A situação atual obriga a repensar o contexto social das necessidades humanas de uma maneira diferente daquela que tem sido habitualmente pensada e aplicada por meio de estratégias sociais, políticas e econômicas de desenvolvimento capitalista. Já não se trata de relacionar necessidades somente com bens e serviços que aparentemente pressuponham satisfações, mas, sim, de relacioná-las com os chamados “satisfatores”, isto é, com práticas sociais, formas de organização, modelos políticos e culturais que repercutam sobre as formas nas quais se expressam e se satisfazem às necessidades.
E é nesse sentido que a teoria de Max-Neef (1993) merece destaque, principalmente pelo esforço analítico para a construção da matriz de necessidades e identificação de seus satisfatores. Composta pelas necessidades humanas básicas segundo categoria existencial e a categoria axiológica, a matriz é bastante compreensível, apesar de necessitar de maior fundamentação sobre sua elaboração. Considera-se que a matriz necessita de maiores explicações, para ficar clara sua origem e quais os conceitos envolvidos, de forma a não deixar dúvidas sobre a sua elaboração.
Assim, tentar-se-á suprir algumas dessas lacunas. Suas categorias carecem de justificativas, pois, no que se refere à primeira categoria - a existencial -, pode-se dizer que as necessidades de ter, fazer, ser e estar são
interpretadas como as dimensões em que se manifestam as necessidades axiológicas. Isto porque o ser humano não apenas “tem” (no sentido de possuir, visão mais predominante na sociedade atual), mas também é, faz e está. Esta categoria, apesar de criticável, pode representar avanços na discussão sobre desenvolvimento.
Sen (1993) define qualidade de vida a partir de dois conceitos, baseando-se em apenas duas dimensões (ser e fazer): capacitação (capability), que representa as possíveis combinações de coisas que uma pessoa está apta a fazer ou ser, e funcionalidades (functionings), que representa partes do estado de uma pessoa - as várias coisas que ela faz ou é. Assim, a capacitação reflete, em cada pessoa, as combinações alternativas de funcionalidades que esta pessoa pode conseguir. Dessa forma, a qualidade de vida pode ser avaliada em termos da capacitação para alcançar funcionalidades, tais como as funcionalidades elementares (nutrir-se adequadamente, ter saúde, abrigo, etc.) e as que envolvem autorrespeito e integração social (tomar parte da vida da comunidade).
Uma argumentação plausível para a dimensão SER refere-se ao fato de ela poder ser definida como característica de um indivíduo ou grupo. É tão completa que transcende a simples definição de individualidade ou identidade; está relacionada também com unicidade, isto é, ser você mesmo, com uma existência independente da dos demais, mas necessariamente inter-relacionada com os mesmos. A dimensão TER refere-se à particularidade que o ser humano pode conseguir, possuir ou obter. A dimensão FAZER significa atuar, criar, inovar, ter uma ocupação e produzir. E a última dimensão, ESTAR, complementa as outras necessidades. O estar relaciona-se com a existência do indivíduo, pois não pode ser sem estar, isto é, sem ocupar um espaço próprio e pessoal, algo que permita assegurar a existência de um indivíduo.
Max-Neef (1993) não detalha em sua teoria porque selecionou subsistência, proteção, afeto, entendimento, participação, ócio, criação,
identidade e liberdade como necessidades fundamentais de todo ser humano na categoria axiológica. Acredita-se que a escolha do termo axiológico para esta categoria se deva ao fato de que as necessidades “sempre se referem a valores” (HELLER, 1981, p. 148). E elas são definíveis somente a partir de valores, pois só se pode considerar como necessidades aquelas para as quais somos conscientes. Os valores dos indivíduos são relevantes na construção da matriz porque eles orientam as ações das pessoas no cotidiano e, portanto, influenciam a escolha dos satisfatores. A categoria axiológica estaria, portanto, relacionada aos requisitos fundamentais para que os indivíduos possam viver de maneira plena, se realizando e suprindo carências mentais, emocionais e físicas.
Dessa forma, a escolha da necessidade subsistência como uma necessidade básica humana deve-se ao fato de todo ser humano precisar de sustento, alimentos e manutenção para viver. A permanência, a continuação, uma certa estabilidade das coisas, bem como um conjunto de meios para a vida e despesas de cada um são necessárias para existência humana. A proteção dá-se pela necessidade de preservação, resguardo do corpo, assim como de aspectos mais sutis como a segurança emocional.
Além disso, o homem é um ser social e tem sentimentos de afeição ou inclinação para alguém, tais como amizade, paixão, simpatia, etc., assim como faz parte de sua natureza relacionar-se e interagir com os outros, no sentido de fazer, ter ou tomar parte em algo. Daí a explicação para o afeto e a participação serem considerados como duas das nove necessidades.
O entendimento justifica-se como necessidade devido à capacidade do ser humano de conceber e entender coisas, utilizando-se de sua compreensão, inteligência, percepção, interpretação e julgamento, inerentes aos seres humanos. Da mesma forma, tem-se a necessidade de criação que se refere à ação ou ao efeito de criar, de tirar do nada através do estabelecimento, da formação, da fundação, da instituição de algo.
A necessidade de ócio também é facilmente compreendida, pois todos precisam de algum tempo para descanso, repouso, de uma folga ou tempo livre, para utilizá-lo da maneira que lhe convir. Nesse sentido, ressalta-se também a necessidade de liberdade, para que o indivíduo tenha possibilidade de exercer livremente a sua vontade não sendo sujeito, como indivíduo ou comunidade, a controle ou arbitrariedades.
