6. MEDICAL MANAGEMENT
6.2. CLINICAL COURSE OF ARS
6.2.2. Clinical course (days 8-39)
Efeito placebo ou sugestão é o nome dado a um fenômeno percebido como irredutível
ou inerente ao ato de fabricação de fármacos em laboratório. Embora todo o esforço desses laboratórios, justamente denominados contra-placebo, seja o de eliminar esse componente subjetivo que aparece como espontâneo na sintetização da molécula medicamentosa, a sugestão volta a ocorrer, e com muita freqüência, quando o medicamento, já no mercado, reencontra o paciente. Penso que podemos aprender sobre as drogas ilícitas quando as referimos à produção das drogas lícitas e à eliminação do efeito placebo.
Gostaria de propor uma reflexão experimental que relacione algumas associações – umas normalmente aventadas, outras talvez menos suspeitas – a propósito do tema drogas. Decerto que uma grande virtude de se refletir sobre proibições e tabus, como o que envolve o tema das drogas ilícitas, parece ser a de revelar, pela negativa, valores e visão de mundo da ordem legal e oficial. Queria experimentar aqui algumas hipóteses. Uma delas, que me parece particularmente interessante, é reconhecer identidade entre o tratamento dado ao placebo e o dado às drogas ilícitas. Daí adiante será reexaminar, como ao modo proposto por Bruno Latour, algumas conexões que, regra geral, são nubladas pelo pensamento moderno, isto é, o pensamento que purifica a realidade entre dois cantões ontológicos e epistemológicos distintos: o da Natureza, para o qual as hard sciences (como a física, a química e mesmo a biologia) se apresentam como porta-vozes legítimas, e o da Sociedade, para o qual esse dever caberia às soft sciences (como as ciências sociais ou humanas em geral).
Vale adiantar: a hipótese de Latour, tal como a compreendo e que busco aqui assumir como pano de fundo, propõe romper com o caráter substancialista desse dualismo, para que assim o mundo invisível das conexões entre técnicas, instrumentos, interesses, agentes humanos e não humanos possa ser rastreado e trazido para a reflexão.2 De resto, notemos que esse olhar dirigido à variada associação entre coisas e pessoas é muito próprio da tradição antropológica – mas que agora se volta, de um modo renovado e promissor, para o centro da sociedade do observador. Como seja, em Latour a Natureza não mais aparece como uma entidade transcendental, singular e exterior ao mundo humano, tal seu status no projeto purificado Moderno. Assim como a Cultura ou a Sociedade, a Natureza é plural e relacional, e só se realiza por meio de seus agentes mediadores (actantes, nos termos do autor). Os cientistas e técnicos, os artigos e a retórica, os aparatos e os genes, as drogas lícitas e as ilícitas – tudo que entra em jogo para definir o que concebemos por realidade, tudo que influencia e é influenciado por ação e reação, tudo torna-se agente. Tal viragem epistemológica nos conduz a uma outra abordagem sobre nossa própria cosmologia: os pólos purificadores (Natureza e Sociedade) não podem mais ser pensados senão em relação com o meio híbrido que prolifera entre eles e por causa deles; a Sociedade já não pode mais ser pensada, sobretudo entre nós modernos, como feita apenas de humanos, mas também de não-humanos. Nesse sentido, à busca de um vocabulário que também deve ser reformado, Latour prefere substituir a noção de sociedade pela de coletivo.
Entendo que a proibição, tal a que pesa sobre as substâncias psicoativas indexadas na ilegalidade, denuncia a si mesmo, isto é, traz à mostra o sistema acusatório que é posto em marcha. Assim, não será que a proibição das chamadas drogas e a eliminação laboratorial do placebo participam de um mesmo dispositivo sócio-cosmológico? Começar por aí significa não mais que escolher um ponto a partir do qual se desenrola o fio da meada – ou o fio de Ariadne, como talvez preferisse Latour. Se a escolha do fio condutor é arbitrária, creio que a trama a que ele conduz não é nada arbitrária. Aqui, esta prática metodológica correrá a par do ensinamento de Latour sobre o que há de capcioso no referido dualismo constitutivo da modernidade. Ou seja, tenho em vista, como objeto mais propriamente teórico, falar sobre fármacos, drogas ilícitas e placebo sem com isso aprisionar a discussão: seja no pólo da Natureza, naturalizando mal o problema, seja no pólo da Sociedade, sociologizando igualmente mal.
Claro, quando se fala de drogas, no seu sentido negativo, isto é, das substâncias ilícitas, o comum é encarcerar a discussão no registro naturalista. São médicos e cientistas que, sob a redoma do realismo, acabam por ensinar à sociedade e à política o modo como tratar os problemas que envolvem semelhantes agentes. Basta abrir os jornais e flagramos diariamente notícias desse tipo, como a que, em fevereiro de 2006, por exemplo, afirma que “usar maconha aumenta as chances de um comportamento agressivo entre crianças e adolescentes”, conforme apurado pelo “estudo realizado pelo instituto holandês de saúde mental Trimbos e publicado
no British Journal of Psychology”(Pesquisa...,2006). Não se trata, em casos como esse, de simplesmente desautorizar, tal sob uma over reaction construtivista, a capacidade de agência da substância, como se a capacidade de agir fosse exclusivamente humana; como se somente a pessoa ou a sociedade detivesse a ação e a utilizasse a seu bel prazer. Tudo é muito mais enredado do que a purificação moderna concebe. Tudo é tão mais híbrido quanto mais purificado se quer. A causa não está lá ou cá, mas multiplicada e distribuída em redes sempre móveis – embora não por isso menos determinantes, senão o contrário. Ademais, o puro construtivismo relativista parece não dar conta, por si só, do problema, uma vez que reduz o mundo e os seus eventos a projeções mentais, representações, interesses sociais etc.
