O caso que se segue retrata Yoyo, um elefante africano (Loxodonta africana) fêmea, que pertencia a um circo e, aquando da sua apreensão, foi transferida para o Zoo de Barcelona, onde permanece atualmente.
Aquando do seu resgate do circo, para além do stress evidente e da presença de comportamentos estereotipados, o animal apresentava sinais sugestivos de maus tratos e marcas de acorrentamento que lhe causaram problemas circulatórios nos quatro membros.
Após a sua chegada ao Zoo de Barcelona, em junho de 2009, Yoyo foi colocada em instalações onde permaneceu isolada das outras duas fêmeas devido à sua condição física debilitada, ao seu estado de saúde deteriorado e à intensa manifestação de comportamentos estereotipados.
Uns meses mais tarde, ainda em 2009, foi transferida para junto das restantes fêmeas, mas sem contacto direto, alternando as idas ao parque exterior com as mesmas. Procedeu-se à recolha de sangue para analítica e efetuou-se a revisão dos membros, altura em que se verificou a presença de sobre crescimento da sola e das unhas e também a presença de um abcesso no cotovelo no membro anterior direito (MAD) que suspeitavam ser a causa da sua permanência constante em decúbito lateral direito. O mesmo foi drenado no local.
Uma vez nas novas instalações, o animal começou com os treinos de adaptação com os tratadores para realização de futuros tratamentos e aparos corretivos. Inicialmente, o elefante mostrou-se muito relutante a aceitar qualquer tipo de comando ou interação, todavia, ao longo dos treinos, começou a colaborar e a permitir manipulações que facilitaram em muito os tratamentos e o maneio, podendo então aplicar-se o tratamento adequado às suas doenças.
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Desde a sua chegada, foram surgindo diversos episódios de estereotipia, ingestão de corpos estranhos, diminuição da ingestão de alimentos e problemas articulares associados a claudicação, que provocavam um agravamento, não só do estado geral e bem-estar do animal, como também da colaboração deste para a manipulação e para o tratamento, o que constituía um verdadeiro problema.
A 25 de outubro de 2010, começou a apresentar claudicação e a manifestar dor no cotovelo do membro anterior esquerdo (MAE) tendo-se suspeitado de inflamação periarticular que foi posteriormente diagnosticada como artrite crónica.
Receitaram um anti-inflamatório não esteroide (AINE), cuja quantidade administrada variava conforme o estado do animal:
Tabela 6 - Terapêutica do elefante africano Yoyo para a claudicação e dor articular, no ano de 2010.
Fármaco Dose utilizada Via Forma do
fármaco
Duração e frequência do Tx Fenilbutazona
(EQZONA®) 1 mg/kg PO Pó 3 dias, SID
Figura 26 - Contenção e recolha de sangue em elefante africano (fotografia gentilmente cedida pelo Zoo de Barcelona).
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Manteve-se estável por algum tempo, mas, entretanto, começaram a surgir episódios de feridas, de fissuras e de abcessos nos membros, sendo mais comum nos anteriores. O tratamento foi sendo modificado segundo o nível de infeção, os agentes envolvidos, a evolução das lesões e a opinião do especialista em conservação de elefantes, como é possível verificar na tabela 7.
Tabela 7 - Evolução dos tratamentos tópicos de lesões nas extremidades podais no elefante africano.
Evolução dos tratamentos tópicos de fissuras, feridas e abcessos (2-3 vezes/semana)
1. Aplicação de povidona iodada (Betadine®) não diluída, seguido de limpeza, aplicação de furacina e desbridamento do tecido necrótico.
2. Aplicação de um aerossol de alumínio (Alluspray®) e de açúcar seguido de desbridamento do tecido necrótico.
3. Lavagem com água morna, seguida de aplicação de povidona iodada diluída (80ml em 80l) durante 10 min. Depois desse período de tempo secar bem a região e, posteriormente, aplicar 40g de pó de sulfanilamida (Neocur®), terminando com o desbridamento do tecido necrótico e de granulação para impedir que a lesão se encerre. 4. Aplicação de clorhexidina diluída (10 ml para 10l) através de pedilúvios, seguido de secagem e aplicação de 40g de pó de sulfanilamida, terminando com o desbridamento do tecido necrótico e de granulação.
5. Limpeza com clorhexidina ou povidona iodada diluídas através de pedilúvio, seguida de secagem e aplicação de pomada de condroitina a 2%, diclofenaco a 2% e de dimetilsulfóxido (DMSO) a 40%, terminando com desbridamento do tecido necrótico e de granulação (método atual até ao momento).
