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Desdobrando um pouco a significação dessas linhas de força da narrativa de Abel, vejamos, primeiro, de que sentidos Cecília se reveste:

Na sua carne estável e instável, real e mágica (na carne de Cecília a percepção se repete, cresce em reflexos, respostas e explosões), na sua carne, simulacro da memória, a presença dos seres que haverei de amar, amando-a. (LINS, 1995, p.169)

Cecília, sendo homem e mulher num só corpo, é para Abel a humanidade. Nela Abel encontra, ou apenas procura quase que loucamente, a unidade que buscava na cisterna ao ocultar seu pênis: sentir-se macho e fêmea, sentir-se uno. Nela revela-se algo que se nega ao fragmento, estão reunidos coesamente os opostos. Para Mircea Eliade “a androginia é um sinal distintivo de uma totalidade originária na qual todas as possibilidades se encontram reunidas, o Homem Primordial, ancestral mítico da humanidade é concebido em numerosas tradições como andrógino.” (ELIADE, 1991, p. 115).

Desse modo, o amor de Abel por ela é um amor ao não-fragmentado, a um ser mítico, primordial. Maneira de burlar o desencanto à sua volta. De retornar a um tempo também primordial e participar da criação, como nos rituais míticos. É um amor ao ser pleno, integrado ao mundo do qual o próprio Abel se vê desarraigado e que consegue apenas projetar em Cecília. Nela concentram-se a humanidade e suas vivências, suas histórias. “Dez mil homens ataviados com suas próprias fábulas. No seu corpo, há corpos. Cecília, corpo, e – ao mesmo tempo – mundo.” (LINS, 1995, p.169).

Em Cecília, além da cifra que contém a humanidade, Abel se encontra com os problemas mais urgentes do mundo à sua volta. Sem deixar o aspecto transcendente de sua narração e interpretação dos fatos, envolve-se indiretamente, por meio de Cecília, com as causas da Liga dos Camponeses em que ela milita. Fato que o leva a refletir constantemente sobre sua ação no mundo corriqueiro. Mas são reflexões de si para si, que não o levam a tomar parte concreta nas lutas dos trabalhadores da cana. Aumentando, no entanto, sua tensão interior e sua busca por um sentido para o seu estar no mundo.

Na narrativa do tema T - Cecília entre os leões é possível observar como o pensamento de Abel se submerge de modo profundo no mar de sua tensão entre o homem mítico e o homem histórico que nele habitam. Como podemos perceber nas seguintes observações acerca das causas da Liga:

Na zona canavieira há qualquer coisa de novo e que de certo modo me interessa: essas ocupações de terra e até esses incêndios. O objetivo é abalar e, quem sabe, eliminar de uma vez certos esquemas que já duraram muito. Mas será isto uma corrente ou um açude arrombado? (LINS. 1995, p. 150)

– A ausência de sentido que marca de um extremo a outro o Brasil pode ser observada nas iniciativas do governo. Quando menos se espera, o homem que por obra do acaso está na Presidência da República, tira um programa da cartola: marcha para o Oeste, acabar com as formigas, extrair petróleo, construir Brasília. Essas coisas, claro, têm a sua importância, não sou eu que vou negar. Mas não constituem – como posso dizer? – um fim significativo. Sobretudo, não se coordenam com nada. Não são conseqüência de nada e não conduzem a nada. O país, de Norte a Sul, vive à deriva. Nesse quadro, como poderiam os indivíduos ser diferentes do que são? Aqui ninguém sabe de que lado o Sol nasce. Algumas pessoas (eu não quero dizer todas as pessoas, pois a grande maioria não chega nem a isso) inventam um projeto qualquer de emergência: Vou ser Governador. Vou ser chefe de seção. Ideais desconexos e artificiais... (LINS, 1995, p.151)

[...]

– A revolta nos engenhos talvez seja hoje, no Brasil, o único movimento que não constitui diversão e improvisação. Mas, por certas razões íntimas de que, para ser franco, desconfio, nem sequer em espírito eu participo dessa luta. Além disto, não sou homem de agir, no sentido comum da palavra. (LINS, 1995, p.152)

É um pouco difícil, às vezes, citar trechos de Avalovara, devido à maneira pela qual os narradores constroem seus relatos. Principalmente no de Abel, as ideias são entrecortadas e entremeadas por outras ideias muitas vezes de contextos bem diversos, num fluxo natural e constante da consciência do narrador, mas que ao mesmo tempo fragmenta cada relato ou raciocínio em muitas partes esparsas. É deste modo que todo o enredo do livro vai sendo desenvolvido. Por isso, para completar a citação acima, precisamos suprimir o que se interpõe entre o início e a continuação de seu raciocínio sobre as ações da Liga dos Camponeses.

No trecho, podemos ver que, embora lúcido e consciente das causas sociais de seu tempo, Abel as observa de modo tão profundo e crítico que não toma parte, por não se sentir irmanado totalmente com tais causas. Vendo nelas algo de superficial e frívolo. Mesmo a causa que Cecília apoia, sendo para ele uma exceção, o observador profundo Abel tem sobre ela ressalvas que não o fazem participar diretamente delas.

Como já vimos antes, Abel não encontra uma “corrente forte” que lhe convença a se entregar por completo. Restando então para ele erigir a sondagem profunda que faz do mundo à sua maneira contemplativa de nele intervir, buscando a unidade de si mesmo através de escrever e ressignificar sua vida.

