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Os relatos das professoras mencionam uma “corrupção generalizada, que existe há muito tempo”. Essa crença pode ser resultante da articulação entre memória coletiva, registro histórico e discursos midiáticos, particularmente a questão do Impeachment, mobilizados nos meios de comunicação que constantemente anunciam desvios de recursos públicos e privilegiam as notícias sobre violência e corrupção em seus noticiários.

Segundo Chaui (2003; p. 293), “a expressão comunicação de massa foi criada para se referir aos objetos tecnológicos capazes de transmitir a mesma informação para um público muito amplo, isto é, para a massa”. Nas últimas décadas do século XX tem se tornado cada vez mais evidente o poder pedagógico da mídia, o qual atua não apenas na transmissão de informações mas sobretudo na produção das subjetividades das pessoas, apresentando esquemas cognitivos e afetivos de explicação e percepção da realidade social, constituindo modelos inconscientes de percepção dos fatos, instituindo condutas e comportamentos sociais, definindo valores e modos padronizados de conceber a realidade. Como tem observado Guattari (1998), no âmbito da afetividade a influência dos meios de comunicação se dá principalmente através das publicidades, dos filmes, das

canções, das novelas, dos outdoors definindo modos inconscientes de desejar e de valorar o mundo em que vivemos.

A cada dia se torna mais evidente a influência dos meios de comunicação de massa na disseminação de percepções e significados que se distribuem por todo o tecido social fornecendo elementos referenciais para a formação da opinião pública e para a construção das representações sociais dos sujeitos sobre os vários objetos que os afetam, sedimentando valores e crenças que norteiam e orientam as práticas sociais das pessoas.

Nesta seção aponto alguns fatos destacados pela imprensa alagoana e nacional nos últimos anos que, a meu ver, estão relacionados à presença observada das categorias belezas naturais, violência, corrupção e pobreza na representação social das docentes entrevistadas sobre o Estado de Alagoas.

O primeiro fato que destaco são as notícias sobre Alagoas veiculadas no início dos anos 90 da década passada por ocasião da eleição e do impeachment do presidente Collor, um político vinculado ao Estado de Alagoas. Durante o período de apuração das denúncias de corrupção do referido presidente um grande destaque foi dado pela mídia nacional (escrita e falada) aos problemas governamentais e do passado político e pessoal dele e de sua equipe de governo em uma linguagem carregada de ironia e de estereótipos sobre o Estado de Alagoas, extensiva a todos os alagoanos de um modo geral. Por exemplo, era comum o uso do verbo “alagoanar” ou “alagoar” com o sentido de corromper (cf. VEJA). Os fatos históricos, remotos e recentes enraízam-se no sistema de pensamento coletivo, evidenciado como os meios de comunicação de massa formam ideologias, valores sociais e influenciam na construção das representações sociais.

Ah, se eu fosse falar para alguém sobre Alagoas? Que só tem vez quem tem dinheiro e sobrenome. Que falta saúde pública e a educação ta capengando e que o dinheiro do povo, assim, dos impostos...ninguém sabe onde vai parar. E os jornais e a imprensa toda estão aí e não me deixam mentir, basta abrir um jornal ou assistir TV que a gente vê o que Alagoas é. (Professora Ágata).

Nesse período também voltou à tona na mídia local e nacional as notícias acerca do Acordo dos Usineiros, relativo à isenção de impostos do setor sucroalcooleiro, um acordo firmado entre o então governado Collor e os usineiros do Estado, por muitos apontados como lesivo aos cofres públicos.

Nos anos subseqüentes cria-se um movimento de recuperação da imagem do Estado apoiado na cultura popular do Estado (Coco Alagoano, Guerreiro, Filé), nas belezas naturais de Alagoas e no cultivo da memória de alagoanos “ilustres” (Graciliano Ramos, Nise da Silveira, Artur Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Djavan, Jorge de Lima, Ledo Ivo, Zumbi dos Palmares).

Em 1997 um outro fato ganha um grande destaque na imprensa local: o caos administrativo instalado no Governo Suruagy, que havia tomado posse em 1994. Eleito com cerca de 80% dos votos válidos, também em desagravo à corrente política de Collor, Divaldo Suruagy havia sido eleito como “salvador da pátria” capaz de sanar os problemas do Estado. Após um grande período de desgaste político, amplamente divulgado pela imprensa local e explorado pelos partidos de oposição, no qual o funcionalismo estadual contava nove folhas de pagamento em atraso, Suruagy renuncia ao Governo, sendo denunciado ao Ministério Público por corrupção no Escândalo das Letras. Por mais de um ano as manchetes sobre corrupção ocupam os jornais escritos e falados.

