Em Biblioteca, Gonçalo M. Tavares escreve “sobre 200 autores que [o] marcaram” (Tavares 2017b). Entre eles encontra-se Milan Kundera.
Antes de refletir sobre o comentário de Tavares à obra do checo, e porque falamos de autores de gerações diferentes, parece que, a existir influência, será a de Kundera sobre Tavares. Kundera é mais velho, publicou quase toda a sua obra antes da saída de Livro
da Dança (2001), primeiro livro de Tavares, e a inclusão de Kundera na obra Biblioteca
parece apenas mais um sinal desse peso. Ambos, como vimos, parecem ser herdeiros de uma linhagem de romance-reflexão, expressão de Vergílio Ferreira.
Em A Vida Não É Aqui, num dos comuns comentários à narração, o narrador disserta sobre este processo de influência, falando sobre o protagonista do romance, Jaromil: “não tinha já a certeza se algo do que ele pensava ou sentia era verdadeiramente seu, ou se os seus pensamentos eram meramente parte das ideias do mundo, que sempre haviam existido, prontas a usar, e que se emprestavam, como livros numa biblioteca” (Kundera 1969: 108). Talvez todos os autores sofram da angústia de Jaromil, e em algum momento duvidem da originalidade das suas narrativas e das ideias que as sustentam. E talvez a melhor maneira de lidar com o que Harold Bloom, anos mais tarde, viria a apelidar de Angústia da Influência (1973) seja o reconhecimento dessa inevitabilidade. Como diz Tavares, o ponto de partida de A Biblioteca “é a obra dos autores”, ainda que exista lugar para “associações inconscientes e puramente individuais” (2004a: 9). E essas associações talvez possam não ser tão individuais assim, talvez sejam as “ideias do mundo” de que o narrador de A Vida Não É Aqui fala, que estão prontas a usar.
Exploremos o que se situa entre as duas possibilidades. Parece evidente que a questão da originalidade é transversal a diferentes formas de expressão artística. À questão “do you consider yourself an original thinker?”, David Bowie responde:
Not by any means. More like a tasteful thief. The only art I’ll ever study is stuff that I can steal from. I do think that my plagiarism is effective. Why does an artist create, anyway? The way I see
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it, if you’re an inventor, you invent something that you hope people can use. I want art to be just as practical. (…) The more I get ripped off, the more flattered I get. But I’ve caused a lot of discontent, because I’ve expressed my admiration for other artists by saying, ‘Yes, I’ll use that,’ or, ‘Yes, I took this from him and this from her’ (1976)
Para Bowie, admirar significa reaproveitar. Ainda que estes caminhos possam ser um pouco mais sinuosos do que na descrição de Bowie, parece-nos natural que a leitura e a admiração resultem no reaproveitamento de algumas características do autor lido.
Tavares, em Biblioteca, expressa-se de forma críptica – como de resto, é o registo comum do texto em causa – sobre a obra de Kundera:
Entre os vivos há cálculos, medo, e uma ou outra vez: gemidos (quando dois ou mais se apaixonam ou se matam).
Há ainda a gentileza, que a frase anterior não incluía. O moribundo esquece o nome, mas não esquece o corpo.
Se tiveres duas dores darás atenção à dor que acabou de surgir. E no amor sucede o mesmo. O prólogo à realidade é magnífico, mas o pior vem depois. (2004a: 120)
Abrirá este texto novas interpretações da obra kunderiana? Possibilitará novos caminhos comparatistas entre os dois autores?
Parece fácil, contudo, encontrar algumas palavras que remetem para os universos dos dois autores: por exemplo, o “medo” é uma sensação muito comum na repressão totalitarista de Kundera, e prolifera nas relações entre poderosos e subjugados, ou no caos de O Reino. Em Tavares o “corpo” surge amiúde como último reduto de resistência, já depois de “esquecer o nome”. Em Kundera, como o texto de Tavares indica, as referências ao corpo talvez sejam “a dor” que, entre as duas, “acabou de surgir”: “o pior vem depois”. O corpo e a dor talvez podem surgir enquanto metáfora da forma da prosa kunderiana, em que ação e reflexão surgem com papéis diferenciados, mas complementares. Em Kundera, são comuns os prólogos à “realidade”: os comentários do narrador costumam surgir com a descrição da ação. Se o prólogo for entendido como a posição do narrador sobre a realidade, será por isso que “o pior vem depois”? Será o “pior” o mundo caótico da descrição da ação das personagens, na qual a posição de quem conta a história perde importância para a narração?
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Talvez só Tavares saiba responder a estas questões. O que parece evidente é que, além de partilharem alguns mecanismos de construção romanesca, as relações de poder surgem como uma temática recorrente na obra de Tavares e Kundera.
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