4 Développement MVC (Modèle – Vue – Contrôleur) Une application web a souvent une architecture 3tier :
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5.5 Le code des vues
Amélia disse em um de nossos diálogos com Cláudio:
– Então, não podia sentir sede no mato? – Perguntou ao vaqueiro. – Sentia sede, sim. Mas não podia levar água no campo. Não dava para beber e nem comer, porque não podia carregar nada na sela – Respondeu- lhe sem delongas.
Assim, perguntei a ele: – Mas por quê?
– Ué, porque é incômodo! – Afirmou com obviedade.
A questão da sede foi um tema central. Ela serviu para explicitar o sofrimento e, por conta dele, para elaborar uma economia do corpo. Segundo Cláudio, para campear não se pode comer qualquer coisa. Aliás, deve-se fazê-lo comedidamente, ser frugal e
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moderado. Sobretudo, nada que provocasse muita sede podia ser ingerido. Por exemplo, uma carne de bode torrada – comum entre os alimentos dos sertanejos – não seria uma boa opção. Para correr na caatinga atrás de um boi, refletia Cláudio, “comia-se algo leve”, para não sentir muita fome e, ao mesmo tempo, para que a sede não se antecipasse.
Como vimos no capítulo anterior (cf. 2.3.3), a justificativa de como lidar com o corpo recruta um “discurso do sofrimento” que, segundo Loera (2006), se relaciona à lógica da “legitimação” e do “pertencimento” (2006: 96). Agora, vemos que tal justificativa se dá também segundo uma “dietética”. Como diz Foucault (2009 [1984]), um regime que visa problematizar “a relação com o corpo” a fim de desenvolver “um modo de viver cujas formas, escolhas e variáveis são determinadas pelo cuidado” (2009 [1984]: 130)48.
“Habitualmente”, diziam os vaqueiros, “saia-se de madrugada atrás de uma rês”. Para eles, os imprevistos eram muitos, e nunca se sabia de antemão a que horas vaqueiro e cavalo, e quem sabe o boi, retornariam. “Já aconteceu de a gente sair três horas da manhã e ficar no meio do mato, no tempo quente... O campo ficava longe de casa... e só viemos a encontrar o boi três horas da tarde”. Com esta frase, Cláudio sugeriu que o serviço do
campo é uma incógnita, pois as tarefas a serem realizadas nem sempre são findadas como se espera. Mesmo depois de pego, o gado ainda pode deixar o vaqueiro à sorte do destino. O vaqueiro pode “pelejar para sair com o boi e ele não sair”. O gado pode lutar para não se submeter às ordens do homem. Ele resiste à morte, assim como o vaqueiro também se adestra contra ela. Vejamos o que isso significa.
Um dia, Cláudio e um companheiro saíram às três da manhã, encontraram o gado às três da tarde e só foram terminar de amarrá-lo às sete da noite. Depois de tanto
sofrimento, os dois chegaram em suas respectivas casas “sem comer e sem beber água
hora nenhuma da vida”. Cláudio, por exemplo, ao ingerir o líquido que necessitava, viu o seu corpo imediatamente rejeitá-lo: –“Eu estava tão arrebentado, enfadado, doído, que nem a água o corpo aceitava. Os lábio era rachado e eu não conseguia engolir nada, só café amargo”. Canalizando sua atenção ao sofrimento, meu amigo lembrava do fato com muito orgulho. Ora, afinal de contas, essa é a realidade do vaqueiro do campo, o solo onde cultiva o seu prestígio.
48 Para uma abordagem a respeito da eficácia de certas substâncias na relação com o corpo, principalmente
no contexto rural do Nordeste brasileiro, e no que concerne à relação entre sacrifício, cura, economia e religião: cf. Mayblin (2013b).
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Segundo o seu argumento, muitos vaqueiros adquirem reputação porque “passam a noite no mato, sem comida e bebida”, às vezes se alimentando de algumas ramas de plantas nativas, como a folha do imbuzeiro. Por isso, vaqueiros mais velhos, como Cláudio, articulam-se retoricamente para nos convencer de que sofreram mais do que ninguém. Para eles, os mais novos jamais se submeteriam às mesmas condições, e o motivo é simples. Embora se digam vaqueiros, os mais novos não o são de fato e de direito porque não vivem e sofrem como os de antigamente. No curso das narrativas e no tear das lembranças, prestígio, sofrimento e nostalgia estavam totalmente conjugados, e a coextensividade desses elementos era o salto para a diferenciação de si em relação ao outro. O caminho para triunfar.
Mas no que se fundamenta a atitude e a reputação de passar sede, fome e de se sacrificar? Seria supostamente em nome de uma tarefa a partir da qual se firmam compromissos com quem se deve o boi prometido, e, além do mais, do compromisso vital do vaqueiro de si para consigo mesmo? Em suma, qual o saldo de todo o sofrimento vivido? Mais do que uma simples responsabilidade moral, questão de honra ou de status, sugiro que se trata também de uma questão técnica e pragmática, de uma autopercepção do que é eficiente na corrida.
Apesar de Marques (2002) e Villela (2004) asseverarem que honra no sertão de Pernambuco, como disse o segundo, “não era – como não é atualmente – uma categoria nativa que explique comportamentos”, uma vez “não é alegadamente pela honra que os sertanejos se vingavam”, e de que, ainda na esteira do seu argumento, a “noção é muito mais importante no registro da moral estatal e, talvez, tenha invadido por aí os sistemas explicativos dos cientistas sociais que se dedicaram ao estudo do sertão” (Villela, 2004:182), cabe notar que, no caso específico desta etnografia, ao contrário do que os dois autores formularam, a honra importa e muito.Mas ela não é o único fator relevante para o estabelecimento das relações entre os vaqueiros. Pois eles não correm no campo apenas para honrar o trato com o cliente, com o fazendeiro ou consigo mesmo. Corre-se no campo também por uma questão de agilidade.
Já que não se adquire velocidade carregando utensílios como comida ou bebida, é porque, na pega de boi, dá-se prevalência a algumas ferramentas de uso, como corda (peias), serrote (para cortar as pontas dos bois quando pontiagudas), careta (máscara de botar na rês) e búzio (instrumento de sopro feito com o ponta do boi e que serve para os homens se comunicarem entre si, principalmente para chamar ou avisar os companheiros da aproximação dos animais). Avesso ao carregamento excessivo de utensílios e contra a
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ingestão de certos alimentos, o vaqueiro de verdade dá primazia ao costume de correr
limpo, mesmo que isso o faça sofrer e se sacrificar.
Cláudio afirmou que correr limpo é uma atitude sensata, pois se carrega somente o necessário para não atrapalhar a cavalgada. Se levarmos a sério a ideia de Deleuze e Guattari de que “o corpo não é questão de objetos parciais, mas de velocidades diferentes” (2012 [1980]): 42), podemos concluir, neste momento, que a leveza na montaria é fruto do sofrimento e da “dietética”, mas também das relações dos corpos entre si, mesmo que de naturezas distintas. Assim, celeridade e ritmo produzem as condições primeiras para que o homem triunfe sobre o boi. Entretanto, se o que está em questão na pega de um boi é a vitória, é porque outros quesitos são igualmente necessários. Por exemplo, o
conhecimento e a experiência do cavaleiro, bem como a sabedoria e a habilidade dos animais. Para compreendê-los, trilhemos agora rumo a uma viagem imagética.