Quando a socióloga Silvia Regina Alves Fernandes identifica um comprometimento de suas informantes freiras com a instituição a que pertencem, detectado através do que ela chama de um “discurso arrumado” por parte das religiosas que responderam, na época, ao seu questionário e suas entrevistas, esse comprometimento fica muito evidenciado também na
114 SERA inaugurado amanhã o convento das Irmãs Clarissas Coletoras. Correio do Povo. Porto Alegre,
29.09.1953, p. 8.
nossa pesquisa e, principalmente ao tomarmos conhecimento do teor das constituições que regem a clausura atualmente. Frases e expressões que se encontram no texto dessas constituições, principalmente a mais recente delas, a Vultum dei Quaerere (que se traduz por “buscar a face de Deus”) são literalmente repetidas por muitas das irmãs nas respostas por escrito que deram ao nosso questionário.
Assim, portanto, as três documentações fundamentais que regem a vida em clausura, atualmente, segundo informações das irmãs, são as instruções Venite Seorsum de 1969, a Verbi Sponsa de 1999 e a Constituição Apostólica Vultum dei Quaerere de 2016, esta mais atual e assinada pelo papa Francisco, sendo que todas elas são pós-Concílio Vaticano II. A Venite Seorsum logo no seu início lembra do que disse Jesus “vinde a um lugar deserto e descansai” (Mc 6,31), sendo este convite o fundamento que sustenta a clausura, um chamamento para junto dele, para “descansar nele”, explica a ex-madre Maria Francisca (das Clarissas), salientando que assim também hoje são chamadas para viver no mosteiro. Alerta, no entanto, que é preciso entender bem o sentido desta palavra, caso contrário pode-se pensar que é um descanso no sentido mais comum. Esse convite se refere a um descanso espiritual e “ao mesmo tempo, um trabalho árduo que é a vida de oração, porque ela é regrada”, comenta a irmã. E são muitos e muitos anos de oração, as vezes por 60, 70 anos de profissão quando uma religiosa professa bem jovem, complementa.
Das três instruções regulamentadoras citadas, a mais antiga, a Venite Seorsum,117 cita vários aspectos que envolvem e justificam a clausura, desde Abraão que foi convidado a sair da terra e deixar seus parentes (Gen.12,1) assim como no Novo Testamento, o Verbo de Deus que saindo do Pai veio a este mundo (Jo, 16,28), a morte de Jesus que importa uma verdadeira solidão, ou a retirada de Jesus para o deserto, que teria a ver com a fundação dos mosteiros. Ressalta a instrução que mesmo na solidão, entregando-se as orações, os retirados não devem esquecer os irmãos, procurar um descanso por comodidade própria, mas sim para participar “de um modo mais universal em seus trabalhos, dores e esperanças”, o que é dito de maneira semelhante por irmã Maria Francisca, quando explica que “nós não viemos aqui para rezar para nós nem para ficar numa vida sossegada que ninguém incomode...jamais”, diz que “é uma vida que realmente tem muita implicação, tem muita solicitação de orações e nós ficamos sabendo das misérias humanas de todo mundo”. A instrução salienta que “é próprio da mulher acolher a palavra, ao invés de levá-la aos mais remotos confins da terra”. Reconhecendo como
legítimos os elementos que diferenciam os diversos institutos entre si, estabelece normas para a clausura papal das monjas, entre elas, sobre portas fechadas com chave nas entradas e saídas, sendo algumas definições estabelecidas nas constituições e códigos adicionais, além de estabelecer os casos em que a saída da casa seja realmente necessária ou que o rádio e a televisão sejam permitidos apenas em eventos de caráter religioso.
A Verbi Sponsa 118 também destaca que as monjas se reconhecem em Maria, virgem, esposa e mãe, onde perpetuam o seu “sim”, estendendo a ideia de pobreza radical que inclui a renuncia não apenas às coisas, mas aos espaços e contatos. Para viver, então exclusivamente do Senhor, diz a constituição, é necessário que a pessoa se encontre livre de qualquer afeição, agitação ou distração, limitando ao essencial as ocasiões de contato com o mundo externo, impedindo que “este irrompa de qualquer modo no mosteiro”. A Verbi declara sobre a formação das monjas, cuja regra geral diz que deve ser realizada dentro do próprio mosteiro. Se for o caso, ainda, a superiora pode permitir cursos por correspondência.
