As matrizes da crítica e da historiografia literária brasileira, que fundamentaram e sistematizaram uma metodologia de investigação do fenômeno literário, no final do século XIX, foram Sílvio Romero, Araripe Jr. Júnior, José Veríssimo. Os três compartilharam uma visão de mundo construída por meio do materialismo e do cientificismo. Na construção de sua metodologia crítica, Sílvio pendeu mais para os aspectos sociológicos, enquanto os outros se aproximaram mais de uma visão estética da literatura.
Contudo, antes deles, as primeiras manifestações da crítica literária brasileira estavam ligadas ao desejo de autonomia política e cultural, após o processo de independência do Brasil (1808-1822), e, posteriormente, à influencia do pensamento e da estética romântica no país.
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O texto capital para a sistematização da crítica determinista é a “Introdução” Histoire de la littérature anglaise (1864). Em língua portuguesa, o texto faz parte da coletânea Uma ideia moderna de literatura: textos seminais para os estudos literários (1688-1922), publicada em 2011, pela editora Argos, organizada por Roberto Acízelo de Souza.
Antes de percorrermos, sucintamente, o desenvolvimento dos projetos críticos no Brasil durante o século XIX, é preciso entender o que seria crítica literária. Na citação de páginas anteriores, Rodolfo Teófilo informou que o Brasil não possuiu crítica literária, que ainda não atingimos um patamar civilizatório para termos um Taine. Mas, se a função da crítica é apreciar as obras literárias, como indica sua etimologia grega64, ela implica, por sua vez, uma reflexão constante sobre os critérios de seus julgamentos. Criticar é por o objeto em crise. Em toda sociedade em que há o fenômeno literário, há algum senso ou modelos de julgamento, inerentes às atividades espirituais, conectados à cultura e à época.
José Luís Jobim nos esclarece que:
Cada época tem seu quadro de referência para identificar a literatura, tem suas normas estéticas, a partir das quais efetua julgamentos. Em outras palavras, cada época tem suas convenções, valores, visões de mundo, formando um certo universo, cujos elementos interdependentes mantêm entre si relações associativas e funcionais, em constante processo. Uma obra pode ser considerada literária (ou não) em função de um julgamento que, em cada período, é consequência das normas estéticas a partir das quais se julga. Ou seja, considerar um texto como literário (ou não) depende do contexto. Evidentemente, isto não implicaria na existência de algo “ o contexto “ que fosse externo ao texto, que o determinasse. Não haveria uma oposição dentro versus fora, não existiriam compartimentos incomunicáveis, separando o texto do contexto, que não seria visto como “externo” em relação ao “interno” do texto. Poder-se-ia, isto sim, dizer que o contexto está “dentro”, já que determina as próprias fronteiras do que pode vir a ser considerado como texto. Em outras palavras, o contexto não se reduziria a envolver ou circundar o texto, porque, na medida em que fornece as normas a partir das quais se delimita o que é texto, torna-se também constitutiva deste (sic) (1992, p. 129-130).
Portanto, a crítica está vinculada às ideias convencionadas de literatura e às visões artísticas de determinada época. O contexto em que a obra é elaborada é bastante importante, mas ela o distorce, elabora novas perspectivas, tira o véu do senso comum, deixando o próprio contexto descortinado. Portanto, a crítica tem a sua historicidade, assim como a própria literatura.
Não há valores universais e absolutos na arte, modelos estéticos, tampouco modelos de julgamento absolutos. O texto literário vária em cada cultura, em cada época. A crítica nasce de uma tomada de consciência de leitores críticos que se ocuparam em analisar as obras escritas, aplicando critérios baseados nos modos de julgar de sua determinada época.
Na Grécia antiga, o filósofo Aristóteles foi um dos primeiros a submeter as obras poéticas de sua época (textos líricos e dramáticos) ao exame do espírito65, enquanto ensinava
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O termo ‘crítica’, vem de ‘kritikos’ e designava a própria faculdade de pensar, de escolher, da faculdade de atribuir valor e de discernir, tanto do legislador, quanto do médico ou do filósofo (ROGER, 2002. p. 7).
