Se o discurso do Diario evidencia um homem dilacerado, angustiado, insatisfeito com o mundo e, sobretudo, em contradição com a própria vida que lhe tocou viver é, precisamente, porque Rama não conseguia mais alcançar certa familiaridade consigo mesmo, afirmada paradoxalmente no estranhamento com uma vida cheia de respostas a dar:
El día pasa en idas y venidas, en gestiones, trámites, cartas (cuántas escribo!), conversaciones de oficina, ordenes, solución de problemas minúsculos: la vida se hace superficial, enajenada, y se actúa como una simple polea de una maquinaria que se despersonaliza. Y uno es nada, aunque siga pareciendo vivo.
El retorno es lento, despacioso y entreverado, como volviendo del sueño pesadillesco y se entra a un prado por el que uno adelanta tambaleándose, tímido para dar pasos en esta vastedad luminosa (y riesgosa).500
Com essa declaração impactante Rama atestava que se sentia preso, refém de demandas exteriores que, no fundo, eram incompatíveis com as suas. Sob essa condição, Rama procurava se agarrar ao sentimento de existência:
O sentimento de existência que surge no aqui e agora, ao final de um amadurecimento, mais do que na revelação da surpresa, da emoção
499
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 146. 500
passada, da ação difícil, ultrapassada, ou ainda, dizem, na iminência da morte. É mais freqüentemente uma pausa, num abandono das identidades reivindicadas, um olhar inteiramente voltado para o interior. Nada se mexe. É tranqüilo mais do que intenso. 501
Faz sentido pensar nesse estranhamento como uma recusa em aceitar uma identidade mecânica forjada no processo mesmo de alienação. Na verdade, Rama queria reconstituir o “sentimento da existência” a partir de sua própria moral, cujo significado seria essencialmente recusa502 e, portanto, sua elaboração deveria contar com um rigoroso processo de interdição dos ditames das ideologias que recaem sobre a identidade mecânica. Ao mesmo tempo, ele experimentava algo como um sentimento do “eu” no exato instante em que se notava diferente da imagem que os outros tinham dele. Assim, imbuído de certa indignação, concluiu que a sua personalidade era mais do que a soma dos papéis que tinha assumido de forma incessante. Na primeira entrada de 1977, datada de 08 de outubro, Rama revelou que se cansou de querer estar em todas as coisas ao mesmo tempo sem ligar-se, verdadeiramente, a nenhuma delas. Mas, o Diario parece que insistia em fugir a essa regra:
Perdida y hoy reapareció. Azar. O que estoy solo (Marta viaja por Bolívia y Colômbia) y es sábado, llueve, deambulo por la casa reuniendo papeles para un artículo sobre Aleixandre, redescubro tantas libretas inconclusas, con vago malestar, rehúso mi trabajo, la concentración, me disperso como un delta, paso de un tema a outro, “mariposeo”, y aun enciendo el televisor y visito la cocina y me ofrezco un habano prohibido y atiendo el telefono y programo una noche y quiero estar en todo y – lógico – no estoy en nada, salvo en ese centelleo del pasar de las cosas tratando de uncirlas todas, desmesuradamente, al mismo carro. 503
O efeito produzido pelo discurso apresenta um homem arrasado ou submerso sob o estigma da figura pública e, ainda, sugere que esse estigma seria o principal responsável pela aniquilação daquele mesmo homem que se sentia refém das múltiplas determinações do cotidiano. No fundo, Rama recusava a representação que tinha de si a partir de seus papéis e de suas agendas sociais e se permitia, assim, imaginar-se para além dessas (antigas) demandas. A conseqüência moral dessa recusa é a imagem de uma esfera
501
BERRY, Nicole. O sentimento de identidade. Tradução de Maria José R. Faria Coracini. São Paulo: Escuta, 1991, p. 185.
502
JANKÉLÉVITCH,Vladimir. O paradoxo da moral. Tradução de Helena Esser dos Reis. Campinas, SP: Papirus, 1991. “A moral é essencialmente recusa... ainda que toda a recusa não seja necessariamente moral! Tudo depende do que nós recusamos...”, p. 33.