A Vultum dei Quaerere, 119 a mais nova instrução a deliberar sobre a vida contemplativa feminina, diz reconhecer com “muito apreço a doação da vida das irmãs”, que constitui um desafio para as mentalidades atuais. O papa Francisco propõe uma reflexão, em vez de normas, que inclui o tema da clausura que não deve ser vivida “como uma espécie de retirada, fechando-vos em vós mesmas, mas devem dilatar o coração para abraçar a humanidade inteira” (esta é uma das declarações que será bastante usada nas respostas dadas pelas irmãs). Chama a atenção para uma sociedade marcada por divisões e desigualdades, afirma que a autonomia dos mosteiros não deve significar independência ou isolamento, pede cuidado com a autorreferencialidade e salienta que esta escolha por uma vida recolhida “torna- se o sinal eloquente de fidelidade para o nosso mundo globalizado e habituado a deslocamentos sempre mais rápidos e fáceis, com o risco de nunca criar raízes”. Por fim, o papa Francisco determina que as irmãs chamadas a desempenhar o serviço de formação possam frequentar cursos específicos mesmo fora do seu mosteiro (nas duas anteriores ficava determinado que a formação deveria ser realizada apenas no próprio local de clausura ou por correspondência).
117 Venite Seorsum. Sobre a vida contemplativa e a clausura das monjas. Roma: 1969. Disponível em
< http://es.catholic.net/op/articulos/7876 > Acesso em 21.09.2017.
118
VERBI SPONSA, instrução sobre a vida contemplativa e a clausura das monjas. Congregação para os institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica: Vaticano, 13 de maio de 1999. Disponível em:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccscrlife/documents/rc Acesso em 20.08.2017.
119
VULTUM DEI QUAERERE sobre a vida contemplativa feminina, Constituição apostólica. São Paulo: Paulinas, 2016.
4 CLAUSURA FEMININA NOS DIAS DE HOJE
O trabalho, segundo as palavras de Max Weber, converteu-se no fator principal de um regime de “ceticismo intramundano”, em uma resposta ao sentimento de solidão e isolamento do homem.
Erich Fromm, Psicanálise da Sociedade contemporânea. O silêncio não impede a liberdade e não estamos isoladas. O silêncio permite uma vida de maior aprofundamento de vida interior, intelectual e espiritual, e nos faz entrar em comunhão mais verdadeira e profunda com os outros e conosco mesmas.
Irmã R., 53 anos.
Modos de vida regidos por leis civis e ainda por leis da Igreja e por regras adotadas pelos próprios mosteiros que desafiam alguns princípios básicos da modernidade e nos instigam a tentar compreender como vivem e o que pensam essas mulheres ao dedicarem suas vidas inteiras ao que dizem ser “um chamado de Deus”. E, a partir disso, desse recolhimento em clausura, se considerarem as pessoas “mais livres e felizes do mundo” e vivendo uma vida plena de significado e sentido para elas. Para aqueles que estão fora dos muros da clausura, outros são os chamados e as sensibilidades, as lentes e as categorias de análise. Mesmo assim, talvez, não se possa considerar como esferas totalmente separadas, o mundo de fora e o mundo de dentro dos mosteiros, uma vez que existem pontos similares entre o desejo e as intenções das duas esferas, podendo até ser questionado o fato de existirem tão separadamente assim. De qualquer maneira, por vezes, nesse frágil trânsito entre uma e outra esfera seja possível pensar com Peter Berger que cada mundo só “é mantido como realidade subjetiva pela mesma espécie de conversação”, sendo que apenas no caso desta conversação e consequente reafirmação da realidade ser quebrada é que “o mundo começa a vacilar”. 120 Essa forma de vida adotada nos mosteiros de clausura, que pretende um afastamento do mundo para poder se dedicar ao silêncio e a oração, para uma maior estabilidade dessa realidade (e dessa conversação), já a partir da composição dos seus edifícios religiosos, tanto interna, quanto externamente, comunicam níveis de afastamento, mas também de receptividade e intersecções, o que torna um pouco mais complexa toda e qualquer afirmativa de totalmente “fora do mundo” ou “dentro do mundo”, sem considerar as próprias diferenças que existem entre as maneiras de viver as referidas clausuras.
120
BERGER, Peter Ludwig. O dossel sagrado: elementos para uma sociologia da religião. São Paulo: Paulus, 1985, p. 29-30.