Resumo
Certo dia, uma mulher que não tinha marido e vivia sozinha com os seus três filhos, viu que os campos, de que já não podia cuidar, estavam a ficar sem milho. Para saber o que se passava, mandou o filho mais velho. Este, depois de muito andar, encontrou uma velha leprosa que pedia comida, mas em vez de lhe dar atenção, empurrou-a com o pé e seguiu o seu caminho. Ao chegar aos campos, viu os cavalos do céu a comerem o milho, mas não teve coragem de enfrentá-los. Fugiu para junto da mãe a quem contou o que tinha visto e recusou- se a voltar lá. A mãe ficou muito triste com a cobardia do filho e enviou aos campos o filho do meio que procedeu do mesmo modo que o mais velho. Como os campos já estavam quase devastados e já não tinha mais ninguém para enviar, mandou o filho mais novo. O rapaz encontrou no caminho a mesma velha leprosa que os irmãos tinham encontrado, todavia, quando a velha lhe pediu comida, não só lha deu como lhe tratou as feridas. Agradecida, a velha que era uma feiticeira, disse-lhe que seguisse o seu caminho e nada temesse.
Quando chegou ao campo encontrou os cavalos do céu a comerem o milho. Então, arranjou um corno curvo e soprou-o como se fosse uma trombeta, os cavalos do céu fugiram e ele pôde colher o milho que restava e levá-lo à mãe.
Os irmãos mais velhos, despeitados, decidiram sair de casa. Mas, contra a vontade deles, o irmão mais novo acompanhou-os.
Depois de muito caminharem, foram ter a uma terra sem gente, porque nela vivia um gigante de muitas cabeças que tinha devorado todas as pessoas. Durante o dia o gigante era uma pessoa normal, só com uma cabeça, mas à noite transformava-se e comia as pessoas.
Os dois irmãos mais velhos foram à casa do gigante e pediram-lhe emprego. Como havia já muito tempo que não comia ninguém, ficou muito contente e deu-lhes uma casa para dormirem, pois esperava matá-los enquanto estivessem a dormir. Porém, o mais novo dos três irmãos ficou acordado, e quando o gigante chegou e perguntou porque estava acordado, disse que não conseguia dormir porque o barulho das árvores o incomodava. No dia seguinte o gigante mandou cortar todas as árvores e à noite voltou à casa onde estavam os três irmãos e, voltou a encontrar o mais novo acordado. Quando lhe perguntou por que não estavam a dormir, o rapaz disse-lhe que não dormiam porque os mosquitos não deixavam. Vendo que não tinha como acabar com os mosquitos, o gigante resolveu ir nessa noite à cabana dos
95 rapazes e matá-los, estivessem ou não a dormir. O mais novo apercebeu-se da intenção do gigante e, antes de este chegar, levou os irmãos às costas até à casa onde os filhos do gigante dormiam e trocou-os. À noite, o gigante entrou na cabana e matou os próprios filhos em vez dos três irmãos, que entretanto tinham fugido e já se encontravam longe.
Os três rapazes, depois e terem caminhado durante muito tempo, foram dar a uma povoação onde pediram emprego e, foram aceites. Mas, como os dois irmãos mais velhos continuavam despeitados, disseram ao patrão que o mais novo era capaz de prender o gigante e de o trazer até à aldeia. O rapaz não sabia ao que fazer, então ocorreu-lhe disfarçar-se de Administrador e dizer ao gigante que o rei queria conhecê-lo. Como o gigante queria casar com a filha do rei, prontamente subiu para a carroça. O rapaz prendeu-o, tirou o disfarce e levou-o para a povoação e incendiou a carroça onde estava o gigante que morreu queimado. Os habitantes da povoação fizeram uma grande festa e proclamaram o rapaz rei de todas as povoações, e os seus irmãos servidores.
É por isso que já não há gigantes de muitas cabeças.
---&&---
Esta narrativa inscreve-se no mesmo tipo dos contos europeus em que surgem sequências de três vezes, três irmãos, etc., como é referido na obra Morfologia do Conto, de Propp, na qual, acerca dos elementos que favorecem a triplicação, refere:
[…] A triplicação foi suficientemente estudada em textos científicos; podemos abster-nos de nos deter sobre esse problema aqui. Notemos somente que alguns pormenores particulares de carácter atributivo podem ser triplicados (as três cabeças do dragão), tal como algumas funções, pares de funções (perseguição-socorro), grupos de funções, ou sequências inteiras. A repetição pode ser igual (três tarefas, três anos de serviço), ou dar lugar a um acrescentamento (a terceira tarefa é a mais difícil, o terceiro combate, o mais terrível), ou comportar duas vezes um resultado negativo e positivo à terceira vez. Por vezes, a acção pode simplesmente repetir-se de modo mecânico, mas outras vezes, para evitar que ela continue, alguns elementos devem introduzir-se para parar o desenrolar e fazer apelo à repetição.
Eis alguns exemplos:
Ivan recebe do pai uma moca, ou um pau, ou uma corrente. Lança duas vezes a moca ao ar, ou rompe a corrente duas vezes. Ao cair ao chão, a moca parte-se. Encomenda-se outra, e é só à terceira que
96
consegue o desejado. Experimentar o objecto mágico não mais que uma função independente: só serve para motivar a sua tripla recepção.83
Também, relativamente às questões da tripartição, Bruno Bettelheim na sua obra Psicanálise
dos Contos de Fadas, em que figuram, de entre outros, os contos “Os Três Porquinhos”, “As
Três Linguagens” e “As Três Penas”, diz-nos acerca da existência do número três nos contos:
Em contos de fadas, o número três parece referir-se frequentemente àquilo que em psicanálise é considerado os três aspectos do espírito: o id, o ego e o superego. Isto poderá ser corroborado por mais um dos contos dos irmãos Grimm, As Três Penas.
