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Neste percurso investigativo acerca da teoria do fetichismo de Karl Marx, faz-se primeiramente necessário uma incursão às origens históricas do termo fetichismo e suas primeiras incorporações conceituais à ciência e à filosofia; o que remete à época das colonizações europeias sobre o continente africano, entre os séculos XV e XVII.

Quando os colonizadores europeus, ao se depararem com uma diversidade de crenças, ritos e cultos dos povos africanos a determinados objetos ou fenômenos da natureza – crenças estas que se diferiam significativamente das religiões monoteístas prevalecentes na Europa –, designaram estes costumes como cultos fetichistas. Da palavra feitiço, de origem portuguesa117,

117 Quanto à origem etimológica da palavra fetichismo, Pires (2014) relata que se trata de uma “(...) palavra aparentemente de origem crioula ou pidgin (...)” (p. 150 – grifos do autor), ao passo que Fleck (2012) esclarece que “A palavra ‘fetichismo’ deriva de ‘fetiche’. ‘Fetiche’, em português, deriva da palavra francesa ‘fétiche’, a qual, por sua vez, tem sua origem na portuguesa ‘feitiço’. Esta última, por fim, remete à latina ‘facticius’, significando aproximadamente o mesmo que ‘artificial’(...)” (p. 143 – grifos do autor).

que designava os efeitos da feitiçaria, é extraído um neologismo: a palavra fetiche, a qual passa a ser utilizada para indicar os costumes daqueles povos africanos de idolatrar animais, objetos, imagens, não como representação de um ser místico, mas como a própria materialização deste ser (PIRES, 2014).

Foi então que em 1760, um filósofo da Académie des Inscriptions et Belle-Lettres de Paris chamado Charles de Brosses (1709-1777), por meio de sua obra Do culto dos deuses

fetiches ou Paralelo da antiga religião do Egito com a religião atual da Nigritia (DE

BROSSES, 1988 [1760]), converte este termo, usado tradicionalmente para designar costumes especificamente africanos, num conceito que abrange sua designação para todo e qualquer costume que consista na idolatria de objetos, independentemente da época e do lugar em que se desenvolvesse tal hábito; assim:

(...) O fetichismo seria a adoração de divindades puramente materiais: o fetichista é o homem que, por ignorância, medo, desejo e loucura, adora pedras, animais e toda espécie de matéria bruta e sórdida. O fetichista desconheceria a verdadeira causalidade física do mundo, as leis de Deus e as ideias de belo e de universal. Além disso, ele seria incapaz de figuração, isto é, de analogia, metáfora, de pensamento representacional, e por isto o fetichista, a partir de sua necessidade de superstição para se proteger de um mundo que não compreende nem domina, adoraria uma coisa qualquer, o mais vil ser que encontrasse no meio do mato (...) (PIRES, 2014, p. 350-351). Diferentes filósofos – Kant (1724-1804), Hegel (1770-1831), Comte (1798-1857), dentre outros – se apropriaram deste conceito inserindo-o em suas teorias com o objetivo de compreender possíveis “estágios” do comportamento religioso. Assim, passou a ser usualmente empregado este conceito118 para se referir ao estágio mais “primitivo” da cultura humana em que os povos ditos “selvagens” direcionam as suas crenças à idolatria de objetos ou elementos da natureza. Os níveis de “aprimoramento” religioso estariam, portanto, na passagem do

concreto ao abstrato, ou seja, da dedicação religiosa em seu nível inferior em que o ser místico

se encontra em algo material, tangível, até os níveis mais “evoluídos” – em que a imagem passa a restringir-se à representação –, destes, primeiramente o politeísmo, como culto a uma diversidade deuses até, por fim, o costume religioso mais “elevado”: o deus monoteísta119.

118 Dentre os estudiosos consultados que abordam a história do conceito de fetichismo, verificou-se o uso mais frequente do seguinte referencial teórico: Iacono, Alfonso. Le Fétichisme, Histoire d’un Concept. Paris, PUF, 1992.