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Seu mestre, Platão, havia rejeitado os poetas em sua República, pois estes seriam sujeitos que trariam ‘desordem e mentira’ à sociedade com seus textos que traziam uma imitação imperfeita da realidade, um desvio de nível inferior da sua postulação das ideias puras.
em Atenas, entre 334 a 323 a. C. Na sua obra didática, Poética, interessou-se no exame das obras da “arte poética propriamente ditas”, levando em consideração o efeito estético que tais obras produziam nos leitores ou expectadores.
Cada um dos gêneros por ele estudados, ‘a epopeia, a tragédia e a comedia’ não expõe um saber comum ou científico, por meio da linguagem, ‘imitam’, isto é, recriam a vida. Nem todos são poetas, pois “costuma-se dar esse nome a quem publica matéria métrica ou científica em versos, mas, além da métrica, nada há de comum entre Homero e Empédocles; por isso, o certo seria chamar poeta ao primeiro e, ao segundo, antes naturalista do que poeta” (ARISTÓTELES, 2007, p. 20).
Empiricamente, o público daquela época tinha consciência do que era poético ou não. A poesia era uma mimese da vida, o seu valor estava justamente no seu distanciamento do real. O pensador organiza os primeiros critérios do que era uma obra digna de ser chamada de poética, além de seus efeitos específicos no público (catarse66). Esse estudo foi pautado na observação empírica de uma prática cultural que ocorria entre os povos gregos, há séculos. Todavia, ele não tinha o intuito de estabelecer regras de produção literárias ou de julgamento crítico. Na Poética, Aristóteles constrói o primeiro cânone da literatura ocidental (Homero, Sófocles, Ésquilo, Eurípedes, Aristófanes etc.), além de descrever o funcionamento de alguns gêneros poéticos, inspirando nos modelos classificatórios das ciências naturais. Séculos depois, na Roma antiga, a civilização que se influenciou em muitos aspectos da cultura grega, a crítica ganhará novas perspectivas, incluindo o acréscimo de elementos da retórica.
Durante o desenvolvimento do pensamento ocidental, a atividade de crítica literária acompanhou as transformações e revoluções que ocorreram na História. Em muitos momentos se aproximou da perspectiva cristã, ora de aspectos mais materialistas, ora se espelhou nos modelos estéticos do mundo greco-latino, ora esteve ligado mais aos aspectos retóricos.
No decorrer do tempo, a crítica nos ensinou e ensina a efetuar profundos questionamentos em torno da obra literária. Entendemos que o exercício crítico deve atuar de modo contextual, deve colocar as obras em relação umas com as outras, situá-las, observar o seu provável posicionamento no conjunto histórico das obras literárias. A literatura é mais do
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De acordo com Aristóteles, na Poética, catarse (do grego κάϑαρσις, kátharsis, “purificação”, derivado de καϑαίρω “purificar”) é um termo utilizado, no contexto da tragédia, para descrever um efeito estético que causa um sentimento de terror e piedade nos expectadores, provocados pelas ações das personagens trágicas, em sua trajetória da ventura para o infortúnio. Exemplo: Édipo-Rei, de Ésquilo. Após uma intensa investigação, o protagonista, outrora auspicioso rei de Tebas, descobre que assassinou o pai e desposou a mãe, gerando quatro filhos. Desesperado, como autopunição, fere os olhos, ficando cego.
que um conjunto de obras, é um sistema de relações, um campo de tensões, onde o poeta gere uma rede de afinidades e oposições.
Como nos ensina Umberto Eco67, o texto literário é ‘aberto’, ao longo do tempo, suscetível a diferentes leituras críticas, inventivas. Cada momento histórico nos oferece alguns pontos para efetuarmos leituras que atualizam a mensagem do texto, enriquecendo o seu registro sincrônico. O crítico não deveria esquecer que o seu objeto de estudo é construído por uma arquitetura textual. A sua atividade é metalinguística. A estrutura verbal de seu objeto determina os limites do seu alcance. A literatura constrói um mundo imaginário que não tem existência fora da linguagem. O texto literário tem uma linguagem que expressa um número diversificado de significados que recriam, exageram, focalizam contradições da nossa realidade.
A crítica deve levar em consideração a historicidade da obra literária, a fim de ultrapassar o impressionismo da primeira leitura do texto. A História da literatura não pode ser apenas uma catalogo cronológico de obras, deve-se apoiar em um pressuposto crítico- teórico.
