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Coˆ ut du traitement des impr´ecisions num´eriques

5.2 Traitement des impr´ecisions num´eriques

5.2.7 Coˆ ut du traitement des impr´ecisions num´eriques

1Professora,

Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa

262 Design, Fashion and Product Design, Fashion and Product 32 Capítulo/Chapter | 263

integral entre a natureza da produção (os prazos, os meios e os processos a ele associados) e o contex- to cultural, económico e social. Daciano acreditava que o Design devia constituir-se como a constru- ção de uma relação com os utilizadores, com aque- les que o encomendaram e até mesmo com aqueles que o produziram (Martins e Spencer, 2009). O compromisso com a indústria foi, de fato, eviden- ciado na exploração dos sistemas de mobiliário de escritório, com a escolha de materiais duradouros e com a racionalização da produção industrial, permi- tindo a reutilização de máquinas e de métodos anti- gos. As opções da Daciano conduziram à obtenção de móveis ainda em uso nos nossos dias, devido às suas formas simples e intemporais e à qualidade dos materiais em que foram fabricados.

Nos interiores que desenhou para a Bibliote- ca Nacional (1965-1968) e para a Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian (1966-1969), os seus interiores e as poltronas confortáveis criam uma atmosfera harmónica, na relação entre a arqui- tetura e o mobiliário, espaços especialmente cria- dos com o propósito de impulsionar as capacidades de estudo e de concentração dos utilizadores que aqui permanecem. Não se trata simplesmente de um caso de distribuição de áreas e usos. O design dos interiores, o dimensionamento físico dos espa- ços e as suas relações métricas teriam que estar estreitamente alinhados com as dimensões senso- riais desse mesmo espaço (a qualidade da ilumina- ção, as propriedades das cores, o conforto do mobi- liário, etc.) humanizando esses espaços sob o ponto de vista dos valores emocionais e sustentáveis. No início dos anos 70, Victor Papanek, no seu livro

"Design for the Real World, Human Ecology and Social Change", desafiou os designers a atuar sob respon- sabilidade social e que deveriam propor soluções simples para serem usadas pela comunidade em geral. (Papanek, 1985)

Os designers precisam de reconhecer e de desem- penhar novos papéis com base nas mudanças rápi- das do mundo e nos artefactos que são produzidos maciçamente. Daciano revelou um interesse preco- ce sobre os valores de racionalidade e de funcionali- dade, que ele pretendeu incorporar no seu trabalho, em consonância com o que foi acontecendo com outros pioneiros do design moderno no estrangei- ro (Neves, 2009).

Nos muitos projetos de design de interiores em que esteve envolvido, o mobiliário de assento é particu- larmente especial. Ele conseguiu obter a colabora- ção de algumas empresas na sua produção, acres-

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PARA REFERENCIAR ESTE CAPÍTULO / TO REFERENCE THIS CHAPTER:

Silva, A. (2017). Daciano da Costa e a Longra - Um Exemplo Português de Design Sustentável. Em D. Raposo, J.Neves, J.Pinho & J.Silva, Investigação e Ensino em Design e Música (261-267). Castelo Branco: Edições IPCB. Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt

Figura 1

Daciano da Costa (1930-2005)

1. INTRODUÇÃO

Daciano da Costa considerava que um dos objeti- vos da prática dos designers seria conceber e produ- zir produtos que perdurassem no tempo tanto pela durabilidade dos seus materiais como pelas suas caraterísticas formais.

No caso da Longra podemos encontrar, também, a sua preocupação com a sustentabilidade social através da criação de uma nova linha de móveis que permi- tiu manter os postos de trabalho, evitando, assim, o desemprego de muitos trabalhadores pelo encerra- mento de uma seção desta fábrica. A Metalúrgica da Longra (1919-1995) foi uma empresa portuguesa situada no lugar da Longra, concelho de Felgueiras, que produzia equipamento hospitalar e para escritó- rios. Nos anos 1970, tornou-se pioneira na aplicação e desenvolvimento do design industrial, em Portu- gal, facto a que não é alheia a colaboração estrei- ta do designer Daciano Costa (Lage, 2007). Para a Longra, Daciano conseguiu desenvolver uma produ- ção de mobiliário para consumo interno, evitando a importação e utilizando recursos locais que combi- navam materiais naturais duradouros com a tecnolo- gia portuguesa e a tradição artesanal. Apesar de ser uma produção industrial em série, incorporou a iden- tidade portuguesa através da utilização de materiais

Figura 2

Linha Cortez produzi- da pela Metalúrgica da Longra, 1963, Daciano da Costa. (1985, p.79)

Figura 3

Cadeira de braços produ- zida pela Metalúrgica da Longra, 1963, Daciano da Costa, (1985, p.79) Figura 4 Secretária produzida pela Metalúrgica da Longra, 1971, Daciano da Costa, (1985, p.79) Figura 5 Stand da Longra na FIL, 1971, Daciano da Costa (2001, p.269) locais de longa duração, recursos humanos e tecno-

logia locais numa procura do que considerava ser o verdadeiro conceito de sustentabilidade.