Por último, a necessidade de identidade, que se refere à consciência que todo o indivíduo tem de si mesmo e de sua origem, filiação, relações que estabelece, atributos físicos e psicológicos e fatores capazes de diferenciá-lo de outros indivíduo.
Outra análise importante sobre a proposta do desenvolvimento à escala humana recai sobre os satisfatores. Max-neef (1993) afirma que todos os seres humanos, em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as culturas têm as mesmas necessidades básicas; o que muda é a forma de satisfazê-las (satisfatores). Essa concepção se contrapõe à concepção naturalista (dentre as quais se destacam a utilitarista e a “Nova Direita”) que reduz as necessidades a preferências e desejos, regulados pelo mercado.
A proposta de Max-Neef (1993) permite compreender que, a partir da perspectiva das necessidades humanas e de uma concepção completa e cuidadosa de suas implicações conceituais – desde que se distinga bem a diferença entre a necessidade, satisfatores e bens -, é possível fornecer alternativas para o desenho de estratégias que visem à ideia de desenvolvimento centrado nas pessoas e não nas coisas.
A humanidade vive e trabalha em modelos de sociedade que desconhecem a complexidade crescente da sociedade real em que estamos imersos. As concepções econômicas que têm dominado o cenário atual não têm conseguido satisfazer as legítimas carências das maiorias. Diante disso, novas concepções hão de orientar-se inevitavelmente em torno da geração de uma
crescente autodependência, o que justifica todo esforço teórico e metodológico do autor.
O trabalho de Max-Neef (1993) merece credibilidade, pois, na tentativa de obter respostas convincentes aos novos e velhos desafios ao desenvolvimento, sua construção de indicadores requereu abordagens que abandonam a perspectiva unidisciplinar e o raciocínio cartesiano e que se aproximam de perspectivas inter e até mesmo transdisciplinares. O ambiente complexo, incerto e instável de hoje exige abordagens sistêmicas, holísticas e integradas, capazes de indicar caminhos alternativos para os novos e antigos desafios que se apresentam. Sabe-se que um desses desafios, senão o principal, é satisfazer às necessidades e às aspirações humanas. Segundo Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento - CMMAD (1991), para que haja um desenvolvimento sustentável, é preciso que todos tenham atendidas as suas necessidades básicas e lhes sejam proporcionadas oportunidades de concretizar suas aspirações a uma vida melhor.
Consciente de todo o exposto, a proposta que Max-Neef (1993) elaborou não é um modelo. Por isso não pretende se exibir como solução definitiva porque entende-se que o ser humano e todo seu entorno são componentes que podem influenciar permanentemente. A ideia de desenvolvimento na escala humana, apesar de estranha ao modelo vigente, porque fala do homem, de justiça e equidade e não de capital e lucro, parece emergir com uma certa força, quando se associa à busca de respostas para as crises.
Dowbor (1998, p. 81) lembra que não há solução espontânea para esses problemas, algum tipo de "mão invisível" institucional capaz de assegurar os equilíbrios. Os atores econômicos e sociais são, atualmente, tão desiguais que a imagem da "livre concorrência", capaz de equilibrar os processos de desenvolvimento econômico, é, hoje, tão utópica e antiquada quanto à visão de
"bom selvagem" que ainda sobrevive em certas visões de esquerda. A liberdade sobrevive quando há um mínimo de equilíbrio de poder entre as partes, pois entre desiguais significa liberdade do mais forte e resulta na erosão das instituições. Quando se desarticulam os instrumentos institucionais de governo, ficam mais frágeis os instrumentos políticos de compensação, perdem-se de vista o longo prazo e os interesses humanos.
O desenvolvimento à escala humana aponta em direção a um necessário aprofundamento democrático. Ao facilitar uma prática democrática mais direta e participativa pode contribuir para reverter o papel tradicionalmente paternalista, tendo o papel estimulador de soluções criativas que nascem desde baixo até acima e são, portanto, mais congruentes com as aspirações reais das pessoas.
Mas, para servir seu propósito sustentador, deve-se, por sua vez, apoiar- se sobre uma base sólida. Essa base se constrói a partir do protagonismo real das pessoas, como consequência de privilegiar tanto a diversidade como a autonomia de espaços em que o protagonismo seja realmente possível. Conseguir a transformação de pessoa-objeto para pessoa-sujeito do desenvolvimento é, entre outras coisas, um problema de escala; não há protagonismo possível em sistemas gigantescos organizados hierarquicamente desde cima até abaixo (MAX-NEEF, 1993).
Nesse sentido, diz Furtado (1984) que, uma vez que a ideia de desenvolvimento refere-se diretamente à realização das potencialidades do homem, é natural que ela contenha, ainda que apenas implicitamente, uma mensagem de sentido positivo. As sociedades são consideradas desenvolvidas na medida em que nelas o homem mais cabalmente logra satisfazer suas necessidades, manifestar suas aspirações e exercer seu gênio criador. A preocupação com a metamorfose social deriva dessa outra ideia simples de que é mediante a invenção e a implementação de novas estruturas sociais que se cumpre o processo de desenvolvimento.
Max-Neef (1993), sem dúvida, contribuiu para o desenvolvimento de novas ideias que sustentam as diferentes escolas sobre o desenvolvimento, especialmente aqueles que enfatizam a noção de sustentabilidade. Além disso, sua teoria permite diálogo com outros trabalhos que possuem outra perspectiva sobre o papel da economia.