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7   F INANCEMENT

7.2  Cofinancement

sim diversos significados e representações ao longo dos séculos. Este amor no sentido de representar a busca da felicidade completa em um casamento nem sempre foi assim. O conceito de amor romântico que conhecemos que parte da premissa de um amor afetivo ligado à satisfação sexual foi um valor cons- truído entre os séculos XVIII e XIX.

A satisfação esperada era sexual, além de emocional. A inclusão da sexualidade na semântica do amor, a necessidade de pensar na sensualidade quando se fala de amor já estava presente no século XVIII, no entanto foi somente com o amor romântico que se tornou possível uma integração de ambos, que o componente sexual era percebido como essencial para o código amoroso (CHAVES, 2009 apud LAGO, 2009, p. 31).

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A “traição”71 numa relação conjugal monogâmica

representa a quebra da exclusividade. Este termo é remetido, sobretudo, mais ao ato sexual, sendo a infidelidade colocada no sentido afetivo. As situações “trair” e ser “traído” existem porque construímos uma ideia de que os indivíduos são natural- mente monogâmicos, posto que na prática isso não é verdade. No campo do prazer sexual, os sujeitos buscam novidades, novas experiências e sentem desejos por diversas pessoas. No entanto, estabelecer uma relação de longo prazo com uma única pessoa, exige-se uma fidelidade afetiva agregada a uma fidelidade sexual porque reproduzimos valores do período do romantismo.

No mundo pós-moderno, a ideia de amor eterno é negada, o envolvimento afetivo com uma única pessoa para a vida toda perde a força e a célebre frase: “mas que seja eterno enquanto dure” passa ser o tipo de amor ideal. Giddens (1993) relata que essa mudança modificou os relacionamentos e a concepção de sexualidade, alterando toda a estrutura da sociedade. Boa parte dessas mudanças, segundo o autor, foi iniciada pelas mulheres que aos poucos foram enxergando o casamento para além da busca do “homem perfeito”, mas a busca da liberdade sexual e autorrealização como fator primordial para ter um relacionamento feliz.

Ainda Giddens (1993), a divisão do trabalho entre os sexos, a mulher que cuida da casa enquanto o homem se responsabiliza pelo alimento, confinou a mulher no ambiente doméstico, deixando a sua sexualidade também no ambiente privado do lar, sendo ela a responsável pela manutenção do casamento e o homem aquele que vive o ambiente público.

71 O termo “traição” será colocado entre aspas para mostrar o distancia- mento da pesquisadora em relação à ideia que a palavra remete.

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A partir do momento em que as mulheres passaram a sair da casa dos pais, sem ser obrigatoriamente para casar, mas sim porque começaram a ganhar espaço no ambiente não domés- tico que antes era dominado por homens, elas passaram a alcançar uma autonomia financeira e, consequentemente, a não depender do homem apenas para garantir o sustento da casa. Isso proporcionou a mulher buscar um relacionamento que preenchesse outros espaços vazios e satisfizesse seus desejos.

O termo “relacionamento”, significando um vínculo emocional próximo e continuado com outra pessoa, só chegou ao uso geral em uma época relativamente recente. Para esclarecer o que está em jogo aqui, podemos introduzir a expressão relacionamento puro para nos referirmos a este fenômeno. Um relacionamento puro não tem nada a ver com a pureza sexual, sendo um conceito mais restritivo do que apenas descritivo. Refere-se a uma situação em que se entra em uma relação social apenas pela própria relação, pelo que pode ser derivado por cada pessoa da manutenção de uma associação que extraem dela satisfações suficientes, para cada uma individualmente, para nela permanecerem. [...] (GIDDENS, 1993, p. 68-69).

A ideia de relacionamento puro pressupõe uma relação de igualitarismo entre o homem e a mulher. Giddens (1993) chama de “amor confluente” esta relação de doação na base da igualdade dentro de um relacionamento, permitindo também a introdução do ars erotica como um fator crucial dentro da relação conjugal em que cada qual precisa cultivar, pois se torna imprescindível na manutenção ou não do relaciona- mento. Sendo que “diferentemente do amor romântico, o amor

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confluente não é necessariamente monogâmico, no sentido da exclusividade sexual”. (GIDDENS, 1993, p. 74).

Por outro lado, Bauman (2004) relata as fragilidades dessas novas relações afetivas, que por serem tão fluidas e instáveis geram também uma sensação de solidão mesmo estando com alguém. O autor defende a ideia de que como vivemos numa sociedade do consumo, a lógica do mercado também afetou as relações sociais, trocamos e descartamos não só produtos, mas também pessoas. A lógica de estar com alguém até o momento em que ela não me satisfaz mais é uma situação recíproca, do mesmo modo como posso dispensar, posso ser dispensado. Isso traz muitas incertezas e inseguranças para dentro dos rela- cionamentos, sendo o controle ou a previsão do descarte um mecanismo acionado para se defender das consequências que uma separação pode trazer e, ao mesmo tempo, a possibilidade deste indivíduo poder viver novas emoções, já que também preza pela busca do prazer.