119 Segundo Fleck (2012) “(...) A ideia subjacente é a de uma progressão linear na qual o objeto sagrado é tornado cada vez mais abstrato: começa-se com a divinificação de objetos materiais (fetichismo), segue-se com uma multiplicidade de deuses que se imiscuem na vida humana (politeísmo) e finda-se com um deus único, criador e julgador, mas que, grosso modo, deixa os problemas humanos seguirem seu próprio curso. Destarte, o progresso do pensamento humano iria do concreto ao abstrato, e o fetichismo seria a primeira tentativa de explicar os

E é deste conjunto intelectual que Karl Marx120, assim como todo iniciante aos estudos da filosofia na época, vai se servir: tomando conhecimento dos principais referenciais do pensamento filosófico que marcaram os séculos XVIII e XIX, bem como os conceitos que constituíram suas teorias – o conceito de fetichismo não era exceção dentre os mais habitualmente estudados121.

Contudo, é sabido que Marx não se restringiu a reproduzir o conceito de fetichismo tal como ele havia aprendido à época de seus estudos universitários. O fetichismo que até então era utilizado para se referir ao “outro” – aos povos africanos, aos povos “primitivos”, ao indivíduo “incapaz de figuração” – é apropriado por Marx para se referir, antagonicamente, a “nós mesmos”, à própria sociedade na qual ele se inseria. Ou seja: Marx passa a atribuir a partir de então um caráter reflexivo a este conceito122.

fenômenos da natureza através da crença em qualidades mágicas de determinados objetos (p. 143 – grifos do autor).

120 Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (GORENDER, 1983). Para apreciações minuciosas sobre vida e obra de Marx publicadas no Brasil, além da Apresentação de Gorender (1983) à tradução d’O Capital da editora Abril Cultural, e da Apresentação: Marx em Paris (2015) de José Paulo Netto publicada pela editora Expressão Popular, a Apresentação de Mario Duayer à tradução brasileira dos Grundrisse (2011) realizada pela editora Boitempo também oferece contribuições relevantes.

121 A afirmação de Safatle (2010), referenciando-se em Hartmut Böhme*, de que Marx leu De Brosses, vai ao encontro da observação de José Paulo Netto a respeito dos estudos realizados por Marx em sua adolescência na Universidade de Bonn. Em um de seus cadernos desta época, dentre os autores estudados, consta Charles De Brosses. Em nota, Netto (2015) oferece alguns apontamentos sobre os cadernos de anotações de Marx: “Um dos editores da Mega, V. V. Adoratski, anotou que se conservaram cerca de 250 de tais cadernos. Já antes dos cadernos de 1844-1845, de que fazem parte os Cadernos de Paris (notas de leitura de 1844), Marx redigiu três conjuntos similares: os Cadernos de Bonn (que têm por objeto Meiners, Barbeyrac, Debrosses, Boettiger e Grund), os Cadernos de Berlim, de 1840-1841 (que têm por objeto Hegel, Aristóteles, Spinoza, Leibniz, Hume e Rosenkranz), e os Cadernos de Kreuznach, de 1843 (que têm por objeto, entre muitos outros, Rousseau, Montesquieu, Wachsmuth, Ranke, Maquiavel) – cf. a esclarecedora nota de W. Roces a Obras fundamentales de Marx y Engels. 1. Escritos de juventud de Carlos Marx. México: Fondo de Cultura Económica, 1987, p. 539 e ss. (...) (NETTO, 2015, p. 125 - 126 – nota 77 – itálicos do autor e negritos nossos). *BÖHME, Hartmut. Fetischismus und Kultur: eine andere theorie der Moderne. Rowohlt: Hamburgo, 2006.