503
inscrita num modelo de crítica dos costumes. Resta saber o que Rama imaginava ver com essa outra imagem. A princípio, ele antevia o que ia se configurando como utopia, designada por ele como um “sueño recurrente”:
La comisión de la Escuela de Letras aprueba mi recontratación para el año próximo y no sé si, en esse mismo momento, el alivio que genera una cierta seguridad econômica por un año más no se acompaña de una retracción, el deseo de escapar de todo, de sentarme a escribir y estudiar en esta mesa de living, oyendo música y tomando café que me quema los lábios. El sueño recurrente es el de esta felicidad de leer, aprender, escribir, libre, errátilmente, yendo de una cosa a outra, sin depender de nada ni nadie. Sabiendo al mismo tiempo que lo poco que he hecho há sido bajo una imposición circunstancial. 504
Pouco mais de quatro anos decorridos desde essa anotação e desde o planejado apartamento-refúgio de Barcelona, com as obras ainda em andamento, Rama faz importantes revelações:
Despaciosamente el apartamento va adquiriendo forma. Concluirá por ser un sitio grato aunque, visto el plan de cursos en USA, poco utilizable. Como el jardincito del paraíso perdido que uno se prepara para una vida de la que no puede nunca disfrutar.
Cansado del combate en que constante vivo, algo así dice Bécquer en un verso; pero y no sueño en una tumba sino en un apacible hogar con libros y música, sin tener que correr, crear trabajo, deslomarme en mil tareas. Esa es la imagen gratificante que busca construir Marta con su voluntario espíritu y sé que la quiere más para mi que para ella. 505
É evidente que uma urgência maior tomava a frente sobre o controle da sua vida pessoal: o Diario se apresenta preenchido por uma busca de explicações e de sentido para duas vidas compartilhadas no casamento e no exílio: Marta Traba era a única pessoa que efetivamente se preocupava com o alcance deste “sueño recurrente” de Rama. Há que se observar que ela trabalhava, a um só tempo, para viabilizá-lo e para integrar-se a ele. É ao que Rama aludia na entrada de 18 de janeiro de 1978:
Tiempo vacío de aeropuerto y yo, hamletianamente, reflexionando sobre mi destino. El apartamento avanzado, Marta queda a cargo de los últimos trabajos de acondicionamiento mientras yo regreso a atender mis obligaciones en Caracas y a remitirle fondos. La compra fue del orden de los 25 mil dólares y los gastos de habilitación y moblaje de unos 12 mil. Fondos exhaustos, a pesar de las ventas de
504
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 61. 505
cuadros y libros. Marta encara vender su biblioteca de arte, no solo por necesitar fondos, sino para decir adiós a la crítica de arte: querría dedicarse a escribir novelas em um plan de vida modesta, pero aqui, en Barcelona, en su pisito.
(...) Ser libre, la gran ambición, pero estoy demasiado acostumbrado a refrenar mis impulsos. De ahí que a veces estallen con violência en el momento que no caben ni son justificados. 506
Além de conter a verdade primeira de Rama – a ambição de ser livre –, a anotação transcrita acima tem o mérito de chegar a um termo em relação às suas explosões de violência. Três meses antes, na entrada de 11 de outubro de 1977, Rama ponderava que:
Mis explosiones de violência son el enigma de mi vida. Por qué? El rápido arrepentimiento que siegue a ellas está hecho de confusión y de malestar, acrescentados por mi dificuldad para enmendar con prontitud. Si se producen con Marta concluyo sientiéndome tan miserable que casi no puedo resistir el peso de mi conciencia. Y en la vida pública me llenan de consternación. Vivo desconfiando de mi mismo y esos incidentes acrecientan mi desamor de mí. 507
A confissão de Rama traz à tona novamente as palavras de Nietzsche:
A injustiça que fazemos é bem mais difícil de suportar do que a injustiça que alguém faz conosco (não exatamente por razões morais, note-se bem -); o autor é sempre aquele que sofre, quando é suscetível a remorsos ou tem a percepção de que, mediante seu ato, armou a sociedade contra si e se isolou. Por isso devemos, já por conta de nossa felicidade interior, ou seja, para não sermos privados de nosso bem-estar, independentemente do que pedem a religião e a moral, tratar de não cometer injustiça, mais ainda que de não sofrer injustiça: pois nesse último caso temos o consolo da boa consciência, da esperança de vingança, de compaixão e aplauso dos justos, até mesmo da sociedade inteira, que teme quem faz o mal. – Não são poucos os que entendem do feio auto-embuste que é transmutar toda injustiça que fazem numa que lhes é feita por outra pessoa, e reserva-se o direito excepcional da legítima defesa para desculpar o que eles mesmos fizeram: para assim carregar mais facilmente seu fardo. 508
