B. Consolidation
2. Code de l’environnement
Entre o homem e a natureza, interpunha-se o véu da cultura, e ele nada poderia enxergar senão através desse véu. 291
Quando nos deparamos com um estudo no qual a palavra “cultura” aparece como palavra-chave, o primeiro problema que encontramos é em que sentido utilizaremos essa palavra. A complexidade do termo exige uma discussão aprofundada muito aquém daquela que tratamos no texto. Por outro lado, dentro dos objetivos da pesquisa, conseguimos na narrativa expressar nossa idéia do conceito da palavra “cultura” e direcioná-lo na relação que estabelecemos como objetivo do trabalho: cultura/natureza e história, tendo como sujeitos históricos os Xokleng e cenário as Matas de Araucárias.
Analisando essa relação no caso dos Xokleng, vemos que, assim como em todo o país, com o passar dos anos, se intensificaram os contatos entre essas populações e os não indígenas. No território que hoje compreende o Estado de Santa Catarina, os Xokleng foram a última etnia a ter contato intermitente com os não indígenas. Esse fato pode ser explicado pela própria natureza nômade dos Xokleng que explica também o fato dos contatos se darem em diversas partes do território e em diferentes meios.
Os contatos, amplamente documentados, obedeciam duas regiões distintas, que com nossa pesquisa identificamos como o planalto, coberto pela Mata de Araucárias e o litoral, com uma complexa biodiversidade. Nas duas regiões os Xokleng desenvolviam sua cultura. Com o desenrolar e a intensificação dos contatos entre eles e a população nacional, verificou-se a gradual diminuição desses povos. Um dos fatores para que isso tenha ocorrido consiste no fato de que pelo conceito da época, e na visão do colonizador, os indígenas em geral não eram portadores de “cultura”. Portanto, sofreram com o processo “civilizador” do ocidente. Nesse sentido, o fato de serem uma sociedade tribal, tendo sua tecnologia atendendo a orientação da natureza, e esta não necessitando de uma tecnologia mais elaborada, tornou-os mais vulneráveis à dominação cultural não indígena. Segundo a concepção de Marshal Sahlins, “a dominação cultural deriva da predominância
291 SAHLINS, Marshal. D. Cultura e razão prática. Capítulos 2 e 5 conclusão. Tradução de Sérgio Tadeu de Niemayer Lamarão. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1976, p. 121.
técnica: o tipo cultural que desenvolve maior poder e recursos num determinado meio ambiente se desenvolverá ai em detrimento das culturas indígenas” 292. Assim, com os resultados da pesquisa, podemos
concordar com Lèvi-Strauss, quando este coloca que
A civilização ocidental estabeleceu seus soldados, as suas feitorias, as suas plantações e os seus missionários em todo o mundo; interveio direta ou indiretamente, na vida das populações de cor, revolucionou de alto a baixo o modo tradicional de existência destas, quer impondo o seu, quer instaurando condições que engendrariam o desmoronar dos quadros existentes sem o substituir por outra coisa. 293
No que se refere a relação Xokleng com o meio natural, percebemos que a cultura nômade era permitida pela biodiversidade que a natureza de seu território histórico apresentava. No planalto o pinhão desempenhou um papel determinante no desenvolvimento cultural dessa etnia e mesmo tendo um mesmo meio natural comum, foi permitido o desenvolvimento de culturas distintas, como a Kaingáng e a não indígena. Assim, consideramos que a relação natureza/cultura não é apenas baseada em orienta/desenvolve. Existem os simbolismos e as lógicas culturais que fazem com que essa relação seja ímpar em cada povo.
Quanto à relação cultura/história, os Xokleng, assim como tantos outros povos pelo mundo, foram considerados inferiores, e por isso foram dominados. Se essa dominação tem a ver somente pelo fator tecnológico como Sahlins apontou, não temos certeza. Mas é muito provável que não. Há entre essas relações o fator simbólico. Mesmo porque, com a sedentarização a cultura não foi totalmente dominada, ela sofreu transformações, é verdade, mas se mantém em alguns aspectos, como a língua, por exemplo e pela luta, na afirmação da identidade indígena Xokleng. Portanto, a premissa de Sahlins não pode ser tomada como Lei. Se assim o for, teremos que acreditar que a relação natureza/cultura é que vai determinar o processo histórico de cada povo. Apesar de ser um fator considerável, não nos parece determinante. Mesmo modificada, a cultura Xokleng persiste, lado a lado com outras
292 SAHLINS, Marshal. Sociedades Tribais. Capítulos 1 e 2. Tradução de Yvonne Maggie Alves Velho. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1968, p. 10.
