Etude des représentations pour la classication à grain-n d'images
3.3 LR-CNN : Low-Resolution CNN
No decurso do estágio levado a cabo no Observador e nos meses que lhe seguiram, tivemos oportunidade de realizar várias entrevistas não só a elementos da redação, que foram já utilizadas na primeira parte do presente relatório e cuja pertinência se voltará a fazer sentir no ponto seguinte, como aos vários tradutores que colaboraram (e aqueles que continuam a colaborar) com o jornal. Aproveitou-se esta oportunidade para investigar as principais preocupações sobre o tema aqui em destaque que estes tradutores possam ter.16
Em primeiro lugar, salientamos o facto de que todos os tradutores entrevistados terem reconhecido a pertinência de se pensar (e falar) sobre o tema da ética em tradução, não obstante este ser ainda parcamente abordado no universo universitário português. Com ocasionais referências à conduta profissional que é esperada do tradutor no exercer das suas funções, a ética tradutória, como a que foi apresentada no decorrer da presente exposição, ainda é um tema pouco realçado nos conteúdos programáticos das cadeiras de tradução, tanto a nível das licenciaturas como dos mestrados. Conquanto seja abordada a moral dos tradutores, e particularmente o tópico da fidelidade, esta merece apenas o seu devido enquadramento histórico, não reverberando para o presente essa mesma discussão.
16
32
Se, por um lado, seria frutífero ver que novas vozes poderiam ser levantadas, nas salas de aula, por esse eco da fidelidade, por outro, ficámos a saber da existência de outras preocupações éticas partilhadas pelos tradutores entrevistados que ultrapassam essa mesma questão. Embora os tradutores sejam confrontados, habitualmente, e de forma mais ou menos evidente, com questões éticas — "Somos confrontados todos os dias com os nossos próprios valores, a nossa própria ética, e a ética do nosso cliente" (Anexo I Valdez, 2015) —, a não existência de um espaço próprio para pensar essas mesmas questões, quer dentro das universidades, quer fora delas, contribui para a desagregação dos profissionais da tradução e a desvalorização do seu estatuto enquanto tal: "Agir de forma ética é contribuir para a dignidade e para o reconhecimento da profissão de tradutor" (Anexo I Gama, 2015).
Pensar sobre ética em tradução torna-se particularmente premente quando é preciso "salvaguardar o tradutor em alguns casos onde este possa não querer fazer uma tradução por alguma razão" (Anexo I Ferreira, 2015), uma preocupação que de resto foi manifestada por outros entrevistados. Na entrevista que nos concedeu, Francisco Ferreira explica que um texto que atente contra os valores pessoais da pessoa a quem é encomendado o trabalho pode, legitimamente, ser recusado. Com base na sua experiência pessoal enquanto tradutora, Susana Valdez revela a mesma sensibilidade, relativamente a esta questão: "eu não traduziria, neste momento, algo que soubesse que iria fazer mal a alguém, como um texto racista ou discriminatório ou ofensivo" (Anexo I Valdez, 2015).
Todos os tradutores entrevistados mostraram-se sensíveis e conscientes em relação aos valores patentes nas diretrizes deontológicas das associações de tradução, que há pouco pudemos expor. Pareceu-nos, contudo, que o conhecimento de tais princípios não se deve, necessariamente, a uma leitura atenta desses códigos, mas a um bem comum subentendido que está relacionado com "uma ética transversal a tudo o que será uma profissão" (Anexo I Ferreira, 2015). Valores como a confidencialidade contratual, o sigilo profissional, o zelo no desempenho das tarefas, a honestidade no desenvolvimento e na divulgação das competências profissionais, a lealdade para com os colegas de profissão, a integridade pessoal, fazem parte de um espólio comunitário partilhado por todos.
Sobre o tópico que tem permeado o discurso acerca da ética tradutória ao longo desta exposição, a saber, a questão da fidelidade, refletimos até que ponto ela não deveria integrar um outro tipo de discussão ética, diferente daquela que tem diretamente a ver com
33
a conduta profissional no dia-a-dia dos tradutores. Esta ética está relacionada com as boas (ou más) práticas profissionais e os valores cuja consciência comunitária agora mesmo evidenciámos. Saber se um tradutor se posiciona com maior ou menor distância relativamente ao texto de partida, ou se privilegia a voz do autor em detrimento da escuta do público, ou se o seu exercício tradutório tende para uma prática da estrangeirização ou da domesticação, tem consequências éticas que devem ser pensadas no âmbito de uma ética tradutória. No entanto, julgamos que tais considerações não fazem um tradutor ser mais ou menos ético. E pensamos que é precisamente aqui que reside a diferença entre pensar uma ética da tradução e uma ética do tradutor. Encontramos esta mesma distinção nas palavras de Henri Meschonnic: "An ethics not of translating, not of translation, but of the translator. We may believe it is the same thing. It is not" (2011: 46). Meschonnic relembra e denúncia o binómio, já exposto na obra de Pym (1997: 10), de uma ética exclusivamente teórica, académica e, por esse motivo, dissociada da pragmática da tradução e essa outra ética, aqui exposta nos últimos parágrafos, relativa à comunidade profissional dos tradutores: "The very binarism which opposes “academic theorists” and professional translators. Therefore, a binary ethics as well, an ethics lacking practice, a practice lacking ethics" (Meschonnic, 2011: 46). A proposta de Pym faz depender uma possível ética inclusiva da tradução da responsabilidade intercultural com que o tradutor, por sua vez, se reveste. Esta é a base da ética (1997: 67), uma ética que se quer profissional, normativa, que não se cinja, pura e simplesmente, ao cumprimento de "prescrições" (recipes). Ao longo deste trabalho procurámos ter em conta esse binómio que julgamos ainda persistir na experiência ética da tradução, dando especial destaque à ética dos tradutores nestes dois últimos pontos que apresentámos.