122 Diferentes comentadores da obra marxiana afirmam que Marx acabou por realizar, pela primeira vez na história, uma inversão de sentido do conceito de fetichismo. Fleck (2012), por exemplo, afirma que Marx realiza um golpe retórico no uso do conceito. Segundo este autor, “O uso reflexivo abole, em primeira instância, a distinção rígida entre o civilizado e o primitivo, mostrando, neste caso específico, o quanto de primitivo há no civilizado (...)” (p. 144). Vladimir Safatle, em sua obra Fetichismo: colonizar o outro (2010), argumenta que o fetichismo em Freud é certamente solidário ao fetichismo em Marx na medida em que ambos, primeiramente Marx e depois Freud, propõem uma conotação inversa do uso feito até então deste conceito: “(...) eles se servem de um conceito (fetichismo) que até então era usado para descrever o que seria exterior às sociedades modernas (De Brosses, Comte), o que seria fixação que impediria o desenvolvimento de processos de maturação da vida sexual (Binet). Mas agora eles o utilizam para descrever o interior do processo de determinação do valor em nossas sociedades (Marx) ou ainda o modo com que a maturação sexual e a formação do Eu podem admitir a regressão e a dissociação subjetiva (Freud). Através dos dois autores, o fetichismo se transforma em dispositivo de crítica da modernidade e de seus processos de socialização, expondo os móbiles de alienação seja no interior do campo do trabalho (Marx) seja no interior do campo do desejo (Freud) (...)” (p. 26-27). Evidentemente, quanto ao fetichismo em Freud, deixa- se a cargo dos estudiosos da referida teoria; já no que diz respeito ao fetichismo em Marx, se este realmente diz respeito à “alienação” ou estritamente ao “campo do trabalho”, serão apresentadas algumas considerações sobre tais questões no item subsequente da presente tese de doutoramento.

No decorrer de sua vasta produção teórica é verificado, por conseguinte, o uso da expressão fetichismo, na maioria das vezes caracterizando-a precisamente de forma reflexiva, em diferentes contextos argumentativos e endereçada a uma diversidade de “alvos” de suas austeras críticas. No entanto, é em sua obra O Capital – mais especificamente no último item do primeiro capítulo do livro primeiro desta obra – que Marx vai desenvolver mais pormenorizadamente uma exposição que envolve este termo. E assim como toda a sua teoria, também o fetichismo foi, e ainda é, objeto de análise de estudiosos de diferentes matizes teóricos, envolvendo uma diversidade de interpretações123, bem como, servindo de inspiração a constructos científicos124 que, por vezes, até mesmo se distanciam em muito da própria teoria marxiana.

As polêmicas em torno da problemática do fetichismo – tal como já abordado na Introdução desta tese – não possuem qualquer novidade nos debates acerca da produção teórica marxiana. Elas remetem às primeiras polêmicas sobre a própria obra O Capital. De tal modo, aquelas diferentes alusões ao conceito de fetichismo em Marx apresentadas no primeiro capítulo, dedicado à exposição das interpretações deste conceito na área da educação, encontram significativa semelhança com as próprias interpretações que há muito tempo predominam na tradição do pensamento marxista mundial125. Assim, Isaak Rubin (1886-1937) em 1923 já explicitava um diagnóstico extremamente parecido com o que aqui se apresenta:

Em que consiste a teoria marxista do fetichismo, segundo as interpretações

geralmente aceitas? Consiste em Marx ter visto relações humanas por trás

das relações entre as coisas, revelando a ilusão da consciência humana que se origina da economia mercantil e atribui às coisas características que têm sua origem nas relações sociais entre as pessoas no processo de produção. “Incapaz de compreender que a associação das pessoas que trabalham, em sua luta com a natureza – isto é, as relações sociais de produção – expressam-se na troca, o fetichismo da mercadoria considera a intercambialidade das mercadorias como uma propriedade interna, natural, das próprias mercadorias. Em outras palavras, o que na realidade é uma relação entre pessoas aparece como uma relação entre as coisas, no contexto do fetichismo da

123 José Paulo Netto em seu ensaio Capitalismo e reificação (2015 [1981]), escrito há quase quarenta anos atrás, já relatava que na década de 1970 “(...) Adam Schaff contou quase três centenas de pensadores que intervieram na discussão” (p. 21 – nota liminar à 1ª edição).