Em 1998 e 1999, dois fatos ganham destaque na imprensa local: a atuação da gangue fardada e o assassinato de Sílvio Vianna. A violência institucionalizada novamente ocupa as manchetes dos jornais. Em um estudo sobre a representação social sobre a violência em Alagoas pela imprensa jornalística estadual nos anos de 1998 e 1999, abrangendo os três jornais de circulação em todo o Estado, Vasconcelos (2005) obteve as porcentagens dos números de manchetes principais que tratam da violência em Alagoas com relação ao total de manchetes principais: (a) em 1998: Gazeta de Alagoas (47,21%); O Jornal (52,84%); Tribuna (63,25%); (b) em 1999: Gazeta de Alagoas (41,80%); O Jornal (57,46%); Tribuna (57,38%). Portanto, grosso modo, cerca da metade de todas as manchetes principais dos jornais de circulação em todo o Estado é sobre a violência em Alagoas. Vasconcelos (2005) também calcula que cerca de 90% dessas manchetes sobre a violência em Alagoas tratam da violência institucionalizada (política ou da polícia). Essa informação é bastante relevante quando se leva em consideração que muitos noticiários das rádios e das redes de televisão locais reproduzem as notícias jornalísticas da imprensa do Estado.

Os abusos do poder político também presente na cultura local, pode se constatar a seguir na fala de uma das professoras a respeito da “Operação Gabiru” levada a cabo pela Polícia Federal em 2005 visando à prisão de cerca de 31 pessoas dentre as quais prefeitos e ex-prefeitos de municípios alagoanos, empresários, funcionários públicos indiciados por desvio do dinheiro do FUNDEF destinado à merenda escolar:

A Justiça Federal manteve a prisão preventiva de até 90 dias para 19 dos 31 presos pela Operação Gabiru, entre eles prefeitos, ex-prefeitos, empresários, funcionários da Caixa Econômica Federal, de prefeituras e agiotas. Os outros 12

acusados de pertencer à quadrilha que desviava dinheiro da saúde e do Fundef (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério) em Alagoas ganharam o direito de aguardar o julgamento em liberdade. Oito deles saíram carceragem da Polícia Federal já na manhã de ontem (26/5) (Do jornal O Globo, 27/5/2005).

Se eu fosse falar de Alagoas para alguém que não conheço eu avisaria: tenha cuidado quando sair na rua, olhe para os lados e fique atento. Se não quiser ver miséria ande somente nessa faixa entre o início de Jaraguá e Ponta Verde [bairros

predominatemente de classes média e alta]. Diria que tivesse

cuidado com o que fala, porque estamos todos rodeados de gabirus, e aqueles que aparecem na TV são os mais descarados, mas aqui tem gabiru em toda parte, você nem pode se mexer (Professora Jade).

Na literatura especializada que trata de questões econômicas e políticas é comum, também, essa linha de argumento da malversação dos recursos públicos como se pode ver nesta citação de um economista alagoano:

Se não fosse o elevado índice de desvio de recursos verificados na história recente do Estado, teríamos criado um grande número de investimento na agricultura, na indústria, comércio de mercadorias e na prestação de serviços, capaz de gerar ocupações que garantissem aos chefes de família uma renda que fosse suficiente para atender suas necessidades básicas (LIRA, 2005; p. 45).

A atitude de indignação das docentes revelada em sua representação de Alagoas é uma posição de insatisfação, sem dúvida, diante da constatação empírica da realidade alagoana que aparece também em discursos acadêmicos acerca da situação social e econômica do Estado:

Alagoas está entre os Estados do Brasil que oferecem as piores condições de vida para a sua população segundo o IPEA em termos de Índice de Desenvolvimento Humano, dentre os 23 Estados pesquisados, ocupa o vigésimo quinto

lugar, ou seja, é o segundo Estado onde as condições de vida são as mais desfavoráveis para a sua população (idem; p. 46).

E mais adiante o autor acrescenta que em Alagoas “a corrupção é o principal motivo gerador de um número muito expressivo de pessoas que são pobres ou miseráveis” (idem).

Nos últimos oito anos do Governo, em meio às denúncias e notícias de violência e corrupção, a Secretaria de Comunicação do Estado de Alagoas tem investido esforços no combate à violência e à recuperação de vultos históricos (Zumbi dos Palmares e os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto). Recentemente, foram inaugurados em Maceió o Aeroporto Zumbi dos Palmares e o Memorial à República. Este último dedicado aos dois marechais alagoanos.

Portanto, a crença em que Alagoas é um Estado violento e corrupto, faz parte da representação social da mídia local sobre Alagoas (cf. Vasconcelos, 2005: Lira, 2005) e adquire condição naturalizante entre seus próprios moradores.

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