Daciano da Costa planeou, assim, produtos inovado- res antecipando um dos principais aspetos transver- sais do design atual: a cultura da sustentabilidade.

2. DACIANO DA COSTA - DESENVOLVENDO

O DESIgN SUSTENTáVEL

Design para a Sustentabilidade requer a criação de soluções que sejam simultaneamente benéfi- cas tanto para a sociedade em geral como para as comunidades que nos rodeiam, e ainda para o ambiente natural e para os sistemas económicos globais, com especial foco nos locais. (Vezzoli e Manzini, 2008; Vezzoli, Kohtala & Srinivasan, 2014) Daciano da Costa introduziu uma modernização nos processos para a prática do Design, uma nova pers- petiva sobre os temas emergentes do Design no século XX, como valores de design sustentável. Ele acreditava que projetar em Design seria a contri- buição para uma responsabilidade compartilhada na obtenção de produtos sustentáveis. Este compro- misso significou para ele a conceção de soluções que apresentassem um equilíbrio entre os aspetos sociais, ambientais e económicos. Apesar do Design Sustentável ser uma disciplina recente, Daciano no início dos anos sessenta tentou e alcançou novas experiências neste contexto, propondo soluções para ajudar a encontrar formas social, económica e ambientalmente sustentáveis. Foi o caso da Longra, uma fábrica de móveis que lidava com enormes problemas económicos que levariam ao desem- prego de numerosos trabalhadores. A sua inter- venção na Metalúrgica da Longra foi decisiva para atingir esses objetivos, resultando na famosa linha de móveis Cortez e outras peças inovadoras, como uma série de cadeiras metálicas estofadas, ampla- mente utilizadas em plateias de teatro e cinema. Numa época em que a oferta da indústria portu- guesa era limitada e indefinida, havia muito a ser feito. Estas circunstâncias particulares resultaram na necessidade e na oportunidade de conceber um projeto global de grande coerência: uma relação

Figura 8 e 9 Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian, 1966-69, Lisboa, Daciano da Costa (2001, p.132; 1985 Figura 10 Daciano da Costa, 1986, Esboços para cadeira de trabalho. (2001, p.26)

Figura 11

Daciano da Costa, 1962, cadeiras para secre- tária produzidas pela Longra. (2001, p.257) Figura 6 e 7 Biblioteca Nacional de Lisboa, 1965-68, Daciano da Costa (2001, pp.123-125)

centando o valor da tradição artesanal a um objeto produzido em massa. Como em muitos outros obje- tos projetados por Daciano, a sua aparente simplici- dade ilustra como o processo criativo pode corres- ponder à capacidade de alcançar a síntese. São assentos simultaneamente discretos, úteis, ergonó- micos, simples e intemporais e ainda comprometi- dos com a indústria de forma sustentável.

Daciano esteve envolvido no processo de compreender a necessidade de uma integração abrangente das capacidades humanas, necessida- des sociais e recursos locais no processo de design. Desenvolveu o seu processo criativo no sentido de conciliar o engenho do designer com as necessida- des do produtor e com as capacidades dos trabalha- dores, mas também com os recursos locais e com materiais e formas duradouros.

Ao longo de várias décadas, Daciano foi uma figu- ra marcante no desenvolvimento de uma Cultura do Design, não só pela relevância de seu trabalho de projeto, mas também por causa de sua influência como professor e como divulgador do novo project thinking regido pelos princípios do Design Susten- tável. Ele criticou a busca desesperada pela origina- lidade e repudiou o efeito da cultura do imediato e do "sucesso de alta pressão" que encoraja a produ- ção inútil e o "desperdício visual" (Costa, 1998). Os produtos que criou mantêm o sentido de síntese onde a complexidade se simplifica, onde a tradi- ção é integrada na contemporaneidade dentro do processo de design industrial.

Ele mantinha o desejo de adotar os processos de pensamento sistemático e de racionalização da produção. Foi apologista dos princípios da divi- são do trabalho e do trabalho em equipa (Martins e Spencer, 2009). Desde o início dos anos 60, ao

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lidar com a indústria portuguesa, tentou sempre desenvolver uma estreita relação entre integração de princípios humanos e a engenharia de sistemas de produção.

