7. The TLS Handshaking Protocols
7.4. Handshake Protocol
7.4.7. Client Key Exchange Message
Perceptível aos primeiros passos pelas ruas da cidade-museu, as pichações são assustadoramente numerosas por entre os centenários logradouros da Cidade mãe de Recife. Assim como a vizinha Capital, Olinda está tomada por pichações de todas as cores, formatos e tipos, para quem anda diariamente pelas ruas da cidade como os moradores, isso irrita, parece até se acostumarem com isso. Sr. E. fala em tom jocoso que querem ser patrimônio agora também (Sobre os pichadores). Depois das observações no local, não estava mais por fora da triste situação. Realmente, seja no Carmo, no Varadouro, no Amparo, na Sé, não há local do perímetro urbano que não venha sofrendo com essas depredações. Assusta como as pichações estão presentes em cada esquina. Inicialmente, levantei a hipótese da ligação dos tão temidos arrastões na cidade cartão postal com as pichações. Foi o que pude entender com base em declarações dos moradores. Entretanto, concomitantemente, também recebi relatos de que, na verdade, não eram bem assim. No começo das minhas idas ao campo, assuntos mais polêmicos como pichações e problemas nas políticas patrimoniais não eram numerosos nos relatos, apenas com o tempo. Com a rotineira presença do pesquisador, a intimidade, por mínima que seja, começa a ser criada, os interlocutores começam a confiar um pouco mais naquele estranho e informações preciosas surgem.
Em conversa com dois moradores comerciantes da Sé, levantou-se a possibilidade das tais infames pichações serem obras de locais também: Rapaz, tem gente daqui também, isso é essa turma nova daqui que picha, essa garotada. A turma picha o Fórum aí embaixo cheio de juiz, de tudo, perto do colégio de São Bento, quanto mais igreja, capela. Mas, mas... Tá vendo aquela casa ali embaixo? Depois daquele pé de Mato? (casa de N, outra interlocutora) Aquela meia creme, olha a casa dela, encima da janela dela pichada, e a casa dela é aberta, dia de domingo até, passa a semana em casa, vende cervejinha e tudo, e o pessoal tá nem aí.
Em estudos sobre as pichações na cidade de São Paulo, Alexandre Pereira Barbosa percebeu que há uma estreita ligação entre as pichações e a necessidade de afirmação
identitária, curioso que a quantidade e variedade de assinaturas, de pichos em Olinda é enorme, algumas são reconhecíveis em várias partes da região metropolitana, como essa, feita no Mercado da Ribeira:
Figura 26. É possível ver traços característicos desse pichador ou desse grupo por todo Recife e Olinda. Maio de 2016.
Percebam que o picho em destaque já foi feito como uma resposta a outros que existiam no mesmo edifício, são signos de demarcação de áreas percorridas pelos pichadores, há uma curiosa lógica nisso, em quantos mais lugares houver pichos de determinado indivíduo ou grupo, mais fama ele adquire. É obrigação do pichador, segundo Barbosa Pereira espalhar o seu símbolo pelo maior número de locais da cidade. 244
Em Olinda, é possível ver pichos dos bairros mais remotos da região metropolitana como o bairro da Torre, no Recife ao lado de pichações que assinam como sendo de Olinda, há na
244 PEREIRA, Antonio Barbosa. As marcas da cidade: A dinâmica da pichação em São Paulo. Disponível em:
verdade, uma espécie de demarcação de territórios, por vezes, de grupos rivais como gangues, por vezes como sinais que servem como testemunho de um pichador famoso na metrópole. Pois, não é bem visto alguém que atue apenas nas proximidades de onde mora; é preciso ir para longe, pichar no centro da cidade e em outros bairros distantes para ser considerado um ‘pichador de verdade’.245 Para além disso há outras lógicas interessantes para melhor
compreendermos o fenômeno: protesto, risco, transgressão.
Transgredir as normas estabelecidas, o Status Quo. Quando um pichador realiza a ação em uma parede de uma Igreja de Olinda, ou em uma casa tombada, pode significar uma forma de dizer que não tem medo das leis, que não as respeitam, assim como o protesto que, pode ser de caráter político ou contra a morte de algum amigo, assim como o risco de ser preso, de desafiar o sistema, de pichar em locais inimagináveis, como em viadutos, locais extremamente movimentados, paredes de monumentos.
É como um testemunho da própria existência que nos é fugaz. As pichações podem ser protestos de cunho político, provas de coragem, símbolos de demarcação territorial, mas antes de tudo, simbolizam vozes, identidades. Assim como os monumentos, lugares de memória de Nora, eles também querem sobreviver ao tempo:
Para se entender por que esses jovens infringem as normas e buscam – como o risco de escalarem edifícios altos, de serem pegos pela polícia e mesmo assassinados por um segurança particular – é preciso retomar a principal característica da pixação: a efemeridade. Esta parece ser o maior obstáculo que desejam superar com suas pixações pela cidade. De forma paradoxal, eles tentam imortalizar seus nomes em um suporte extremamente efêmero que é a paisagem urbana. Enquanto fixam suas marcas com letras estilizadas à procura “da fama por outros meios”, como costumam afirmar, a cidade tenta arrancá-las da paisagem. As coleções de folhinhas aparecem, nesse sentido, como uma forma de fazer com que os seus pixos permaneçam e não sejam apagados da memória. 246
245 Idem p.151 246 Idem p. 155
Figura 27. Travessa B.V. na esquina com a rua de São Francisco, detalhe do bairro " Torre vive", bairro da zona sul do Recife distante quilômetros do local. Fevereiro de 2016.