Tanto no Brasil, colonizado pelos portugueses, como nos países latino- americanos, colonizados pelos espanhóis, o catolicismo trazido por estes “descobridores” foi o ibérico, marcado pela relação mágica com a fé, com forte presença de elementos folclóricos.
Sobre a religião católica, que chegou ao Brasil por meio dos colonizadores, o pesquisador José Bittencourt Filho, ao tratar da matriz religiosa brasileira, destaca a
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magia como pano de fundo da fé dos colonizadores no século XVI. Citaremos um trecho do autor que sintetiza esse pensamento:
A religião das massas era impregnada de uma visão mágica do mundo e de ingredientes folclóricos, e a cultura religiosa católica parece que apenas conseguiu encobrir as zangadas divindades pagãs com um verniz superficial. Assim, para as massas, quando os santos cristãos (tidos na conta de semideuses) estivessem insatisfeitos por algum motivo, podiam castigar os seres humanos, enviando doenças e pragas. Ao mesmo tempo quando estivessem benévolos, podiam promover a cura e o livramento. Os próprios sacramentos eram associados aos gestos, símbolos e objetos mágicos, remetidos que eram, por intermédio de associações conscientes e inconscientes, a antigas crenças pré-cristãs. De qualquer maneira, a descrença era algo absolutamente estranho na cosmovisão da época, as pessoas estavam sempre propensas a acreditar. Desse modo, as fronteiras entre os domínios natural e sobrenatural eram quase inexistentes, sobremodo quando se considerava que as maiorias mergulhadas na pobreza estavam inteiramente expostas às catástrofes naturais, às epidemias, à fome, e, pela falta de instrução, não dispunham de quaisquer explicações razoáveis para a condição em que se encontravam (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 46-47).
Quando o autor fala do poder conferido aos santos pelos fiéis, podemos entender um pouco mais a força do ex-voto que aproxima o fiel da entidade por meio do agradecimento. Em se tratando de “algo” que pode reger a nossa vida, é melhor ser próximo e “amigo” desta força espiritual.
O catolicismo ibérico encontrou no Brasil e nos países da América Latina terreno propício para se consolidar. A religião dos povos indígenas, que aqui viviam também, era marcada por esta visão mágica dos acontecimentos, dentro da lógica religiosa de causa e efeito. Os indígenas, obrigados a se “converterem”, aportaram e adaptaram as suas crenças com o catolicismo que eles estavam assumindo. Posteriormente, os negros africanos, capturados em seus países de origem e traficados ao nosso Continente como escravos, também sendo obrigados a se “converterem”, incrementaram as suas antigas crenças na fé imposta:
Os índios com uma forte ligação com a natureza e os ancestrais, e os africanos com o culto e relação com suas divindades (orixás da umbanda e do candomblé). E foram eles que depois de “convertidos” se tornaram propagadores do catolicismo, longe muitas vezes das raízes dogmáticas do catolicismo oficial. Nasce assim uma forma híbrida de viver a fé católica, muitas vezes cheia de crendices e superstições (GOMES GORDO, 2015, p. 49).
Ainda sobre a hibridização da fé em nosso Continente, sobretudo no Brasil, vemos que algumas práticas religiosas, como oferecer ex-votos aos santos, foram impulsionadas pela união de culturas diferentes, mas que tinham em seu DNA a relação mágica com as divindades. Sobre este tema escreveu o antropólogo Arthur Ramos (1947, p. 125), no livro Introdução à Antropologia Brasileira (V. II) o hibridismo dentro do catolicismo, tanto em Portugal antes da colonização quanto no Brasil com a influência dos índios e africanos:
O catolicismo popular de fontes lusitanas é na realidade um ‘paganismo supérstite’ da frase de Sébillot, onde o ritual católico se contaminou com as lendas, crenças, costumes, ritual popular, superstições que deixam adivinhar reminiscências de velhos mitos e cultos. São ritos de fecundidade, de nascimento, etc., práticas mágicas, cultos funerários, folk-lore dos astros, dos meteoros, das águas, da terra, das pedras, vestígios enfim das religiões pagãs. Foi esse catolicismo popular celtibero que Portugal legou ao Brasil, onde por sua vez ele se desenvolveu incorporando fragmentos dos cultos ameríndios e africanos aqui encontrados.
Os ex-votos, neste cenário propício, encontraram terreno fértil para se popularizar e se enraizar em nossa cultura. Junto a esse cenário religioso, ainda tínhamos as precariedades de vida das populações nos primeiros séculos da colonização. O teólogo e historiador católico Riolando Azzi destaca neste período histórico a força simbólica dos ex-votos, como uma forma de busca de proteção diante das adversidades sociais e naturais:
A fragilidade da vida levava assim o homem a sentir-se pouco responsável por ela, reforçando o caráter de seu ‘predestino’, tão bem expresso nos ‘ex-votos’, como ‘ações de graça’, acumulados nas salas dos ‘milagres’, construídas ao lado dos santuários de devoção popular. [...] Em tudo isso, um aspecto é evidente: a necessidade manifestada pelo ser humano de uma proteção especial, a fim de que pudesse sair vencedor nesse tão instável jogo da vida. Dessa forma, os espíritos ‘superiores’ passaram a condividir com o homem a responsabilidade de sua vida individual, familiar e social (AZZI, 1987, p. 62-63).
Os ex-votos no Brasil começaram a fazer parte da identidade religiosa nacional. Mesmo com o passar do tempo e advento de novas tecnologias, a prática votiva permaneceu em muitos casos intacta, pois ainda se preservam os tipos
tradicionais de ex-votos. Porém, podemos dizer também que houve uma adequação dessa devoção com os novos tempos. A obrigação de agradecer uma graça alcançada está presente no cotidiano, tanto do catolicismo popular quanto em outras manifestações religiosas, que tem por base a nossa matriz religiosa brasileira. Mais do que uma simples identidade religiosa, estamos falando de uma identidade cultural.