René Wellek nos diz que
a história literária também é altamente importante para a crítica literária tão logo esta ultrapassa o pronunciamento mais subjetivo do "gosto" e "não gosto". Um crítico que se contentasse em ignorar todas as relações históricas iria se perder constantemente nos seus julgamentos. Não poderia saber qual obra é original e qual é derivativa, e, pela sua ignorância das condições históricas, erraria constantemente na compreensão de obras de arte específicas. O crítico com pouca ou nenhuma história inclina-se a fazer adivinhações desleixadas ou permitir-se "aventuras entre obras-primas" autobiográficas e, no todo, evitará ocupar-se do passado mais remoto, deixando-o com satisfação ao antiquário e ao "filólogo" (2003, p. 45).
Ou seja, o significado de uma obra de arte não é somente definido em função do seu significado para o seu autor, ou para os seus contemporâneos. O significado é acumulativo, destarte, considerar também a história das críticas de que a obra foi alvo. Como já nos referimos no primeiro capítulo desse trabalho, a obra faz parte de um sistema literário e
efetuar análises dos processos formativos da literatura brasileira ocorridos entre os séculos XIX e XX requer que a literatura produzida nos momentos decisivos desse período seja compreendida como um complexo sistema simbólico de inter-relações e denominadores comuns que permitam o reconhecimento de notas dominantes duma fase. Através desse sistema, as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Além das características internas de um sistema literário (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social, cultural e psíquica que se manifestam historicamente convergem na organização literária, conferindo-lhe aspecto orgânico nos processos da civilização (CANDIDO, 1981, p. 23-4).
Estudar as obras literárias de uma nação, como no caso o Brasil, é analisar também seus processos políticos e históricos. Como compreender o fenômeno literatura nos tempos coloniais, pois aqui sequer existiam colégios, imprensa, ou locais de venda de livros? O sistema é um círculo de significações entre o escritor (inicialmente, um leitor), o texto escrito e o público leitor. As maneiras como o leitor lerá a obra dependerão do grau de instrução, da faixa etária, da existência ou não de fortuna crítica ou não da obra, da experiência de leituras literárias, do interesse pelo tema ou gênero. A crítica não é científica, como as ciências exatas, contudo é um trabalho racional, que exige ponderamento e interpretação.
A partir da lição de Sérgio Milliet, Antônio Cândido nos explica que
a crítica deve se adequar ao objeto, isto é, à obra analisada. Será errado criticar um impressionista do ângulo naturalista, porque o autor não quis realizar a sua obra conforme as normas deste. Se o crítico as impõe à obra estudada, estará obedecendo, não à natureza do produto que o artista ou escritor teve em mira, mas ao que uma corrente de gosto reputa necessário para configurar adequadamente a obra. O crítico deve, portanto, se situar conforme o ângulo do autor, que determinou a obra, não do público, que espera que ela seja conforme à sua expectativa ditada pela moda. Se (para continuar no mesmo exemplo) o crítico adotar como norma os preceitos do Naturalismo, estará deixando de ser crítico para fazer estética, isto é, ver a obra segundo uma concepção teórica que serve de medida universal e que ele, crítico, acha adequada; e não segundo o que o autor acha adequado (CANDIDO, 1988, p. 132).
Portanto, se o crítico deve se adequar a obra a ser analisada, no recorte de tempo que iremos estudar, a passagem do século XIX para o XX, perceberemos que a crítica literária aproximou-se deveras das ciências exatas e de filosofias materialistas. Percebemos que o foco da crítica não foi apenas o texto literário, mas o homem e a sociedade. Em muitos casos, a obra servia de subterfúgio para tratar da individualidade e da psicologia dos escritores. No Brasil, os debates e as polêmicas do que era o objeto da crítica e a importância da literatura para a constituição de uma nova civilização, confundem-se com a sua própria sistematização e modernização. A crítica literária brasileira era o sintoma de uma civilização que pretendia ser moderna.
Antes de estudarmos os pais da crítica literária brasileira, precisamos entender quem foi o pai da crítica literária moderna na Europa – Taine – pensador responsável por desenvolver a história da literatura e por aproximar a crítica dos ditames cientificistas.