É verdade que as drogas, uma vez que são concebidas e praticadas como tais, dependem sempre de contexto individual e social (set e setting, como costumam apontar os especialistas sobre o assunto) para fazer efeito. Mas, ora, o fato é que fazem efeito – ainda que sejam efeitos muito variáveis. Ou seja, pouco serviço, senão grande desserviço, ocorre ao substituir a reificação do natural pela do social. Tarefa mais difícil, e no entanto indispensável, parece ser a de abandonar a preeminência prematuramente dada ou purificada de um ou outro domínio (a das coisas e a das pessoas, o natural e o social), como se existissem desde sempre e do mesmo modo, em favor das inter-ações de agentes que criam e são criados na prática. São “actantes”, no vocabulário de Latour, que se desenvolvem e se transladam em rede.
De tudo resta o fato, este sim incontestável, de que tal contenda entre realistas e relativistas produza, no plano do conhecimento, um diálogo de surdos; no plano público, já modernamente purificado, a representação científica da Natureza costuma prevalecer quando o objeto são os agentes não-humanos; na produção prática das coisas, como o que se passa num laboratório de sintetização de medicamentos, nada se estabiliza senão por meio de incríveis esforços técnicos e dotações orçamentárias, meticulosos cálculos e testes associando e desassociando agentes humanos e não-humanos, em meio a controvérsias não menos híbridas de substâncias, técnicas, teorias e interesses que se lançam em disputas não raro intestinais. Pois é aqui, nesse plano prático de produção das coisas, que se pode flagrar todo um mundo repleto de agência. Acompanhar etnograficamente o modo como os agentes surgem e se estabilizam em associações eficazes parece ser uma lição importante que os recentes estudos de ciência e tecnologia nos têm oferecido.3
Mas e as drogas, tais os psicoativos, que agentes são? Como agem e reagem? Uma vez
despertas, por assim dizer, como se estabilizam ou se recusam a tal? A experiência aqui será
a de buscar algumas conexões entre o domínio das ciências naturais (que definem uma tal ontologia natural das drogas) e o domínio da sociedade (que as proíbe ou libera), sem com isso aderir, logo de saída, nem ao naturalismo das ciências naturais, nem ao construtivismo das ciências sociais. Para isso, parece pertinente focar os mecanismos de farmacogênese que tornam lícitas as drogas que cumprem satisfatoriamente os testes contra-placebo nos
laboratórios. É quando a droga torna-se fármaco, isto é, um produto de comprovado valor terapêutico. Ou seja, para alcançar a dignidade ontológica de fármaco, a substância deve passar por um processo de eliminação do placebo.
Tal função comprobatória, não custa repetir, é atributo das ciências médicas oficiais e suas tecnologias. Pois sugiro que, partindo dessa instância oficial, possamos lançar nova luz sobre o que torna ilícita toda substância de efeito físico, químico ou biológico, como as psicoativas ou alteradoras de consciência, que não participam desses protocolos laboratoriais. São estes protocolos que, por sua vez, criam e reproduzem princípios cosmológicos modernos, estes baseados, quer me parecer, na noção de estabilidade. Entendo que esta noção perpassa ciência e sociedade, saberes oficiais e de senso comum, o institucional e o informal.
Nesse trajeto, inevitável será nos remetermos diretamente ao dualismo Natureza e Sociedade, constitutivo da modernidade, e que, penso, deve ser enfrentado se queremos compreender o que torna lícita ou proibida tal ou qual substância. Um pouco mais e poderei propor que o efeito placebo ou sugestão surge como um dado, e um dado instável, no ato da produção farmacológica. Ainda além, esse efeito aparece como instável porque vai contra a razão naturalista – e por isso ele não merecerá interesse científico, tanto quanto político e mercadológico. Daí adiante, o argumento final é que, como o placebo, também as drogas ilícitas, e por razões muito semelhantes, não podem senão gerar o comportamento instável, já que elas, de sua parte, vão contra o sociologismo da sociedade – e por isso elas são igualmente desprezadas pelas ciências, pela política, pelo mercado. Esse, finalmente, é o ponto: todo o esforço de nossa sociedade é por manter estáveis tanto os imperativos do Natural quanto os do Social. Imagino que qualquer política social sobre as drogas teria que levar em conta essas pontes, comumente tornadas invisíveis, que ligam ciência e sociedade.
Mas, claro, antes de avançar nas hipóteses, vamos nos deter melhor aos argumentos. Para isso, aceitemos o convite de Pignarre (1999), sociólogo e epistemólogo francês, que nos conduz ao interior de laboratórios “contra-placebo”, lugar onde se produz a molécula do medicamento, pilar da ciência médica do século XX. Quando de lá sairmos, já de volta ao mundo da sociedade, o convite será por novamente encarar as drogas ilícitas. Sua razão e sua “má razão”.