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Nas últimas décadas, as pesquisas sobre a formação de profes- sores têm apontado para o interesse de estudiosos em vários países, no sentido de compreender os saberes necessários à docência. Assim, a identificação dos saberes construídos na prática de ensino desenvolvidos no estágio curricular tem mere- cido atenção por se referir aos saberes iniciais dos graduandos no contato direto com a realidade escolar.

Na formação inicial, podemos considerar o Estágio Supervisionado um marco na vida do aluno, pois nele acontece uma aproximação com o campo de trabalho, um encontro com a realidade tal qual ela acontece no dia a dia. Para Tardif (2012), os estudantes dos cursos de licenciatura, durante o Estágio Supervisionado, os conhecimentos e as experiências até então adquiridos são testados, acionados e outros tantos construídos.

1Neste texto, apresentamos um recorte dos resultados obtidos em uma

pesquisa desenvolvida no mestrado em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN (2015), que teve como interesse identificar quais são os saberes que os estagiários dizem ter construídos na prática de ensino desenvolvida no estágio no curso de Pedagogia da UFRN.

SABERES CONSTRUÍDOS NA PRÁTICA: INVESTIGAÇÃO NO ESTÁGIO CURRICULAR DO CURSO DE PEDAGOGIA DA UFRN Maria Cilene de Menezes Silva e Lucrécio Araújo de Sá Júnior

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Para Pimenta e Lima (2012), o estágio é um espaço de reflexão por excelência e de construção da identidade profissional. Não se limita a uma simples observação e registro da experiência, mas um momento de construção de conhecimentos.

Vale ressaltar que no percurso acadêmico, o profissional adquire os conhecimentos teóricos e práticos que servem de base para a sua atuação futura. Entretanto, para os professores, em particular, essa formação inicial conta ainda com os conhe- cimentos que eles trazem da sua vivência enquanto alunos. Assim, indagamos: quais saberes os estagiários dizem ter cons- truído no exercício da profissão? Diante de tal questionamento, esta pesquisa teve como um dos objetivos identificar os saberes construídos na prática de ensino desenvolvida no estágio.

O referencial teórico para subsidiar o presente estudo se pauta em Tardif (2012) e Pimenta (2012), por se tratar de pesquisas que tentam sistematizar os saberes que os docentes mobilizam em situações reais de trabalho. Ambos consideram a prática docente como uma prática social, que reflete o meio social, e não se limita à transmissão de conteúdo. É uma prática complexa para a qual concorrem vários saberes.

Partindo de uma análise sociológica, Tardif (2012) traz contribuições de estudos internacionais e faz uma análise bastante ampla que serve de guia para nossas análises. Ele situa o saber docente na relação direta com o trabalho, explicitando uma diversidade de saberes que trazem à tona conhecimentos e manifestações do saber fazer e do saber ser muito diversifica- dos, cuja natureza e fontes são bastante variadas. Considera o trabalho como uma práxis social que, em termos sociológicos, modifica a identidade de quem trabalha, ao mesmo tempo em que o trabalhador transforma o seu trabalho. A partir desse pensamento, entendemos que, se um professor ensina por muito

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tempo, isso provoca mudanças em si mesmo e, desse modo, sua identidade carrega as marcas da atividade profissional.

Para esse autor, a relação do professor com o saber não se limita a “transmitir conhecimento” já construído, como por exemplo, os conteúdos do livro didático. A prática docente inte- gra diferentes saberes e o professor é detentor de um saber que surge da prática, da experiência. Essa experiência significa o “conjunto de vivências significativas através das quais o sujeito se identifica, seleciona, destaca os conhecimentos necessários e válidos para a atividade profissional” (MONTEIRO, 2002, p. 138).

Ao considerar os saberes dos professores como um saber social, Tardif (2012) afirma que esses saberes dependem das condições sociais e históricas nas quais os professores desen- volvem sua atividade profissional, que é o ensino, estando liga- do às condições da escola e à sua organização, bem como ao contexto social mais amplo que determina os conhecimentos exigidos no exercício da profissão. Por outro lado, considera também o professor como um ator individual que traz consigo uma cultura geral, seus conhecimentos pessoais, adquiridos ao longo da vida, fora da profissão, que estão baseados em valores e podem ser incorporados à ação profissional, o que é comum a qualquer profissão.