O Design preconizado por Daciano demonstra um alto controle técnico e metodológico do produto industrial e uma distintiva consciência ecológica e social, no sentido de um apurado design thinking que opera a mediação entre o designer, a indústria e a sociedade.

Uma das suas últimas obras foi o projeto de concep- ção para o mobiliário da Casa da Música no Porto, em 2005. A sua colaboração neste projeto surgiu através do desejo pessoal do seu autor, o arquiteto Rem Koolhas, que fez questão de escolher o traba- lho de Daciano, selecionando modelos de poltro- nas e cadeiras de várias épocas e contextos da obra retrospetiva de Daciano da Costa, dos anos sessenta aos anos noventa. Todas as peças foram meticulosamente escolhidas para seu novo cenário nesta Casa de Música, mantendo as suas qualidades intemporais de forma sustentável.

As peças de mobiliário escolhidas foram ligeira- mente transformadas por Daciano adaptando- -as ao novo paradigma, alterando também alguns dos materiais ou cores para melhor se integrarem nestes novos cenários arquitetónicos. Esses obje- tos, cujo projeto e propósito original encaixavam na lógica do "design em contexto" e assumiam um claro compromisso com o seu entorno (algo que Daciano considerava ser a base para seu trabalho de proje- to), viriam a ter um novo papel na Casa da Músi- ca, assumindo uma posição proeminente neste novo contexto.

3. CONCLUSõES

Os projetos de design desenvolvidos por Daciano da Costa podem provar que a dimensão real de seu trabalho excede em muito a sua função física estri- ta como objetos e assumem uma dimensão eminen- temente social, implementando a interação entre os interesses da indústria e as necessidades e capa- cidades dos trabalhadores, mas também com os recursos locais, tudo isto de forma sustentável. O seu conceito de design opera, pois, com sucesso, a mediação entre o designer, a indústria e a sociedade. Podemos considerar que as soluções de Dacia- no para a Metalúrgica da Longra constituiram uma conquista "sustentável" (devemos ressaltar que nos anos sessenta este conceito ainda não estava esta-

belecido), uma inovação, antecipando um dos prin- cipais aspetos transversais do atual design: a susten- tabilidade. Ele conseguiu evitar o desemprego de quase cem trabalhadores reutilizando tecnologia local para novos projetos de mobiliário, combinan- do materiais naturais duradouros com as estruturas de aço que esta indústria siderúrgica normalmen- te produzia, tirando vantagem económica e lucros sociais das capacidades humanas e dos recursos locais que poderiam ter sido desperdiçados. Daciano da Costa criou soluções simples e de longo prazo que perduraram e que satisfazeram reais necessidades humanas, até mesmo a sua simplicida- de combina com as mudanças dos paradigmas esté- ticos do século XXI. A contemporaneidade dos seus objetos, a sua qualidade intemporal, a sua sólida consistência e permanência social são um testemu- nho dos valores do Design Sustentável no trabalho e no legado de Daciano, de acordo com uma Cultura da Sustentabilidade.

REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS

Catálogo da Exposição Daciano da Costa Designer (2001), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Costa, D. (1985), Curriculum Vitae 1985, FA-UTL, Lisboa.

Costa, D. (1998), Design e Mal-Estar, CPD - Centro Português de Design, Lisboa.

Lage, M. O. P. (2007), Metalúrgica Longra (1920- 1993), in: Revista da Faculdade de Letras. História,

Lisboa.

Martins, J. P. Spencer, J. (2009), Continuity and Change, Atelier Daciano da Costa, True Team, Cascais.

Neves, J. M. (2009), Two Generations, Atelier Daciano da Costa, True Team, Cascais.

Papanek, V. (1985), Design for the Real World, Human Ecology and Social Change, Thames & Hudson, London.

Vezzoli, C. and Manzini, E. (2008) “Design for Envi- ronmental Sustainability”, Springer, London. Vezzoli, C., Kohtala, C. and Srinivasan, A. (2014), Product-Service System Design for Sustainability, Greenleaf Publishing, Sheffield, UK.

Figura 12 e 23

Daciano da Costa, Casa da Música, 2005, Porto. (2009, pp.28-33)

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PARA REFERENCIAR ESTE CAPÍTULO / TO REFERENCE THIS CHAPTER:

Lessa, J. (2017). Dimensão Visual em Música Clássica. Em D. Raposo, J.Neves, J.Pinho & J.Silva, Investigação e Ensino em Design e Música (269-278). Castelo Branco: Edições IPCB. Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt

DIMENSÃO VISUAL