O abcesso do cotovelo do MAD voltou a surgir apresentando uma secreção purulenta e inflamatória, o qual suspeitaram dever-se ao facto de terem negligenciado dois dias de tratamento e de desinfeção. Recolheram e enviaram amostras para citologia e ambas as amostras, de tecido são e de tecido afetado, apresentavam um padrão histológico similar com demarcada hiperplasia epidérmica e observaram-se colónias bacterianas sem infiltrado inflamatório. A biópsia cutânea da pele afetada sugeria congestão dos vasos sanguíneos
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superficiais. Nos meses seguintes, mantiveram-se episódios de recidivas de abcessos e claudicação.
Associado a estes problemas, começaram obras de ampliação de espaço junto à instalação dos elefantes e Yoyo teve de ser mantida fechada sem acesso ao exterior, situação que a fez diminuir a ingestão de alimentos e apresentar comportamentos estereotipados, o que levou à necessidade de prescrever um neuroléptico injetável, cujas doses iam sendo adaptadas durante os dias de tratamento conforme a demonstração de sinais.
Tabela 8 - Terapêutica do elefante africano Yoyo para os episódios de stress e comportamentos estereotipados, no ano de 2010.
Fármaco Dose utilizada Quantidade
administrada Via Forma fármaco Duração e frequência do Tx Enantato de perfenazina 100-300 mg dose total*1 100-200mg *2 IM Líquido
injetável 20 dias, SID
*1 - A dose utilizada varia entre 100 a 300 mg dose total. *2 - A quantidade total administrada variou entre 100 a 200 mg.
Nos inícios de 2011, estava muito nervosa, não se deixava manipular e estava a destruir mobiliário das instalações e então foi-lhe administrado novamente um neuroléptico, mas desta vez por via oral, via utilizada desde então.
Tabela 9 - Terapêutica do elefante africano Yoyo para episódios de stress e comportamentos estereotipados, no ano de 2011.
Fármaco Dose utilizada Via Forma
fármaco
Frequência e Duração do Tx
Perfenazina 0.01mg/kg PO Comprimidos Até melhoria dos
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Quando os elefantes ingeriam corpos estranhos, problema que prevalece até ao momento atual, é-lhes administrado:
Tabela 10 - Terapêutica dos elefantes africanos em caso de ingestão de corpos estranhos.
Fármaco Quantidade
administrada Via Forma fármaco
Duração e frequência do Tx
Parafina 2L *1 PO Líquida (óleo
mineral) 1-3 dias, BID
*1 - Misturado com 2L de sumo de fruta, na proporção de 1:1, perfazendo um total de 4L.
Por profilaxia todos os animais tomam parafina, pois não se sabe estimar a quantidade ingerida nem qual dos animais ingeriu os corpos estranhos. Uma das situações envolveu um motor de uma porta elétrica, um tubo de obras com cerca de 5cm de diâmetro e um fio de plástico.
Quando apresentava claudicação, caminhar rígido, inflamação das articulações ou sinais de dores articulares com diminuição da ingestão de alimentos, era realizado um tratamento contínuo de perfenazina e fenilbutazona associado ao condroprotetor Joint Combo® (composto por glucosamina, sulfato de condroitina, biotina e zinco), mais tarde, substituído por MaxFlex® [composto por sulfato de glucosamina, sulfato de condroitina, cartilagem de tubarão, metilsulfonilmetano (MSM) e L-histidina].
A estereotipia foi variando ao longo dos meses e anos e o neuroléptico de eleição era administrado conforme a necessidade e o possível nível de stress.
O objetivo de toda a terapêutica era controlar a artrite, tratar de abcessos e feridas e prevenir e atenuar a estereotipia, que não sabiam se estaria associada a algo fisiológico, como dor, ou se se trataria de algo comportamental. Entretanto, começaram a depreender que as estereotipias de
Yoyo se intensificavam durante situações que envolviam ruídos e vibrações intensas como as
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Duas semanas antes de me ser possível acompanhar o caso, Yoyo voltou a caminhar com rigidez, sugestivo de dor no MAE e prescreveram fenilbutazona. Uns dias após o início do tratamento, revelou uma melhor atitude, contudo continuava a movimentar-se com relutância e apresentava aumento da temperatura local na porção caudal da extremidade distal do MAE, na região dos tendões flexores, e desconforto no apoio desse membro devido a fissuras verticais caudalmente à sola. Foi mantido o tratamento referido e é adicionado MaxFlex® e tratamento tópico com pomada de condroitina a 2%, diclofenaco a 2% e DMSO a 40%, SID.