Percebemos, nas pesquisas de Tardif (2012), que a noção de saber está relacionada ao contexto mais amplo, à realida- de social, ao contexto de trabalho, à história de vida. Nesse aspecto, o saber do professor está na interface entre o social e o individual. O autor considera o saber como social por vários motivos: é partilhado por um grupo, ou seja, a prática de um professor ganha sentido quando compartilhado por outros; é orientado por um sistema que o legitima e, como em qual- quer profissão, necessita que seja reconhecido socialmente; é

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desenvolvido na interação com os alunos, sujeitos sociais; e, por fim, é social porque é adquirido também em um contexto de socialização profissional. Além disso, é um saber individual construído na relação com os alunos, ou seja, no processo da atividade profissional, por isso, ligado a uma situação de traba- lho complexa, que é o ensino (TARDIF, 2012).

De acordo com Tardif (2012), todo trabalho humano requer conhecimentos específicos que são partilhados por quem exerce a profissão. Na prática profissional, o professor integra diferentes saberes com os quais mantém relações diversas. Esse autor define o saber docente como plural, hete- rogêneo, resultante do amálgama de vários saberes oriundos da formação profissional, das disciplinas, dos currículos e da experiência. Essa foi uma primeira tentativa de dar conta do pluralismo epistemológico dos saberes dos professores, a qual ainda é válida atualmente.

Os saberes da formação profissional (das ciências da educação e da ideologia pedagógica) correspondem ao conjun- to de saberes transmitidos pelas instituições responsáveis pela formação dos professores, e são destinados à formação científica erudita. Os saberes disciplinares dizem respeito aos saberes que integram as disciplinas selecionadas pelas instituições universitárias para integrar a formação inicial. Os

saberes curriculares, se apresentam sob a forma de progra-

mas, contendo objetivos, conteúdo e métodos, os quais os professores devem aprender a aplicar. Por último, os saberes

da experiência, que são desenvolvidos na prática, no exercício

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experiência individual e coletiva sob a forma de habitus2 e são,

por ela, validados, referindo-se ao saber fazer e saber ser, ou seja, aos saberes práticos.

A relação do professor com esses saberes ocorre de forma distinta. Com os saberes pedagógicos, disciplinares, curricula- res, oriundos da cultura e incorporados à formação, os profes- sores mantêm uma relação de exterioridade. Porém, com os saberes da experiência, os professores estabelecem uma relação de interioridade, constituindo-se no núcleo vital, a partir do qual interiorizam e transformam a relação de exterioridade com os demais saberes por meio da própria prática. Por esse motivo,

os saberes experienciais não são saberes como os outros; são, ao contrário, formados de todos os demais, mas traduzidos, ‘polidos’ e submetidos às certezas construídas na prática e na experiência (TARDIF, 2012, p. 54)

É importante esclarecer que essa relação de exteriorida- de se relaciona à divisão social do trabalho intelectual, “entre os produtores de saberes e os formadores, entre os grupos e instituições que produzem e legitimam saberes e instituições que formam professores” (TARDIF, 2012, p. 54).

A primeira classificação proposta pelo autor procura associar os saberes à sua fonte. Posteriormente, Tardif (2012) apresenta um modelo tipológico dos saberes, relacionando-os com os lugares onde os professores atuam, as experiências e as

2“Um sistema de esquemas de percepção, adquiridos ao longo do tempo, que

nos permite perceber e agir e evoluir com naturalidade num universo social dado. Constitui como uma espécie de segunda natureza inconsciente, num sentido prático”, como resume Loyola (2002, p. 68).

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fontes de aquisição, bem como ao modo como são integrados ao processo de trabalho, conforme evidenciado no quadro a seguir:

Saberes dos professores Fontes sociais de aquisição Modos de integração no trabalho docente

Saberes pessoais dos professores

A família, o ambiente de vida, a educação no sentido lato etc.

Pela história de vida e pela socialização primária Saberes provenientes da formação escolar anterior A escola primária e secundária, os estudos pós-secundários não especializados etc. Pela formação e pela socialização pré-profissionais Saberes provenientes da formação profissional para o magistério Os estabelecimentos de formação de professores, os estágios, os cursos de reciclagem etc. Pela formação e pela socialização profissional nas instituições de formação de professores Saberes provenientes dos programas e livros didáticos usados no trabalho A utilização das “ferramentas” dos professores: programas, livros didáticos, cadernos de exercícios, fichas etc.

Pela utilização das “ferramentas” de trabalho, sua adaptação às tarefas Saberes provenientes de sua própria experiência na profissão, na sala de aula e na escola A prática do ofício na escola e na sala de aula, a experiência dos pares etc.

Pela prática do trabalho e pela socialização profissional Quadro 1 – Os saberes dos professores.

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