Não fazia ideia. Desconhecia a existência dos penitentes. Quando li o Artes da
Tradição: mestres do povo, de Carvalho (2005), voltei-me para o autor o jornalista, o pesquisador e suas técnicas. A intenção era entender o processo de feitura dos perfis ali escritos.
Ilustração 9 – Folha de Rosto: dedicatória
Fonte: autoria própria
Li tudo com o maior esmero, paulatinamente, e fui percebendo a identificação dos personagens ali presentes com o meu próprio repertório de Ceará, da nossa cultura popular e tradição. As páginas margeadas, a lápis, de grifos, anotações e referências entregam o interesse com que li alguns trechos. Era mesmo um Ceará profundo e, de alguma maneira, as pessoas ali retratadas e perfiladas, patrimônios imateriais, eram familiares a mim: o “pife” de seu Alfredo em Viçosa do Ceará, a forja de Ferreirão em Crateús, as esculturas de Manuel Graciano em Juazeiro do Norte, as rabecas de tantos artistas espalhados pelo estado.
O perfil de Joaquim Mulato, penitente de Barbalha, no Cariri cearense, me intrigou de forma particular, pois, ao menos no meu próprio Ceará profundo, não havia nenhum penitente. Nas inúmeras andanças no Cariri dos meus avós, nunca ouvi falar de homens encapuchados perambulando na calada da noite em busca de expiar pecados.
Assim fui apresentado à tradição dos penitentes. Dei-me conta, então, de que existiam. Não era coisa do passado medieval. Homens se juntam, “rezam o terço, se embrenham mata adentro, em busca dos cruzeiros perdidos e dos cemitérios. Lá, com capuzes e opas, usam o ‘cacho’, lâminas de metal com que se auto-flagelam”.(CARVALHO, 2005, p. 142)
Como já mencionei, a história de Joaquim Mulato me intrigou. Remoí por um tempo o modus operandi dos penitentes... Sair à noite em busca de cruzeiros, cantando, flagelando-se... À época, minha espiritualidade católica, mas muito introspectiva; jesuíta demais? não dava conta de toda a operação. A falta de maturidade que ainda hoje tenho para entender certos mistérios da fé era, em 2014, talvez, mais manifesta. Sempre que possível, tento assumi-los de vez, os mistérios. Como exercício, de vida e de pesquisa, tem valido um bocado.
“Eis o mistério da fé
Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice”15
Indo adiante no Artes da Tradição, vieram luthier, rendeira, cordelista, muitos outros mestres da cultura. Segui em frente. Foi preciso deixar Joaquim Mulato páginas atrás. Ao final do livro, já sabia que Mulato morrera em 2009 e a dúvida se existiam muitos como ele, penitente, pairou em minha cabeça como nuvem “bonita pra chover”.
O projeto de pesquisa pretendido acabou não vingando, mas, por uma ironia misteriosa todas as vezes que comemos deste pão? , foi falando dele que me vi novamente sombreado pela mesma nuvem nebulosa dos penitentes, tema ainda bastante obscuro. Conversando com o professor de semiótica, agora orientador, nos corredores da Universidade, já em 2015, fui apresentado a sua pesquisa com os penitentes do Cariri cearense.
Generoso, o professor passou um bom tempo a explicar todo o processo de envolvimento com os penitentes, o que havia realizado até então e o que precisava realizar. Fiquei envolvido, desde ali, no novo projeto que estaria por vir. Guardo até hoje as palavras de incentivo que me chegaram nesse dia e todas as recomendações de leitura passadas dias depois, quando iniciamos, assim considero, mesmo que de forma isolada, as orientações de pesquisa. Entendemos, desde o início, que seria interessante unir, aos penitentes, a
performance e a poesia.
Se não tiver tempo de ler tudo, começa pelo Zumthor...
Outro entendimento era de que meu caminho de pesquisa havia de passar por Aurora, município do Cariri distante 460 quilômetros de Fortaleza, aproximadamente, onde a prática da penitência ainda consegue se manter viva. Talvez não tenha demonstrado ao orientador todo o meu entusiasmo por estarmos falando de um lugar tão familiar a mim, já que Aurora e sua vizinhança, Lavras da Mangabeira e Barro, compreendem a tríade conterrânea dos Torquato de Araújo Tavares.
A partir desses primeiros contatos com a pesquisa, tracei três pontos de interesse: 1) os penitentes ; 2) o conceito de performance alinhado com a escrita e a poesia; e 3) Aurora: o lugar; o ambiente. Explorar cada um desses pontos determinou o início do processo e serviu de alicerce para os desdobramentos que surgiram.
Comecei, sim, por Paul Zumthor, que fundamentou minha compreensão sobre o que mais desconhecia. Se a pretensão era criar pela escrita, precisei especular como daria forma a um texto forjado a partir da escuta, do contato, do diálogo fatalmente, o processo me faria aterrissar nos encontros. E, gravitando no universo dos penitentes, é importante, assim entendo, lidar com a tradição oral e com a transmissão oral “a primeira se situa na duração; a segunda, no presente da performance” (ZUMTHOR, 1993, p. 17).
Considerei, então, no processo, essa diferença apontada por Zumthor. O envolvimento paulatino com a pesquisa me instigou a explorar uma escuta qualificada, num exercício consciente do que poderia ser aproveitado como criação narrativa. O afã de escrever
pelo caminho foi mais possível à medida que enxerguei a performance nos vários encontros, esperados ou não: a performance como
a ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida. Locutor, destinatário, circunstâncias (quer o texto, por outra via, com a ajuda de meios linguísticos, as represente ou não) se encontram concretamente confrontados, indiscutíveis. Na performance se redefinem os dois eixos da comunicação social: o que junta o locutor ao autor; e aquele em que se unem a situação e a tradição. (Zumthor, 2010, p. 31)
Colocando foco nesses confrontos citados por Zumthor e, mais além, buscando uma relação deles com os objetivos aqui pretendidos, assumo o desejo de despertar um momento de recepção único, pessoal e provocador de sentidos particulares a ponto de não podermos mais distinguir tão claramente o papel do ouvinte/leitor quanto à recepção ou
coautoria (Zumthor, 2010). Nesse ponto, preciso explicar que não é intenção, longe disso,
aprofundar-me nos estudos de recepção, mas coloco que a encaro também como o mesmo Zumthor (2014, p. 52) quando escreve que
a performance é então um momento da recepção: momento privilegiado, em que um enunciado é realmente recebido. Quando do enunciado de um discurso utilitário corrente, a recepção se reduz à performance (...) Uma das marcas do discurso poético (do "literário") é, seguramente, por oposição a todos os outros, o forte confronto que ele instaura entre recepção e performance.
Estendo, portanto, essas relações ao meu fazer poético também. Minha maneira de escrever de inventar, de criar leva bastante em conta, reitero, a escuta. Falo do apreço por sentar à sombra de um juazeiro e, sem pressa, voltar toda a atenção para o que um penitente tem a contar; ou por me encontrar numa roda de debulhar feijão e rir das histórias de trancoso; mais ainda por ajuntar toda essa escuta num processo de criação na escrita.