica do trabalho de Enfermagem é influenciada por fatores específicos da profissão, com uma elevada implicação emocional e por fatores relacionados com a organização do trabalho, comuns a outras profissões.

Alguns autores, como Puerto, Soler, Montesinos e Cortés (2011), acreditam que na base dos fatores de riscos sociais, laborais e profissionais estão o contato contínuo com o sofrimento e morte, as relações interpessoais do trabalho, a necessidade de tomar decisões e o nível de responsabilidade, as qualificações profissionais, a necessidade de reconhecimento, a organização do trabalho, a carga de trabalho e os horários irregulares.

No ambiente de trabalho, a vida do indivíduo sofre influência do trabalho com dificuldades de várias naturezas: ordem social, mudança de hierarquia, relação de poder, organização do trabalho, entre outras, e isso provoca sensação de fadiga no trabalho. Por isso que a saúde mental do trabalhador deve ser um estado de vigor físico e intelectual para o desempenho das atividades laborais (MILHOMEM; OLIVEIRA, 2007).

O trabalho dos profissionais de enfermagem dos CAPS acontece nas relações sociais e nas interfaces entre singular e coletivo, trabalho e saúde mental, devendo ser aproveitado como espaço da construção de uma prática reflexiva sobre as atividades e as relações estabelecidas entre os profissionais. A subjetividade, a motivação e os desejos aparecem como centrais, podendo produzir prazer e/ou sofrimento.

Os profissionais de enfermagem que atuam nos CAPS buscam fortalecer a promoção de ações terapêuticas as quais possam identificar e auxiliar na recuperação do usuário em sofrimento psíquico visando à reabilitação de suas capacidades físicas e mentais, respeitando suas limitações e os seus direitos de cidadania.

Entendemos que identificar os fatores que podem levar à geração de cargas psíquicas dos profissionais de enfermagem inseridos nos CAPS III, considerando a subjetividade e organização do trabalho, permitirá olhar para os desafios fundamentais para construção e (re)construção de uma prática profissional que se constitui subjetiva e objetivamente como um trabalho técnico, político e científico.

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