Entendo que as humilhações e injustiças sofridas em território venezuelano foram decisivas para o aumento da “infelicidade interior” de Rama. Não se pode esquecer, obviamente, de todas as dificuldades, preconceitos e barreiras profissionais também impostas à Marta Traba como crítica de arte e mulher moderna. Por isso, a
506
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 107-108. 507
Id., Ibid., p. 68. 508
questão do ressentimento e do rancor mobiliza o Diario. Nos momentos mais difíceis, Rama convocava, como salientei, a figura fantasmática de Edmond Dantès - o Conde de
Monte Cristo. Dessa forma, o problema dos recalques e da vingança transparece
nitidamente como, por exemplo, num diálogo de Dantès com um grupo de jovens abastados parisienses:
Talvez lhes pareça estranho o que vou lhes dizer, aos senhores, socia- listas, progressistas, humanitários; mas nunca me preocupo com o próximo, nunca tento proteger a sociedade que não me protege, e digo mais, que geralmente só se preocupa comigo para me prejudicar; negando-lhes minha estima e mantendo-me neutro a seu respeito, são a sociedade e o meu próximo que continuam a me dever. 509
Menos que a afirmação de um individualismo exacerbado, vejo Dantès muito mais “cobrando” a falta de responsabilidade da sociedade sobre o indivíduo e um lugar verdadeiro na sociedade.510 Aí se mostra, de fato, que uma “estima” precisa ser urgentemente valorizada. Vale destacar o esforço de Rama em investigar, implacavelmente, a consciência culposa que se escondia por atrás dos seus temores e rompantes de violência. Em todo caso, aquilo que se pode considerar uma confissão de Rama é, sem dúvida, uma ferida aberta nesse esforço de questionar sem reservas a própria vida. Em boa medida, isso explica a tristeza que ecoa por essas páginas do Diario. O remorso e a vergonha de si mesmo foram tão insuportáveis ao ponto de fazê-lo entrar em conflito e se isolar da pessoa mais querida e importante em sua vida. Ora, sabemos que remorso e vergonha supõem um problema moral: a consciência dolorosa de ações passadas e presentes. Mesmo que a origem desses problemas tenham sido anteriores ao relacionamento com Traba, é importante frisar que o Diario manteve um canal exclusivo com a sua companheira. Em última instância, era ela quem lhe oferecia o alento necessário para seguir projetando algum futuro. A jornalista e crítica literária Rosário Peyrou acrescenta, ainda, que:
Los años que cubre el Diario de Ángel fueron fructíferos para la labor literária de Marta. En 1979 publicó Homérica Latina, considerada su mejor novela, y dos años después, Conversación al sur, que iniciaba
509
Apresentação a O conde de Monte Cristo. In: TELLES, André e LACERDA Rodrigo. O conde de Monte
Cristo. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 12.
510
Na apresentação de O conde de Monte Cristo Rodrigo Lacerda afirma: “A exacerbação do individualismo é evidente em O conde de Monte Cristo. De fato, à medida que Dantès marcha em direção a sua vingança, ele vai se distanciando dos homens comuns.”, p. 12. Para corroborar essa interpretação, Lacerda utiliza a mesma passagem de Dumas citada acima.
una triología inconclusa a la que pertenece la novela póstuma En cualquier lugar, publicada en 1984.511
E oferecendo um retrato dessa mulher avassaladora, Peyrou afirma:
Marta era una mujer inteligente y físicamente atractiva, con una personalidad que tanto concitaba las más fervorosas adhesiones como la convertía en blanco de críticas y rechazos de quienes se sentían afectados por su estilo directo y sus tajantes tomas de posición. Apasionada – igual que Rama – tenía como él una energia portentosa y un espíritu polémico y luchador. „Era alegre, divertida y siempre parecia una adolescente‟, escribió el poeta Juan Gustavo Cobo Borda, quien afirmo que en Colombia, „la crítica de arte comienza con ella‟.
512
A primeira aparição de Traba no texto indica a importância dela na vida de Rama. A entrada, de 10 de setembro de 1974, acusa o momento que Rama começava a dividir a sua voz com a terceira pessoa do plural, ou seja, é um momento crucial no
Diario onde aparece um “nós” na narrativa:
Va siendo um año duro para Marta y para mí y es difícil precisar las causas. Dificuldades con el medio intelectual de aquí, en muchos aspectos todavía provinciano? (...) Hemos conversado apaciblemente de todo eso y el hablarlo nos ha hecho bien. También hemos pensado que el apartamento se ha transformado en una pensión: el mismo día en que partió Carlos llegó Alberto (Hermano de Marta) y su mujer anunciando que estarían tres semanas y desde luego Marta se siente mal porque no tiene un trabajo estable, lo que la lleva a pensar que es un peso para mí. Sin ella me es difícil imaginar la vida. 513