124 Não por acaso, em significativa amostra das produções científicas realizadas no Brasil na última década sobre os temas da educação e do fetichismo, foi também verificada a existência de estudos que propõem-se a inquirir possíveis correlações do conceito marxiano de fetichismo com a abordagem do fetichismo na psicanálise freudiana, o fetichismo da música em Theodor Adorno, o fetichismo da pseudoconcreticidade em Karel Kosik e o fetichismo da individualidade em Newton Duarte (a listagem dos referenciais pode ser conferida no APÊNDICE C desta tese).Mostra-se indubitavelmente relevante a consulta a tais teorias sobre o fetichismo, verificando-se se tais correlações se confirmam. Empreitada esta inviável nos limites da presente tese, ainda que necessária a futuros estudos sobre esta temática.

mercadoria.”126 “Características que pareciam misteriosas, pois não eram

explicadas com base nas relações dos produtores entre si, eram atribuídas à essência natural das mercadorias. Assim como um fetichista atribui a seu fetiche características que não decorrem da natureza desse fetiche, os economistas burgueses consideram a mercadoria uma coisa sensorial que possui propriedades extra-sensoriais.”127 A teoria do fetichismo elimina da mente dos homens a ilusão, o grandioso engano originado pela aparência dos fenômenos, na economia mercantil, e a aceitação dessa aparência (o

movimento das coisas, das mercadorias e seus preços de mercado) como essência dos fenômenos econômicos. (...) (RUBIN, 1987 [1923], p. 19 – negritos nossos).

Ora, se Bogdanov (1873-1928) e Kautsky (1854-1938), dois reconhecidos expoentes da história do marxismo, caracterizam o fetichismo em Karl Marx tal como Rubin expõe nesta passagem, e mais, se o próprio Marx, no item de seu O Capital no qual ele se dedica

exclusivamente a tratar do fetichismo, declara na tão célebre passagem128 – utilizada nas produções analisadas no primeiro capítulo – “Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos do trabalho”, possibilitando a compreensão de que fetichismo é uma forma

fantasmagórica, fruto da ilusão da consciência humana, então, que sentido teria tantas

contendas, tantas tergiversações, em função de um conceito que se apresenta tão claramente definido?

Um ponto de partida indispensável para o devido encaminhamento à referida pergunta é a perquirição a respeito do contexto no qual se insere a passagem marxiana acima mencionada, o que alude não somente ao item O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo – último item do primeiro capítulo d’O Capital no qual se encontra este excerto –, mas ao conjunto teórico no qual este se insere. E, de acordo com tal pressuposto, muitos esforços têm sido empreendidos rumo a uma compreensão mais aproximada das contribuições oferecidas pela teoria social de Karl Marx. Neste sentido, averiguou-se o desenvolvimento, fundamentalmente, de duas direções rumo à compreensão do conceito marxiano de fetichismo: a primeira – notadamente hegemônica na história do pensamento marxista – vislumbra na trajetória teórica de Marx a constituição do fetichismo como desdobramento da teoria geral da alienação, ou

126 BOGDANOV, A. Kratkii kurs ekonomicheskoi nauki (Curso Breve de Ciência Econômica), 1920, p. 105. (RUBIN, 1987 [1923], p. 19 – nota de rodapé).

127 KAUTSKY, K. The Economic Doctrines of Karl Marx. Londres: A&C. Black, 1925, p. 11. (RUBIN, 1987 [1923], p. 19 – nota de rodapé).

128 Trata-se, evidentemente, da célebre passagem: “(...) Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia, temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião. Aqui, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias (MARX, 1983, p. 71 – grifos nossos).

seja, o fetichismo se explicita como fator circunscrito à alienação, sendo este, na interpretação de parte destes autores, veiculado à caracterização de determinações históricas específicas (sociedade capitalista) no interior da totalidade mais abrangente da alienação (propriedade privada), ou ainda, um detalhamento, ou aprofundamento, histórico inerente à categoria geral da alienação; e a segunda interpretação – esta verificada em uma quantidade pouco expressiva de autores – compreende, distintamente, o fetichismo como fator intrínseco à teoria marxiana do valor, inerente às sociedades onde prevalecem o modo de produção capitalista, sendo esta, por sua vez, subjacente à universalidade da teoria social marxiana.

No entanto, para além de um mero enquadramento e/ou defesa desta ou daquela interpretação da teoria marxiana do fetichismo, faz-se necessário ir ao encalço do próprio personagem que cunhou tal teoria, ou seja, perquirir no próprio âmago da trajetória teórica marxiana a constituição do fetichismo. Assim, se apresenta no próximo item, como também no capítulo subsequente, o conjunto dos resultados obtidos no decorrer desta etapa investigativa.