2. PARTICLE INDUCED ACTIVATION SOURCE TERM
2.6. Code input
Esse último padrão foi encontrado no momento da vídeo conferência 9 em que demos continuidade à atividade de composição. Se anteriormente tivemos como objetivo preparar a turma para compreender, passo a passo, como fazer o exercício de composição, agora a dinâmica da interação girou em torno da composição propriamente dita. Cumpre salientar que trabalhamos composição no sentido tradicional, aquele que geralmente atribuímos ao termo no contexto da música erudita européia. Ou seja, construímos uma melodia registrando-a em partitura, até porque os elementos de notação vinham sendo estudados ao longo do curso e essa era uma ótima oportunidade de compreendê-los melhor, através de uma tarefa prática. A observação 5, registrada na vídeo conferência da lição 9, tinha o seguinte teor:
Facilidade de expressão. A capacidade do professor imitar, repetir idéias musicais dos alunos ajuda na tarefa de composição em grupo.
Inclusão. Todos foram estimulados a criar e escrever frases musicais (Emanuel, Erico e Tayrone fizeram) e também a experimentar um acompanhamento diferente (Erico, Tayrone e Teófilo, enquanto Emanuel tocava a melodia). Essa tarefa de compor em grupo realmente promoveu a inclusão efetiva de todos.
Senso de solidariedade. Tocar partes diferentes requer cooperação efetiva. A execução em conjunto só funciona bem, a música só acontece na íntegra, se cada um fizer sua parte bem e estiver atento à parte dos outros. Às vezes, é preciso que alguém se disponha a ser “escada” (Emanuel precisou tocar a melodia para os colegas experimentarem diferentes harmonias).
Síntese de vários pontos de vista. Ao mesmo tempo em que tivemos inclusão e senso de solidariedade, ao tocarmos o que o grupo havia criado, estávamos realizando uma síntese de vários pontos de vista, ou costura musical, pois ocorreu uma performance em que idéias “novas”, que os alunos produziram, foram aproveitadas e inseridas naquela composição.
formulada quando tivemos a vídeo conferência 9, nós realmente estávamos conscientes de que era preciso tomar cuidado ao fazer reprimendas, especialmente se fossem direcionadas a um aluno em particular.
É extremamente difícil separar, no trecho observado, inclusão e senso de solidariedade, pois mesmo quando cada aluno criou a “sua” frase, os outros colegas o ajudavam. Desse modo, ao mesmo tempo em que cada um foi desafiado a produzir um trecho da composição, houve um envolvimento direto de outros colegas na construção da parte de cada um. Em outras palavras, a frase musical que cada um criou não foi de autoria totalmente individual.
No momento final, quando a composição foi tocada na íntegra, identificamos um exemplo extremamente significativo de costura musical: Todos tocaram aquilo que havia sido resultado da capacidade criativa deles próprios, o que gerou uma satisfação evidente. Mais ainda, considerando o pouco tempo em que se desenrolou essa atividade, os estudantes conseguiram executar aquela pequena melodia, composta colaborativamente por eles, com muito mais propriedade e consciência musical13 do que quando o faziam com composições de outrem. Como Swanwick sumariza, a respeito de pesquisas em que se comparou o desempenho de crianças em atividades de execução, composição e apreciação: “Parece que as mesmas crianças revelam menos „musicalidade‟ ou qualidade musical quando tocam música de outras pessoas do que quando tocam suas próprias peças ou discutem sobre música gravada” (2003, p. 97).
O clima lúdico, de desafio e jogo foi constante, o que nos levou a constatar que esse foi de fato o momento da aula no qual ocorreu o maior nível de interação entre professor e alunos e dos alunos entre si. Isso foi analisado pelos professores no diálogo de avaliação da vídeo conferência 9:
Paulo: Mas o que achaste da interação no momento da composição?
13 É verdade que nem todos conseguiram tocar a parte melódica, até porque era algo que estava sendo criado
naquele momento, mas pelo menos criaram acompanhamentos para a melodia, como explicamos mais adiante. Em todo caso, a performance como um todo soou muito bem para algo que havia sido criado (e aprendido) em tão pouco tempo.
Giann: Rapaz, apesar deles não terem estudado, achei o ponto culminante da aula. Muito envolvimento.
Paulo: É verdade.
Giann: E atenção, atenção por parte deles.
Paulo: Acho que essa atividade pode ser considerada de interação de alto nível.
Giann: Pode ser que seja pela curiosidade e o fato de querer improvisar (...) acho que a interação nesses momentos de criação ajudou bastante.
Paulo: Isso, o fato de criar gera muita motivação e interesse. Giann: Mas foi muito legal essa parte da aula, muito dinâmica.
Paulo: E eles compartilharam os resultados ao construírem a melodia juntos e testarem diferentes harmonias sobre a melodia que haviam criado.
Giann: Parabéns, “teacher”. Paulo: Obrigado!
Giann: Como se diz em Mossoró: “Mamou leite de pedra” (risos).
Essa experiência foi uma mostra de que realmente atividades de composição são extremamente eficazes no sentido de fomentarem o trabalho colaborativo com alto nível de interação entre professor e alunos e dos alunos entre si.
Outro aspecto relevante é que, no momento final dessa tarefa, quando todos tocaram juntos, é difícil de distinguir onde começam e terminam inclusão, senso de solidariedade e síntese de vários pontos de vista. Depois de a pequena melodia ter sido composta colaborativamente por três dos estudantes – Emanuel, Erico e Tayrone – também houve oportunidade para que Erico, Tayrone e Teófilo criassem diferentes harmonizações para a melodia. Essa tarefa de acompanhamento foi importante principalmente para Teófilo, que não havia se sentido capaz de contribuir criando uma frase musical, mas pôde ser incluído no trabalho ao criar uma possível harmonia, o que também era parte da composição. Percebemos que nesse momento de execução da melodia, criada colaborativamente pelo grupo, juntamente com os acompanhamentos, criados por diferentes alunos, também houve a síntese de vários pontos de vista, na medida em que a
própria melodia trazia as idéias musicais da turma e os acompanhamentos foram integrados à composição para completá-la. Desse modo, várias idéias e pontos de vista estavam efetivamente sendo aproveitados naquela performance.
Finalmente, salientamos que, para que essa dinâmica funcionasse bem, foi muito importante a postura de Emanuel, que se dispôs a executar a melodia enquanto os colegas experimentavam diferentes harmonias. Isso foi o que denominamos de servir como “escada”, conforme foi registrado na observação 5 dessa última vídeo conferência do segundo módulo: “Às vezes, é preciso que alguém se disponha a ser „escada‟ (Emanuel precisou tocar a melodia para os colegas experimentarem diferentes harmonias)”. Por ser aquele que tinha mais experiência e habilidades técnico-musicais mais desenvolvidas, Emanuel realmente assumiu a função de monitor, e mostrou-se muito consciente da importância de sua função, de servir aos colegas. Como os outros três ainda não estavam tão seguros na melodia, a tarefa não fluiria tão bem se eles tivessem que fazer a parte melódica da composição. Essa participação de Emanuel é bastante emblemática de como o senso de solidariedade pode ocorrer na aula coletiva de instrumento.
Como resultado de nossa considerações sobre esse padrão, chegamos a mais uma lição:
Lição de Interação 15: Uma atividade de composição musical em grupo é propícia a que se combine inclusão, senso de solidariedade e síntese de vários pontos de vista, o que gera atenção, motivação e interesse significativos na turma e, conseqüentemente, proporciona um nível de interação muito alto.