Uma das características dos novos arranjos conjugais seria de um relacionamento baseado no igualitarismo e na simetria, como já discutido anteriormente com Giddens. De acordo com Heiborn (1992), este tipo de valor ressaltado nos relacionamentos conjugais, não afetou apenas os rela- cionamentos heterossexuais, como repercutiu também nos relacionamentos homossexuais. Segunda a pesquisadora, o casal moderno preza pela individualidade, autonomia, não depender financeiramente do outro, estabelecer práticas cotidianas que não envolva necessariamente a presença do parceiro. Em contrapartida, exige-se um maior diálogo entre ambos, buscando também uma unidade do casal.

A mesma autora também relata as diferenças entre casais homossexuais masculinos e femininos, no âmbito da construção

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da conjugalidade. O que ela aponta em comum com os casais heterossexuais e homossexuais é a recusa de um relaciona- mento pautado na diferença e baseada na igualdade, sobretudo, este discurso aparece mais nas camadas médias urbanas.

De acordo com Nicholson (2000), separar a ideia de gênero em relação ao sexo, permite uma análise na perspectiva da cons- trução social, uma vez que, historicamente, homens e mulheres foram analisados partindo da diferença biológica dos corpos, o que colocava as mulheres em relação aos homens numa relação sempre de inferioridade em alguns aspectos físicos, sendo os aspectos biológicos de cada sexo a justificativa das diferenças entre homens e mulheres. Aqueles que não tivessem um sexo com as características definidas ou comportamentos correspondentes a um ou a outro, eram denominados bissexuais ou sexo neutro. Portanto, o termo gênero foi desenvolvido para estabelecer uma oposição entre o cultural e o biológico.

Como formamos nossas convicções baseadas em duas identidades de gênero, masculino e feminino, como englobar aqueles que reinventam o seu próprio corpo ou que constroem as suas identidades fora dos padrões sociais?

Da mesma forma que não podemos falar em gênero sem pensar em “relações” que envolvam homens e mulheres, não creio ser possível pensar em homossexualidade como uma condição fixa, mas sim como uma possibilidade erótica para muitos indivíduos, experiência que não configura o núcleo de identidade dos sujeitos, apenas parte de seu reconhecimento afetivo e social. (GROSSI, 1998, p. 12).

De acordo com Grossi (1998), é característico da cultura ocidental associar sexualidade ao gênero e afirma que as

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práticas sexuais e afetivas entre pessoas do mesmo sexo sempre foram vistas como algo pervertido, anormal e até mesmo como doença. A autora também mostra que as práticas sexuais são uma criação da cultura e que a ciência contribuiu para libertar homens e mulheres do discurso de que o objetivo do ato sexual seria apenas para fins de reprodução, fato que se modifica com os avanços da medicina.

A ideia de pensar em um sujeito partindo de duas identi- dades sexuais criam segregações e também valores hierárquicos. Peter Fry (1982) coloca que, no Brasil, inicialmente o comporta- mento homossexual era representado e compreendido dentro dos parâmetros de “masculinidade” e “feminilidade” e, em um segundo momento, passou a ser compreendido entre “homos- sexualidade” e “heterossexualidade”. O primeiro seria um relacionamento baseado na hierarquia, porque representava uma relação entre dominador e o submisso [homem e “bicha”], no segundo aspecto existiria uma igualdade já que estes se relacionariam igualitariamente, mas ele ressalta que em ambas as situações demostram um pensamento dualista.

Aqueles que sentem desejo e afeto por outros do mesmo sexo, ou que não se identificam com seu próprio corpo, acabam se sentindo como os “desajustados” da sociedade, por não corresponderem às expectativas das normas sociais, sendo guiados pelos diversos discursos, principalmente do determi- nismo biológico, da medicina, que servem de justificativas em seus discursos para falarem por que são diferentes dos demais. Em relação à homossexualidade feminina, Rich (2010) faz diversas críticas às feministas sobre o apagamento das lésbicas nos estudos de gênero e também por uma série de valores que impõe às mulheres uma “heterossexualidade compulsória”. Ela apresenta que na história, na academia e nas lutas políticas

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não aparece a questão do desejo feminino por outra mulher como algo existente, uma escolha, mas como algo do erótico e do pervertido.

Outra crítica da autora diz respeito a pensar a homos- sexualidade feminina do ponto de vista da homossexualidade masculina e que não podemos tratar as questões deste campo da mesma forma, porque as mulheres estão em um contexto de violência simbólica e sexual diferente dos homens, assim como não dividem as mesmas realidades e dificuldades, por exemplo, em questões ligadas à reprodução, ao trabalho, ao tráfico de mulheres e à violência sexual. Para Rich, a existência lésbica é construída em dois principais argumentos, que a própria autora rejeita – primeiro, de que as mulheres se relacionam com outras mulheres por ódio aos homens e, segundo, como refúgio aos abusos dos homens.

NOTAS E CONCEPÇÕES SOBRE

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