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Une cohabitation parfois mise en danger

Partie 2 : La question de l'identité québécois à travers le prisme du théâtre

1.3 Une cohabitation parfois mise en danger

Em 3 de agosto de 1580, em Lisboa, uma peculiar bandeira formou-se para marchar na batalha de Alcântara. Os frades de São Francisco decidiram eleger para ser o seu capitão um frei de origem castelhana que “de milhor vontade o aceitou”. Todos que adentravam a esta bandeira tinham que jurar “morrer pella defensam de purtugal e não tomar nunca atrás ne no prometido nem na peleja e de serem em tudo muito leais e fieis a pátria”. A bandeira atraiu uma multidão de voluntários, em grande parte devido ao seu capitão que percorria as ruas com seu bastão e uma estátua de São Francisco que “Com as exoirtaçõis que fazia atrahiam os corações dos homens a seguir tais pendois e asentarense por soldados por onde veyo a fazer huma bandeira de muito fermosa gente apostada toda a morrer”461.

Dentre todas as crenças do antonismo, nenhuma parece estar mais disseminada do que a ideia de Pro patria mori (Morrer pela pátria). Podemos encontrar expressões como “ser leal e fiel a pátria” ou “morrer pela pátria” com tanta frequência e proferidas seja por populares, seja por eruditos, que não restam dúvidas da sua importância para o antonismo. No entanto, isto nos leva a polêmica a respeito da capacidade de que a palavra pátria tem de influenciar o comportamento dos agentes na Idade Moderna.

Para analisar esta problemática devemos, primeiramente, levar em consideração os diferentes tipos de significados que existem em torno de uma palavra462. Como é de conhecimento, constata-se que a palavra pátria carece de um significado semântico forte, isto é, as condições de verdade para o seu emprego são poucas ou inexistentes naquele período. Ao contrário de palavras como império, reino, rei, coroa, etc., cujo emprego é regulado por uma série de condições e pré-requisitos para que uma proposição que a contenha seja verdadeira (basta pensar o quanto uma expressão como

460 ALBUQUERQUE, Martim de. A consciência Nacional Portuguesa: Ensaios de História das Ideias

Políticas. Vol. I. Lisboa: Tipografia Guerra, 1974, p. 117.

461 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 174.

196 D. Antônio é rei de Portugal necessita de argumentos para ser considerada correta), a palavra pátria não sofre com qualquer tipo de regulamentação em um sentido forte, sendo empregada de maneira muito diversificada, não sendo raro o seu uso de maneira contraditória.

Mas a ausência de um significado semântico não foi impedimento para o seu constante emprego. Uma forma tradicional de contornar o problema é o de verificar se tais usos eram antecipações das condições de verdade modernas para o seu emprego, isto é, como sinônimo de uma unidade territorial, linguística e cultural. Esta abordagem resultou em expressões que descrevem o fenômeno como a “formação da consciência nacional”, “nacionalismo primitivo”, “primeira expressão da pátria em sentido moderno”, para descrever a presença da palavra pátria e nação nos discursos antonistas.

Contudo, sem um significado consistente, continuou sendo muito difícil sustentar uma hipótese que faz da pátria o eixo articulador de um discurso ou a principal razão de um grupo entrar em conflito na Idade Moderna463. Particularmente, António Manuel Hespanha foi um dos mais duros críticos da ideia de um patriotismo ou nacionalismo naquele período. Seu argumento é que a sociedade era composta de múltiplos poderes, em uma concepção organicista, em que um poder central era tido como uma monstruosidade; segundo, e mais decisivo, o ente Portugal não possui um estatuto jurídico como no Estado oitocentista. Assim, deduz-se que ele é desprovido de qualquer carga semântica significativa. O conceito de nação portuguesa possui uma “carência do estatuto teórico que apenas receberá com a teoria política revolucionária e romântica”464.