Observemos ainda que, dentre as críticas que o protagonista faz às iniciativas coletivas e individuais do país, está sua opinião de que elas são artificiais e desconexas. Dissemos há pouco justamente que a maneira como Abel tenta imprimir algo de numinoso à sua vida é artificial e artística; então Abel estaria no mesmo nível de

cegueira do povo e do governo que critica. O fato é que sim. Até ele admite isso a si mesmo.

Não sou uma exceção e tenho o meu projeto falso: vou escrevendo. Não estou e acho que nunca estarei, satisfeito com isto ou seguro da opção. Uma opção nada tranquila ou alegre, é bom lembrar. Apesar de tudo, não tenciono assinar nenhum tratado de paz com o mundo em que vivo. (LINS, 1995, p.152)

Seu mérito como personagem revelador da condição moderna está, a nosso ver, justamente na consciência aguda que possui disso, o que faz dele um homem no mínimo duas vezes mais dilacerado pelo mundo, uma por sê-lo e outra por sabê-lo. Sua lucidez acerca de sua condição o faz não participar da mesma forma que os outros, mesmo que às vezes considere algumas ações justas e bem-intencionadas, como no caso da Liga dos camponeses.

Abel observa, sonda, inquire os fatos sociais, debate-se em suas correntes e toma a atitude radical de forçar uma saída da roda da História para pensá-la com a mais absoluta profundidade. Sua ação é sua lucidez, é sua contemplação abrangente, geradora da mais lancinante tensão entre ele e o mundo.

Dentro do seu projeto conscientemente “falso” de escrever, empenha-se em desafiar a fragmentação do mundo, a inconsistência que vê em todas as relações de paz ou de luta ao seu redor. O seu gesto profundamente revolucionário é ousar a busca de uma unidade aparentemente impossível dentro dos meandros de seu tempo histórico irreversivelmente dessacralizado. Nesses termos, a sua lucidez é também a sua neurose, a sua estranheza e a sua loucura.

Essa mesma unidade Abel procurará nas cidades vistas em Ross e nas visitadas junto com ela na Europa. Ou, mais especificamente, na procura da Cidade que também lhe vaticinara a cisterna. A sua Cidade, a cidade talvez mítica, o seu lugar sagrado, onde ele encontraria o que procura pela vida, sem saber o quê exatamente. Sabe apenas que o seu mundo está incompleto, que sua vida, sua existência estão incompletas, mas não sabe o que as completaria. Para Schüler (1989, p.45-46), a personagem do romance moderno “anda em procura da coisa, símbolo do que lhe falta. Por não saber o que é, a coisa pode significar tudo (...) a coisa é símbolo de uma falta absoluta, lugar vazio que nunca será preenchido.”

Passemos a e suas cifras. Reparemos no fato de a Cidade de Abel sempre ser associada ao Avalovara, o pássaro feito de uma infinidade de minúsculos pássaros, que dá nome ao livro e que acompanha . A cidade surge no horizonte e pousa: “quanto

desejaria encontrar a cidade cuja imagem aparece-me uma tarde, miniatural, vinda de mares e estações, como um espectro de um pássaro ou de um antepassado.” (LINS, 1995, p.79).

Duplo símbolo de uma paz sonhada, de um repouso na busca incessante que empreende Abel, uma vez que, segundo Chevalier e Gheerbrant (2007, p.238), a cidade simboliza a sedentarização de povos nômades, a estabilidade e é representada justamente pela figura do quadrado, figura que Osman Lins escolheu para representar o limite espacial do voo de seu texto.

É em que as revelações de Abel se fazem com mais força. Abel encontra na mulher símbolo, a humanidade que amara em Cecília, e a cidade, buscada em vão em Ross, unidos ao Avalovara – no pássaro, os fragmentos estão unidos num todo orgânico e cada fragmento é ainda por si só um pássaro todo – e às palavras que em habitam. Ela é carne e palavra, no entanto, Abel se recusa a nomeá-la na narrativa e ela própria passa a vida a buscar uma palavra que sirva de nome verdadeiro para si. Como se sua carne houvesse sido feita do verbo indecifrável de um criador.

Esta personagem narra o tema O, intitulado História de : nascida e nascida. Nela há como que uma concentração de sentidos, ela funde-se indissoluvelmente com o próprio romance. é o centro, o ponto para onde convergem as linhas da espiral. Não é a toa que é nela e com ela que o pássaro parece estar, sua narrativa sempre chega a pontos em que a figura de um pássaro que desce em espiral parece tê-la como centro:

Uma ave no alto faz evoluções. Voa tão longe que por vezes torna-se invisível, perdida entre as nuvens e o azul fulgurante (...) A ave solitária cresce e cada vez perco-a menos de vista. Custo a perceber que suas evoluções são rigorosas. Voa com disciplina, traça uma espiral descendente, que se reduz em direção a um vértice. Esse vértice funde-se com o ponto em que estou deitada, vejo isto com clareza, como se a noção de cone me fosse familiar, funde-se comigo o vértice do cone, o fundo da espiral e pela primeira vez sinto a distância entre mim e as coisas. Ao mesmo tempo, contenho um sobressalto: aquele voo talvez seja o meu nome. (LINS, 1995, p.24).

Esta, como vemos, é a personagem que encerra certa metalinguagem em relação ao ponto para o qual se dirige o movimento da espiral que rege o romance, mais precisamente com o vértice do romance, o ponto em que a espiral e o Avalovara

chegarão em movimento para o centro. E, para Abel, ela é a confluência de tudo que fora por ele cifrado. Ela é o cerne para o qual os acontecimentos o levarão.