3. Th´ eorie homotopique ´ el´ ementaire des cat´ egories
3.1. Colimites et extensions de Kan homotopiques
Encontramos já uma articulação da metacognição com a argumentação em alguns dos textos de Flavell (por exemplo, o de 1987) quando o mesmo reflete sobre duas questões cruciais que envolvem a metacognição. A primeira questão diz respeito a uma reflexão sobre
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que propriedades facilitam o desenvolvimento da metacognição em um organismo. Dentre outras importantes propriedades, como a tendência ao exercício da atividade de pensamento e a falibilidade, que o levaria a necessidade de desenvolver mecanismos de monitoramento e regulação, duas outras citadas pelo autor nos chamam a atenção. Uma diz respeito ao desejo de comunicação, explicação e justificação de seu pensamento tanto para outros organismos como para si mesmo. A outra se refere ao interesse deste organismo, tanto para sua sobrevivência como para sua evolução, em avaliar criticamente planos e pensamentos alternativos aos seus. Respectivamente, essas duas propriedades citadas por Flavell nos levam a fazer um paralelo com dois dos elementos constitutivos principais e definidores da argumentação, a justificação e a consideração de perspectivas contrárias. Para concluir esta reflexão, Flavell ainda fala da necessidade de realizar inferências e de explicar acontecimentos psicológicos próprios ou referentes a outrem. Segundo ele, todas essas atividades requerem habilidades metacognitivas e são os seres humanos os únicos organismos nos quais podemos observar a existência/desenvolvimento dessas propriedades. Assim, podemos pensar, a partir dessa reflexão de Flavell (1987), que um indivíduo engajado em uma argumentação, ao se ver envolvido em justificar e responder a contra-argumentos, estaria conseqüentemente envolvido em atividades de natureza metacognitiva.
A outra reflexão interessante do autor que, além de articular metacognição e argumentação, ainda se encontra intrinsecamente ligada aos objetivos deste estudo, se dá quando da tentativa de responder à seguinte pergunta: Quando nós estaríamos mais propensos a ter experiências metacognitivas? Ao responder esta pergunta, Flavell, inicia dizendo que em primeiro lugar, as experiências metacognitivas estão mais obviamente aptas a ocorrerem quando a situação as demanda explicitamente, como, por exemplo, quando é solicitado a alguém que justifique uma conclusão ou defenda um ponto de vista. Entre outras situações abordadas - necessidade de realizar inferências, julgamentos, tomada de decisões, monitoramento - mais uma realçada por este autor nos chama atenção pela óbvia relação que
guarda com a argumentação: as situações em que o ‘empreendimento’ cognitivo (cognitive enterprise) de alguém parece passar por algum tipo de problema. Segundo Flavell, nada é mais propiciador de uma análise crítica de alguém a respeito de seus próprios pensamentos do que quando este alguém se encontra diante de uma contradição ou uma contestação/negação ao seu pensamento. Vemos aí, mais uma vez, Flavell (1987), ainda que não diretamente, fazendo referência aos elementos constitutivos da argumentação como facilitadores da atividade metacognitiva – contra-argumentação e resposta. O elemento “resposta”, embora não comumente encontrado nas teorias de argumentação correntes como fazendo parte da estrutura de um argumento, é proposta por Leitão (1999a) como um dos elementos constitutivos desse tipo de discurso na tentativa de formular uma perspectiva dialógica de argumentação.
Somando a estas idéias de Flavell, o presente estudo tem em Leitão (2003) uma importante base de contribuição para a reflexão da articulação entre metacognição e argumentação. A proposta desta autora de estudar uma possível dimensão metacognitiva na argumentação se traduz justamente na exploração do potencial deste tipo específico de discurso em promover o pensamento metacognitivo, que ela define como sendo o pensamento que as pessoas realizam quando elas tomam seus próprios processos de pensamento como objeto de reflexão.
Leitão defende que argumentar envolve, em uma primeira instância, a tentativa de um indivíduo lidar com os inúmeros dilemas que surgem no momento em que está tentando dar sentido ao mundo em que vive. A argumentação seria o movimento que este mesmo indivíduo imprime entre, ao mesmo tempo, gerar e defender um ponto de vista e questioná-lo a partir das contraposições direcionadas ao mesmo. Para a autora, em ambos os casos, o indivíduo é levado a tomar seus próprios pontos de vista como objeto de reflexão de maneira a permiti-lo refletir sobre a consistência, coerência e adequação de seu pensamento.
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Neste momento fica bastante claro o ponto de intersecção entre metacognição e argumentação proposto pela autora. Segundo Leitão, os mecanismos semióticos que constituem a argumentação, isto é, sua própria organização discursiva, proporciona os recursos simbólicos necessários para que este indivíduo possa regular as discordâncias surgidas. Cada movimento de uma seqüência argumentativa - emitir e defender um ponto de vista, disputar esse ponto de vista e responder a contra-posições - tem um importante papel mediador em promover reflexão a um nível metacognitivo. Podemos compreender isso se refletirmos um pouco sobre o que é necessário, em primeira instância, para que alguém defenda um ponto de vista com justificativas para o mesmo. Este indivíduo precisará dirigir sua atenção às bases sobre as quais o seu ponto de vista está sendo construído. É o que ocorre também quando este indivíduo tem que responder a um questionamento ou a um contra- argumento. Esta resposta vai requerer deste indivíduo que ele não simplesmente reconheça a existência de diferentes posições, mas, ainda, re-avalie a sustentabilidade do seu ponto de vista inicial a luz desta contra-posição surgida. Assim, ao produzir uma seqüência argumentativa, o indivíduo aos poucos vai mudando o foco de sua atenção do conteúdo discutido para seus próprios pontos de vista sobre este conteúdo. Essa mudança de orientação, segundo a autora, leva a uma diferenciação do processo de pensamento do indivíduo, que passa a ter seus próprios pensamentos como novo objeto de reflexão. Esse movimento
caracteriza a transição de um processo de pensamento para um processo de meta-
pensamento.
A grande contribuição desses dois autores consiste em fornecer as bases e abrir espaço para a continuidade de uma reflexão a respeito de possibilidades outras de articulação entre argumentação e metacognição. Neste sentido, além de a argumentação permitir que os indivíduos envolvidos reflitam sobre as bases e razoabilidade de seus pensamentos/argumentos, atividade essencialmente metacognitiva investigada por Leitão
(2003), este estudo sugere que o envolvimento em situações de argumentação favorece o desenvolvimento de determinada função de auto-regulação, o monitoramento do
pensamento, o que fortalece a defesa de uma dimensão metacognitiva inerente a este tipo
específico de discurso.