Finalizando a análise dos dados, pode-se observar nos exemplos da coleção (os capítulos selecionados) a mescla de perspectivas que perpassam os livros didáticos de português na atualidade (aqui se especificando os livros destinados ao ensino médio). Conforme Mendonça (2006, p. 44), “velhas e novas práticas convivem nas aulas de gramática”.
Tal posicionamento também foi evidenciado no Guia (2011) dos livros didáticos (PNLD-2012) que, em um quadro esquemático, aponta como pontos fracos da coleção “Exercícios de análise linguística a partir de frases isoladas” e “Ênfase em atividades de classificação de termos da oração”. Essas seriam as “velhas práticas”. E em outro ponto o Guia (2011, p. 52) afirma que “As atividades em torno dos conhecimentos linguísticos, em certa medida, promovem a reflexão sobre a natureza e o funcionamento interativo da língua”. Essas seriam as “novas práticas”.
Esse movimento foi visto quando se pôde visualizar um tratamento tradicional, ligado à estrutura, quando do tratamento de um tópico gramatical, da sua conceituação até a sua aplicação na “cobrança” de apreensão dos conceitos, por intermédios de exercícios. E em certas atividades, principalmente as das seções que a categoria gramatical ligava-se ao “funcionamento do texto”, visualizamos um tratamento reflexivo, ao nível do texto, e por vezes, ao nível do discurso.
É importante salientar que no próprio Manual do Professor essa mescla foi evidenciada, quando os autores afirmam que se propõem em trabalhar os conhecimentos linguísticos ao nível da frase e com a gramática descritiva, de base normativa, e ao nível do texto e do discurso, com a gramática reflexiva.
Com isso, constatamos que o livro didático de português do ensino médio evidencia um momento de transição, onde as novas teorias com seus conteúdos e métodos já estão presentes, porém elas dividem espaço com a força do tradicional que se perpetua também com seus conteúdos e métodos tradicionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A nossa pesquisa se propôs em verificar como os autores da coleção “Português: linguagens” (2010) abordariam os conhecimentos gramaticais nos volumes destinados aos anos do ensino médio. Primeiramente, visualizamos a proposta em si, no Manual do professor. Vimos, então, que eles apresentaram a proposta de se trabalhar ao nível da frase, do texto e do discurso, tendo como base a gramática normativa (em seus aspectos prescritivos e descritivos), a gramática de uso e a gramática reflexiva.
Em seguida, na análise dos dados, pudemos constatar que os autores trabalharam em cima do que foi proposto no Manual do Professor, revelando uma abordagem mesclada de velhos e novos conteúdos e metodologias, ou seja, explicitando a tensão presente nos livros didáticos de português do ensino médio entre “velhas e novas práticas”.
Na prática, vimos esse movimento quando os autores ora pendiam para um trabalho mais reflexivo (a categoria gramatical na construção do texto, como também do discurso), ora pendiam para um trabalho mais tradicional (análise e classificação da estrutura da frase, oração). Também constatamos exercícios que buscavam automatizar um determinado uso linguístico (gramática de uso), bem como exercícios que direcionavam para as regras prescritivas da gramática normativa.
Sendo assim, ao findarmos nossa pesquisa, pudemos constatar que o livro didático de português do ensino médio tem apresentado mudanças no que concerne ao trabalho com os conteúdos gramaticais. Mudanças que ainda são tímidas, porém, mostram um modo de se trabalhar os tópicos gramaticais em uma perspectiva de análise linguística, que envolve tanto a prática de leitura quanto da produção de textos.
Outro ponto importante que pôde ser constatado, através da análise dos exemplos selecionados para a nossa pesquisa, foi o de que um tópico gramatical (por exemplo, substantivo) pode ser abordado por diferentes tipos de gramática (reflexiva, de uso, normativa e descritiva).
Entretanto, nos exercícios, ficou comprovado que o trabalho com a gramática reflexiva é o mais indicado para desenvolver as habilidades de análise e sistematização dos elementos constituintes da língua em uso. Finalidade que é proposta pelos referenciais nacionais (PCNEF, PCNEM, OCEM) e pelo referencial do Estado da Paraíba (RCEM).
Nesse ponto, chegamos também a conclusão de que há espaço para se trabalhar com os outros tipos de gramática, inclusive a descritiva e a normativa.
O trabalho com a gramática descritiva se dá pela proposta do professor em propiciar aos alunos uma nomenclatura científica (de base normativa ou não) veiculada aos estudos da língua(gem).
Já no trabalho com a gramática normativa se circunscreve em o professor mostrar aos alunos as regras linguísticas da variedade padrão que devem ser aprendidas, para fins de um maior domínio da escrita e leitura dos gêneros textuais orais e escritos que circulam na sociedade, bem como da apropriação (para afirmação ou negação) dos múltiplos discursos que estes gêneros veiculam.
Em suma, podemos dizer que no trabalho com os conhecimentos gramaticais são evidenciados níveis de análise linguística (AL). Isto é visualizado quando afirmamos que se pode trabalhar os fatos da língua a partir da gramática reflexiva, da gramática de uso, da gramática normativa e da gramática descritiva.
A escolha de qual gramática se trabalhar, e a sua devida predominância, determinará o nível de AL, bem como determinará quais os objetivos para o estudo de uma determinada categoria gramatical, quais as ideologias presentes, quais as concepções de gramática, de texto, de língua, de ensino se está adotando para um determinado momento. E isto, seja na própria prática pedagógica, seja na simples adoção de um determinado livro didático.
Portanto, convém observar que é necessário se debruçar ainda mais sobre o livro didático de português, bem como em analisar as propostas e sugestões de abordagens dos conteúdos gramaticais que surgem por meio de estudos e pesquisas no âmbito acadêmico das ciências linguísticas.
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ANEXO A – PÁGINAS SELECIONADAS DO 1º VOLUME DA COLEÇÃO
ANEXO B – PÁGINAS SELECIONADAS DO 2º VOLUME DA COLEÇÃO
ANEXO C – PÁGINAS SELECIONADAS DO 3º VOLUME DA COLEÇÃO