Esta leitura, quando tomada como única chave interpretativa para os discursos antonistas, leva-nos a um paradoxo. Ela nos força a tratar o patriotismo do antonismo como algo “em formação”, “vago”, “primitivo”, algo que apareceu no horizonte, mas suas formas continuam indefinidas. Se este for o caso, como podemos explicar o seu constante emprego e até mesmo a presença de uma retórica de sacrifício? Temos que reorientar a questão e buscar outros tipos de significados, o significado linguístico ou conceitual, ou seja, o repertório de usos conhecidos da palavra que estavam disponíveis para os antonistas.

463 Para uma crítica à ideia de antecipação, ver SKINNER, Quentin. Meaning and Undestanding in the

History of Ideas. History and Theory, Vol. 8, N° 1, p. 3-53, 1969.

464 HESPANHA, António Manuel. As estruturas políticas em Portugal na época moderna. In:

197 De acordo Martim de Albuquerque, o uso mais frequente é o de terra natal, a aldeia, a cidade, região ou província de origem. Assim, “é um sentido particular e não geral” que ela se refere. Na Idade Média, a palavra latina patria era comum em documentos diplomáticos, pois a partir do direito romano ligou-se a patria à ideia de província romana, ou seja, uma entidade política. O que é possível de se observar em alguns documentos de D. Henrique e Afonso Henriques465.

Em língua vernácula, a palavra pátria surge no final da Idade Média, possivelmente entre os italianos que procuravam um termo para expressar uma realidade política acima das cidades-estado. Já em português, ela apareceu no século XV, entre cronistas e nos meios eclesiásticos, o seu uso continua sendo o mesmo, ou seja, como um sinônimo para a palavra terra466. A partir desta constatação, torna-se possível compreender grande parte do seu uso pelos antonistas, especialmente nos discursos das camadas populares ou do baixo clero, como bem revela Pero Roiz Soares: “E o que pior era de tudo ver portuguezes naturais da patria da terra quem ela mesmo criou asy dos que vinhão no exerçito (...) como se gloriavão de ver destroidos saqueados seus naturais”467.

No entanto, este não é o único uso conhecido. Nos meios eruditos, isto é, no clero, desenvolveu-se a crença que a morte pela pátria poderia ser interpretada de maneira semelhante ao martírio pela fé. Em seu início, o cristianismo, dentro da visão de Santo Agostinho, acreditava que a morte pela pátria praticada pelos romanos era diferente daquela dos cristãos, que a deveriam fazer pela da cidade celeste, pois pátria na cultura greco-romana significava a cidade e somente os bárbaros eram designados pelos nomes de sua terra de origem, os patriotai468. Esta situação mudou com o ideal de cruzada. Os ataques dos muçulmanos em terras cristãs, cuja obrigação de defesa cabia a nobreza, fez com que o discurso de defesa da terra fosse empregado com o mesmo sentido de defesa da Terra Santa469. Assim, para a nobreza, surgiu um novo tipo de

465 ALBUQUERQUE, Martim de, op. cit., 1974, p. 99-100. 466 ALBUQUERQUE, Martim de, op. cit., 1974, p. 104.

467 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 181-182.Também“A todas as Igreias por ordem humas tantas

cada dia onde avia pregaçois e nelas se não pregava outra materia mais que exortar todos fossem com animo peleijar e morer por defensão da pátria (...),Ibidem, p. 169 estando todo povo na cidade as misas e pregaçois (...)”. Outro exemplo: Nas vésperas da batalha de Alcântara, em 21 de agosto de 1580: “Ao ficaram sabendo que os castelhanos estavam próximos (...) ao povo deziam q todos por amor daquelle senhor fossem defender a cidade e a patria e moressem por isso e os que estavam pregando exortando Com todo fervor que acodissem todos E fossem o que foi causa de animar tanto os homens que a cidade em mui breve espaço se despeiou toda não ficando nella senão doentes”, (p. 177).