Neste conto não é tanto a divisão tripartida do espírito que se simboliza com a necessidade de nos familiarizarmos com o inconsciente, aprendendo a apreciar o seu poder e os seus recursos. O herói d’As Três Penas, apesar de considerado um estúpido, sai vitorioso porque faz exactamente isso, enquanto os seus concorrentes se apoiam na «esperteza» e continuam fixados à superfície das coisas e acabam por ser estúpidos. A sua troça do irmão «simples», daquele que permanece junto da sua base natural, seguida pela sua vitória sobre eles, sugere que a consciência que se separou das suas fontes inconscientes leva-nos por caminhos errados.84
Também no conto “Os Três Irmãos”, à semelhança do conto “As Três Penas”, citado por Bettelheim, é o um dos três irmãos, não o mais estúpido como naquele conto, mas sim o mais novo e, por isso, julgado pelos irmãos mais velhos como menos capaz. Porém, é justamente aquele que se sagra herói e que por este facto provoca o despeito dos dois irmãos mais velhos. Estes não foram capazes de afugentar os cavalos do céu, porque, para que tal fosse possível, teriam que ter sido compassivos para com a velha leprosa que encontraram no caminho antes de chegarem aos campos de milho. Assim, foram sempre cobardes e invejosos. Como castigo pelas atitudes que ao longo da vida foram tendo, acabaram como servos do irmão mais novo. Este, porém, que era bondoso e socorreu a velha leprosa, conseguiu pôr em fuga os cavalos e colher algum milho. A sua bondade foi premiada com a coragem que lhe permitiu enfrentar os cavalos do céu e, mais tarde, o gigante das sete cabeças. Mas, a sua recompensa por ter superado as provas a que fora submetido, não foi só a virtude de ser corajoso, foi também o ter obtido o amor da mãe, o respeito e a admiração da população que o viu matar o gigante e que, por isso, o tornou rei de todas as povoações.
83
Propp, Vladimir, Morfologia do Conto, Vega Editora, Lisboa, 2003, p.121.
84
97 As causas e a justificação dos comportamentos dos dois irmãos mais velhos, para com o mais novo e a justificação para o facto de já não existirem gigantes de várias cabeças, constituem os fulcros em torno dos quais a narrativa se desenvolve. O que nos permite dizer que se trata de uma narrativa do tipo etiológico. Mas, não só, pois também tem uma finalidade didáctica, cuja lição é que aqueles que são desumanos são também cobardes e despeitados, enquanto os que são bondosos são igualmente corajosos e, por isso, conseguem vencer.
Os cavalos do céu (praga de gafanhotos) que comem, que destroem os campos de milho, constituem a prova que o herói tem de superar para atingir o objectivo a que se propôs, afugentá-los e colher o milho dos campos. Eles são simultaneamente malefício e benefício, a prova, não superada pelos irmãos mais velhos e vencida pelo mais novo.
O facto de os dois irmãos mais velhos não terem sido compassivos para com a velha leprosa que, no conto, desempenha a função de doador, tornou-os cobardes e, por isso, incapazes de superar a prova, função simples, a de insectos destituídos de quaisquer poderes, exercida pelos cavalos do céu. Ao contrário, o irmão mais novo que foi compassivo para com o doador, foi-lhe permitido superar a prova, afugentar os cavalos do céu fazendo ressoar um corno curvo que encontrara por acaso e, assim, tornar-se símbolo da coragem e o veículo do destino que o conduziu ao Palácio, espiritual e terreno.
Se tivermos em conta as funções apontadas por Propp, O corno é o objecto mágico que
aparece espontaneamente e de repente, a cujo surgimento o doador não é estranho. É este
objecto que permite ao herói superar a prova imposta. Deste modo, relativamente à XIV função apresentada por Propp temos:
XIV. O OBJECTO MÁGICO É POSTO À DISPOSIÇÃO DO HERÓI
(definição: recepção do objecto mágico, designada por F).
Os objectos mágicos podem ser: 1.º, animais (cavalo, águia, etc.); 2.º, objectos de onde saem auxiliares mágicos (o isqueiro e o cavalo, o anel e os jovens); 3.º, objectos que têm propriedades mágicas: moca, espada violino, esfera, e muitos outros; 4.º, qualidades recebidas directamente, como por exemplo a força, a capacidade de se transformar em animal, etc. Chamamos (sob condição, por agora) objectos mágicos a tudo o que é transmitido deste modo. As formas de transmissão são as seguintes:
98
Uma escada que sobe a montanha aparece de repente (156). Encontra-se uma forma particular de aparição espontânea sempre que um objecto sai da terra (FVI); é assim que podem aparecer moitas mágicas (160, 101), varinhas mágicas, um cão e um cavalo, um anão, etc.85
Vemos, assim, que o corno curvo que o herói arranjou e o qual lhe permitiu, através do som por ele produzido, afugentar os cavalos do céu, praga de gafanhotos, se insere nesta XIV função.