293 LÈVI-STRAUSS, Claude. Raça e História. In: Os pensadores n. L. São Paulo: Abril Cultural, 1976, p. 78.
culturas. A natureza proporcionou orientações para que através de seus olhos eles pudessem criar uma unidade diferenciadora que chamamos de identidade cultural. A tecnologia, o simbolismo e a língua fazem parte dessa unidade diferenciadora.
No Estado de Santa Catarina, observamos que independente do meio, o contato entre as culturas indígenas e não indígenas se deu de maneiras padronizadas. A amplitude do território onde ocorreram essas relações foi consequência da cultura nômade Xokleng. Apesar do nomadismo pendular, e da importância do pinhão na sua dieta alimentar, outros motivos também faziam os Xokleng subir a serra mesmo em épocas em que não havia o precioso pinhão. Esse deslocamento, mesmo em épocas onde a fartura de alimentos se encontrava principalmente na Floresta Ombrófila Densa pode ser decorrente dos contatos estabelecidos no litoral. A hipótese é que nos contatos entre indígenas e não indígenas na região da FOD no verão, que eram seguidos de enfrentamentos e depois de afugentamento por batedores de mato, os Xokleng se viam obrigados a adentrar mais nas matas se afastando de regiões de colonização recente (Vale do Itajaí). Desse modo se intensificaram seu aparecimento nas estradas (vias de comunicação) e em regiões serranas mesmo durante o verão. Assim, não só a natureza ditava as regras, mas sim as relações humanas estabelecidas. A história começa a ser dependente do fator cultural e em menor intensidade do fator natural. Outra mudança foi o aumento da população não indígena, observada tanto no litoral e Vale, como no planalto do Estado. Esta impulsionada pelo melhoramento das vias de comunicação entre serra/litoral. Por conta disso o pinhão, que era o alimento mais importante dos indígenas e que logo foi adotado pelos colonos na sua alimentação e na alimentação de animais, foi ficando aos poucos mais difícil de obtê-lo sem que houvesse uma perigosa disputa. Disputa que se acirrava por diversos interesses, dentre os quais os domínios da Mata de Araucárias, o alimento e também posteriormente a madeira.
Séculos se passaram e muito da cultura Xokleng foi perdida ou modificada “graças” à “cultura” européia. Por outro lado, isso não quer dizer que se perderam no tempo as manifestações culturais num todo e que os Xokleng hoje estão integrados totalmente dentro de uma sociedade culturalmente “mais forte”. Se assim fosse não haveria mais o porquê da definição Xokleng, Kaingáng, ou Guarani, só para exemplificar os indígenas de Santa Catarina. Existe o fator “identidade” que é requisitado por essas populações e que está ligado ao fator cultural. Além disso, a língua é mantida como fator de identidade étnica. Eram nômades, começaram a plantar. Tinham suas vestimentas, hoje se
vestem nos nossos padrões. Viviam da caça, agora criam animais. Mas ainda assim são Xokleng. A natureza é e pode ser facilmente transformada, mas a cultura como um todo não. Como Terry Eagleton coloca, “transformar toda a cultura seria muito mais trabalhoso do que represar um rio ou arrasar uma montanha. Nesse sentido, pelo menos, a natureza é uma matéria bem mais tratável do que a cultura” 294.
Na luta por sua identidade étnica, os Xokleng e outros povos indígenas estão se afirmando como povos diferentes, com um modo de ver o mundo e de se relacionar com ele diferentes. Dentro das possibilidades lutando para manterem sua identidade diferenciadora e buscando espaço e respeito na sociedade nacional. Por fim, num mundo onde a ocidentalização é frequentemente colocada como irreversível, concordamos com Lévi-Strauss quando propõe que “a diversidade das culturas é de fato no presente, e também no passado, muito maior e mais rica que tudo o que estamos destinados a dela conhecer” 295.
294 EAGLETON, Terry. A idéia de cultura. Tradução de Sandra Castello Branco. São Paulo: UNESP, p. 136.
295 LÈVI-STRAUSS, Claude. Raça e História. In: Os pensadores n. L. São Paulo: Abril Cultural, 1976, p. 55.
FONTES E BIBLIOGRAFIA