468 KANTOROWICZ, E. Morrer pela pátria. Trad. Lisboa: João Sá da Costa, 1999, p. 7. 469 Ibidem, p. 14-15.

198 sacrifício em que era possível obter uma honra para a linhagem que era reservada aos mártires da Igreja470. Em Portugal, esta aproximação estava perfeitamente disponível aos

antonistas nas crônicas do reino, como afirma Martim de Albuquerque:

Fernão Lopes fez chegar até aos nossos dias o dito de Pedro Rodrigues, Alcaide de Olivença, sobre os mortos em defesa do reino:

estes que morerom por deffemsom do rreino, Deos lhes avera merçee aas almas. Nestes passos a substituição da palavra terra pelo vocábulo reino acentua bem o complexo de elementos políticos e afetivos que

lhe andam já ligados. O próprio Mestre de Aviz que exprimiu teluricamente, de acordo com uma fala atribuída por Fernão Lopes, a idéia nacional, empregou vulgarmente a expressão defensão do meu

Reino.

Assim, de acordo Ernst H. Kantorowicz, a ideia de pro patria mori surgiu basicamente da caritas cristã, sendo anterior ao humanismo e a sua origem medieval. O rei deveria, assim, imitar o exemplo de Cristo em favor do reino ou da pátria:

o sacrifício do Príncipe em favor de seu corpus mysticum – o Estado

secular – comprova-se, de modo mais direto e em um nível diferente, ao sacrifício de Cristo: ambos sacrificavam suas vidas não só como membros mas também como cabeças de seus corpos místicos471.

Com o humanismo, o patriotismo foi incorporado definitivamente nas muitas virtudes de que a nobreza poderia cultivar para obter a honra. Não era uma qualidade para populares, mais restrita a pequenos grupos educados da nobreza guerreira ou chefes de algum território, sendo uma das virtudes que somente poderia ser demonstrada na guerra. Os humanistas, ao beberam nas fontes romanas a retórica de elogio a morte pela patria472, forneceram aos seus mecenas um vasto arsenal retórico, permitindo a aristocracia dispor de mais um meio de requisitar mercês e privilégios de seus monarcas. Muito da retórica antonista de sofrimento pela pátria enquadra-se nesta concepção:

Vede os que llaa estão ausentes pola liberdade dela (sedo presentes) todo o que lhes foi possível, pellejando pelo seu Rey natural contra o

470 “Dessa forma, por analogia, a morte em favor do corpo político ou da pátria era encarada em uma

perspectiva realmente religiosa e era entendida religiosamente mesmo fora da heroificação clássica e da posterior amplificação da trombeta humanista. Era um sacrifício ainda mais digno porque era feito em favor de um corpo moral e político que acalentava sues próprios valores eternos e havia sua autonomia moral e ética ao lado do corpus mysticum da Igreja”. KANTOROWICZ, Ernest H. Os dois corpos do rei. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 166.

471 Ibidem, p. 162.

199 extrangeiro e inimigo, e que perdendo suas molheres, filhos e parentes pêra os mais não ver, e não estimando a perda de suas fazendas e bens usurão de tanta grandeza de animo, e fineza de sua lealdade como quem a mamarão no leite do antiquo Portugal (a os quoais os que quaa estamos temos inveja) o seguirão o seu Rey acompanhando o, e servindo o, ate morte (cuja gloria e memória se não perdera em quanto o mundo durar) muito mais desejarão a vinde deste Rey o quoal com muy mejores mercês e honras os há de gratificar pois fizerão o que devião e comprirão como os direitos, e penssão que deviam a Deos, ao rei, e a patria473.

Em grande parte o problema pode ser considerado resolvido. Devemos agora retomar ao campo dos significados hermenêuticos ou primários, isto é, que o autor quis dizer com as palavras que acreditava expressar. É neste espaço que os usos incorretos, equivocados ou mesmo intencionalmente inovadores manifestam-se. O antonismo além de mobilizar os usos conhecidos, expressou novas formas para o emprego de palavras como pátria e nação, atribuindo-as como uma qualidade inerente do ser português. O que foi feito concomitantemente com as reflexões dos antonistas sobre a identidade portuguesa.