Na análise das entrevistas acima apresentadas, pude constatar a presença de aspectos que os IRDIs estipulam como indicadores de um nível de desenvolvimento
66 saudável de acordo com os critérios da psicologia do desenvolvimento. Somente no discurso da mãe apareceu o comentário sobre a demanda de M. E. de que sua mãe “fosse só para ela”; que “não aceitava compartilhá-la” e que “queria atenção só para ela”. Isto está em correlação com o que apareceu já como uma queixa na segunda entrevista (AP3), na qual a mãe falou de que “a menina era teimosa”; que “tinha dificuldade para esperar, fazia birra, queria tudo na hora”. M.E. demonstrava muitas dificuldades para aceitar que a mãe não era só para ela, além de ter muitas dificuldades para aceitar os limites, “ficou de castigo uma vez, e chorou muito”. Este comportamento incomodava bastante à mãe de M. E., porque colocava muita ênfase quando falava desse assunto. Parece que os pais não sabiam muito bem como reagir frente aos embates de M.E. quando fazia birra, ou quando não aceitava as pequenas regras que eles tentavam recomendar a ela. Outro aspecto importante foi que quando voltou à escola depois das férias perdeu o controle dos esfíncteres, o que poderia ser um sintoma de ansiedade frente à separação da mãe; assim como a reação de fazer xixi na calça quando era contrariada. Em relação a suas representações no papel, eram aquém do esperado para a idade, pois deveriam ocorrer tentativas de fechar as linhas e de dar-lhes uma significação, ainda que de maneira aleatória. Além disso, pudemos encontrar a presença dos seguintes indicadores significativos: dificuldades no controle esfincteriano; agitação motora; colagem na mãe e dificuldades de separação; demanda insistente do olhar do outro; birras prolongadas; necessidade de ameaças para obedecer; confusão e angústia frente à lei; desobediência desafiadora, pois demonstrou conhecer os limites, mas sem respeitá-los; manifestava ostensiva recusa pelo não e expressivo negativismo.
Paradoxalmente, segundo sua professora, a menina demonstrou na escola uma boa adaptação ao que lhe era solicitado; não foi observado nenhum comportamento significativo em relação ao que a mãe falou nas entrevistas, nem em relação às observações realizadas durante a segunda entrevista.
Os problemas que apresenta M.E. na relação com sua mãe, e as queixas dela acerca de sua filha poderiam ter um valor de sintoma de alguma falha na constituição de sua imagem corporal, aspecto que comentarei mais adiante quando analisarei o conjunto das entrevistas realizadas.
67 Primeira entrevista (IRDI)
L.V. tinha 1 ano e 5 meses quando realizei a primeira entrevista. Neste caso, a entrevista também foi administrada de maneira pregressa. Convidei a mãe para que falasse da época em que nasceu sua filha e do que lembrava dos primeiros meses de vida da filha. Durante o percurso desta entrevista, foram explicitados os seguintes assuntos: a mãe comentou que quando a filha nasceu ela teve depressão pós-parto e que sua mãe a ajudava, que se recuperou logo e que conseguiu compreender o que sua filha precisava: “só eu e minha mãe o conseguíamos”. L.V. reagia ao manhês batendo as perninhas e rindo. Disse que a menina reagia e havia trocas de olhares com quem falasse ou brincasse com ela. A criança procurava ativamente o olhar da mãe, e a mãe lembrava que uma semana antes de fazer 5 meses chamou a atenção de L.V sua imagem no espelho e que permaneceu observando. L.V permaneceu no colo da mãe. A menina adorava brincar durante os cuidados corporais e que fazia gracinhas. Durante a entrevista, pude conferir que, quando lhe oferecia brinquedos, ela sorria e se mostrava atenta ao que acontecia. A mãe disse que gostava de brincar com sua filha. Durante a entrevista, ofereceu-lhe brinquedos e observei que a mãe aguardava a reação de L.V., quando ela ou eu lhe oferecíamos algo. L.V. se interessava pelos brinquedos e pelos bichos de pelúcia que coloquei sobre a mesa, sobretudo pelos que fazem barulho, como um que apitava e que mostrava a língua quando era apertado; ria e vocalizava algo como para pedir que a brincadeira fosse repetida. A mãe disse que compartilhava com ela os jogos verbais e que gostava de brincar com os pertences dos pais. Estava começando a diferenciá-los dos seus próprios.
Segunda entrevista (AP3)
L.V foi acompanhada por sua mãe quando fizemos a entrevista aos três anos. A mãe disse que a filha falava bastante, mas não dava para entender tudo. L.V. tinha sono agitado, acordava de madrugada, virava muito na cama. “Acordava à noite com pesadelo”, e às vezes se mostrava ansiosa, angustiada. Parecia muito carente, pedia
68 carinho. Tinha dificuldade para aceitar o não; a mãe disse que às vezes essa situação era difícil para ela. A criança ficava bem com a avó, embora a mãe dissesse: “fico muito ansiosa por ter que deixar L.V. com minha mãe, quando vou trabalhar”. Ainda usava fralda e tomava mamadeira. A mãe comentou que a filha gostava dos cuidados de higiene e que compreendia o perigo. Interessava-se por ficar limpa depois de algum jogo ou situação em que ficava suja. Durante a entrevista, a menina apareceu acanhada, tímida, mas atenta. Aceitou tranquila quando convidei a mãe para sair da sala, mas não se mostrou muito interessada com o que lhe propus. Na sala em que aconteceu o encontro, havia um espelho; observei que ela olhava sua imagem ficando quieta, tímida, com os ombros curvados e os braços para frente do corpo. Falava pouco e em voz muito baixa, quase inaudível. Explorava os brinquedos, o estojo de lápis e os livros. Tentei uma espécie de representação com os fantoches, mas ela não entrou na brincadeira; também não fazia com os brinquedos uma cena que demonstrasse que estava criando um “faz-de-conta”. Quando chegou ao espelho, no livro de contos, fez um sorriso, olhou para mim e disse: sou eu. Disse que gostava de desenhar; fazia garatujas sem atribuir- lhes significação. Não fez a figura arredondada quando solicitei que fizesse um desenhe de si mesma, e ficaram no papel somente linhas soltas de várias cores e muito leves.
2.4.2.2. Análise das entrevistas do caso L.V. e comentários a partir dos indicadores