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Partindo da preocupação básica deste capítulo, cujo objectivo é o de tentar apontar um conjunto de consequências ou efeitos principais resultantes da reacção social que habitualmente é exercida contra o uso de drogas, e após a referência anterior a uma dessas consequências — a estigmatização ou manipulação da identidade social do utilizador de tais substâncias —, a
formação de uma sub-cultura desviante, relativa ao contexto do fenómeno-droga,
representa uma outra importante consequência com origem nas reacções sociais de controle informal das drogas.
Como é referido por H. S. BECKER ao iniciar uma das suas obras fundamentais — OUTSIDERS, 1963 —, e no contexto da concepção de comportamento desviante à qual este estudo sobre as relações entre uso de drogas e reacção social já frequentemente fez apelo, «as normas sociais definem as situações e os tipos de comportamento adequados, mencionando algumas acções como "certas" e proibindo outras como "erradas".». Em consequência, e recorrendo ainda às palavras de BECKER, «quando ocorre comportamento desviante numa sociedade - comportamento que infringe os valores e normas básicos - um dos elementos presentes neste processo é a ruptura dos controles sociais que normalmente operam na manutenção das formas aprovadas de comportamento.». Desta forma, e enquanto tal, estas rupturas no controle social representam ou resultam, frequentemente, na formação de um grupo cuja própria cultura e controle social operam de uma forma que não é conforme aos da restante sociedade.
Embora nem sempre seja o caso, como refere BECKER (1963) apontando, por exemplo, as actividades formalmente legais da sub-cultura
desviante da música e dança, relativamente ao uso de drogas o comportamento desviante aqui presente encontra-se prescrito ou afirmado a partir da própria lei. O utilizador destas substâncias é, em função desse uso, categorizado como transgressor perante a lei e desviante face às normas sociais da colectividade, e a globalidade de actores sociais que partilham este comportamento dará, em consequência, origem à formação de um grupo ou sub-cultura desviante.
Como E. C. HUGHES (citado por BECKER, 1963) faz notar, a perspectiva antropológica de cultura designa primariamente o conjunto dos referentes convencionais que caracterizam as sociedades de um ponto de vista de homogeneidade, mas este termo, no sentido de uma organização de entendimentos comuns possuídos por um grupo, é igualmente aplicável aos grupos mais pequenos que integram também uma sociedade moderna complexa. Desta forma, é possível identificar um certo tipo de «entendimentos comuns» e, portanto, «uma cultura», numa diversidade de pequenos grupos, como grupos étnicos, grupos religiosos, grupos regionais, grupos ocupacionais, grupo de adictos à heroína, etc.. Como refere HUGHES, (citado por BECKER, 1963): «Onde quer que um qualquer grupo de indivíduos possua um espaço de vida em comum que represente um determinado isolamento dos outros indivíduos, um ângulo de dificuldades em comum na sociedade, problemas comuns e provavelmente um conjunto de inimigos comuns, a sua cultura desenvolve-se.».
Relativamente aos grupos ou sub-culturas desviantes, será o envolvimento em actividades irregulares, assim consideradas por outros, que, tipicamente, resultará em problemas referentes às suas perspectivas e acções que não vão ser, então, partilhadas pela restante sociedade. Na extensão em que estes grupos de indivíduos tenham a oportunidade de interagir uns com
os outros, desenvolvendo perspectivas de si próprios e de suas actividades não convencionais, assim como de suas relações com os outros membros da sociedade, encontram-se, então, predispostos a desenvolver uma cultora própria, construída em torno dos problemas que surgem a partir das divergências de definição de suas acções dadas por si próprios e pelos outros: «A partir do momento em que estas culturas operam no interior, e distintamente da cultura da sociedade mais alargada, são frequentemente designadas de subculturas.» (BECKER, 1963).
A investigação realizada por BECKER (1963) — no duplo papel de músico e de observador participante —, a respeito da sub-cultura dos músicos de Jazz, ilustra, assim, o conjunto de problemas que surgem a partir da diferença entre a definição que os músicos fazem do seu trabalho e aquela que é feita pelas pessoas a quem este é dirigido, e pode, segundo o autor, representar um protótipo dos problemas que os indivíduos desviantes encontram na comunicação com quem tem uma perspectiva diferente das suas actividades desviantes. Este estudo demonstra, também, como já foi referido, que as actividades desenvolvidas no contexto de uma designada sub- cultura desviante nem sempre têm lugar num âmbito de ilegalidade ou transgressão, de onde se infere a importância representada pela forma como o estilo de vida de um grupo específico é perspectivado pelas forças de controle social informal da restante sociedade.
Com base na afirmação de BECKER (1963) sobre a possibilidade de generalizar aos vários tipos de outsiders ou de sub-culturas desviantes o contexto de problemas analisados quanto aos músicos de jazz e sua integração na cultura dominante, se transcreve uma descrição final do
isolamento e auto-segregação que se desenvolvem no âmbito do objecto de tal
enfatiza o seu isolamento dos padrões e interesses da sociedade convencional. Eles associam-se quase exclusivamente a outros músicos e a raparigas que cantam ou dançam na área de North Clark Street de Chicago e têm pouco ou nenhum contacto com o mundo convencional. Politicamente são assim descritos: "Detestam de todas as maneiras esta forma de governo e consideram-no verdadeiramente mau." São persistentemente críticos face aos negócios e ao trabalho, desiludidos com a estrutura económica, e cínicos acerca do processo político e dos partidos políticos contemporâneos. Religião e casamento são totalmente rejeitados, tal como a cultura americana popular e oficial, e as suas leituras confinam-se somente aos escritores e filósofos vanguardistas mais esotéricos. Na arte e sinfonia musical interessam-lhes os desenvolvimentos mais excêntricos. Em todos os casos mostram-se dispostos a sublinhar que os seus interesses não são os da sociedade convencional e que consequentemente se diferenciam destes. Parece razoável concluir que a principal função destes interesses é tornar esta diferenciação clara.».
3..3.