2 LE CANCER DE LA PROSTATE
2.2 CLASSIFICATION
A educação européia no século XVII, ministrada nos colégios criados segundo o modelo do Renascimento, reflete o desenvolvimento das ciências experimentais e das matemáticas. O empirismo de Bacon, Hobbes e Locke e o racionalismo cartesiano “negavam qualquer sujeição ao ‘magister dixit’ e proclamavam a experiência como única fonte do conhecimento, e a razão como único critério de verdade.” (Bastos, 1987: 23). Indo de encontro à tradição veiculada pelas autoridades políticas e religiosas, essas duas correntes filosóficas propunham uma postura crítica e investigativa do homem,
mantendo, dessa forma, fortes vínculos com as ciências exatas e naturais, em franco processo de desenvolvimento nessa época.
Portugal, no entanto, orientava-se pela filosofia escolástica, cujos maiores representantes foram os jesuítas, ficando, por essa razão, alheio ao desenvolvimento intelectual e cultural do resto da Europa. De acordo com Bastos (1987: 33), a Companhia de Jesus, para o alcance de seus propósitos, utilizava-se da pregação, da confissão e do ensino, o que, ao mesmo tempo, provocou o desenvolvimento da missão catequética e o atraso cultural de Portugal e, conseqüentemente, do Brasil:
“Nesse espírito de Contra-Reforma, que teve como seu principal instrumento a Companhia de Jesus, a repressão e a espionagem foram os pontos altos e, para a consecução de seus propósitos, a ordem utilizava a pregação, a confissão e o ensino. Esta fiscalização severa, no entanto, foi um dos motivos do êxito educativo conseguido pelos jesuítas, tendo sino também o fator entravador do desenvolvimento intelectual, principalmente no sul da Europa.”
Saraiva (1981: 176) assevera que a penetração de Portugal no espaço cultural europeu deu-se numa época de oposição entre dois blocos ideológicos: o da Europa católica e o da Europa reformada. Por razões sobretudo de ordem política10, Portugal compôs o bloco católico, passando, em meados do século XVI, a ter a questão judaica como objeto de repressão anti-reformista. Desse modo, por dois séculos de instalação da Inquisição, Portugal passou por uma fase de censura intelectual, que revestia três aspectos: a) proibição da posse e leitura de livros constantes no index prohibitorum; b) fiscalização do comércio livreiro e da entrada de livros estrangeiros no país e c) submissão da produção literária à prévia censura do Santo Ofício. Com esse controle, a Inquisição produzia um discurso político determinado e específico, ortodoxo e, portanto, contrário à criação intelectual.11 Assim, ao longo de todo o século XVII, “a Inquisição
10 D. João III era cunhado de Carlos V, fiel a Roma e grande suporte político da Europa. 11 CURTO, D. R. O discurso político em Portugal (1600 – 1650), p. 81
conseguiu manter a atividade cultural portuguesa isolada do movimento das idéias européias” (Saraiva, 1981: 179).12
Dentro desse quadro, era natural que o ensino em Portugal, monopolizado pelas instituições religiosas, se pautasse pela memorização e repetição, em detrimento do raciocínio, pois, para os clérigos, regulares ou seculares, a disseminação do saber equivaleria a uma profanação.
Se bem que bastante apaixonada, incisiva é a crítica feita por Antero de Quental, em discurso proferido em 187113, sobre o ensino jesuítico. Segundo ele, “o ideal da educação jesuítica é um povo de crianças mudas, obedientes e imbecis”, uma vez que os métodos de ensino adotados pelos padres “ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo”.
No Brasil, em consonância com o relato de Gandavo14, o ideal de colonização trazido pelas autoridades civis e eclesiásticas portuguesas era
“superar a ‘desordem’, fazendo obedecer a um Rei, difundindo uma Fé e fixando uma Lei. (...) F, L e R, associados e misturados, pois Coroa e Igreja irmanavam-se”. (Villalta, 1997: 332).
De mãos dadas, chegando ao ponto de confundirem-se em suas atribuições15, Estado e Igreja priorizavam uma educação notadamente de reprodução, objetivando perpetuar a ordem patriarcal, estamental e colonial.
Embora também existissem escolas vinculadas a outras ordens religiosas, como franciscanos, beneditinos e carmelitas, o principal agente de educação no Brasil colonial, até meados do século XVIII, foi a Companhia de Jesus. Tendo chegado ao
12 Como conseqüência, observa-se, em todas as manifestações artísticas, a introspecção de seus autores.
No tocante às obras escritas, o culto à palavra supera o culto das idéias e os temas dominantes são sempre aqueles que não apresentam problemas ao sistema vigente: seráficos, hagiológicos, edificantes, congratulatórios.
13 Quental, Antero. Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos. Discurso
proferido em Lisboa, no dia 27 de maio de 1871, durante a 1ª sessão das Conferências democráticas.
14 Pero de Magalhães Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, p. 124
15 PRADO Jr (1976: 329-30) afirma ser considerável a intervenção da Igreja e de seus ministros nos
assuntos do Estado tanto pelo respeito que mereciam, quanto, sobretudo, pelo “direito reconhecido de se imiscuírem em muitos assuntos específicos e particulares.”
Brasil no início da colonização16, os jesuítas desde logo se dedicaram à organização dos aldeamentos indígenas, onde promoviam a alfabetização dos gentios.
Gozando de imenso e crescente prestígio, os jesuítas exerceram, durante todo o período colonial, várias outras funções, além de educadores e missionários, marcando sua presença no Brasil também como “construtores das maiores bibliotecas da colônia, como exploradores dos sertões, e como lingüistas, historiadores, antropólogos, botânicos, farmacêuticos, médicos, arquitetos e artesãos dos mais diversos tipos.” (Alden, 1970: 32).
Conforme atesta Carvalho (1958: 606), o trabalho pedagógico desenvolvido pelos jesuítas, além da conversão do gentio, tinha por grande objetivo a ordenação de novos padres, fator imprescindível para a sobrevivência e a ampliação da obra missionária. Observa-se, desse modo, que o ensino jesuítico procurava estender-se por toda a sociedade colonial. Assim, nas escolas dos aldeamentos, além de membros da população indígena estudavam também alguns mestiços e os filhos dos colonos, que aprendiam os rudimentos da língua e da doutrina cristã. Aqueles que se tornariam os futuros padres aprendiam também Filosofia e Teologia; os leigos aprendiam a ler, a escrever e a contar.
Evidentemente, como bem lembra Gonçalves et alii (1998: 7), esse caráter “democrático” do ensino, intimamente ligado à catequese, ia ao encontro da pedagogia jesuítica praticada na Europa, cuja principal característica “era justamente o elitismo, promovendo uma diferenciação de conteúdos para as diferentes classes sociais”.
Vinculada, portanto, a uma orientação religiosa, a instrução escolar tinha um alcance social extremamente restrito. Raros eram os livros no Brasil17 seiscentista e os poucos que havia eram obras devocionais. Além disso, a língua culta, ensinada tanto na Europa quanto na América, era o latim e através dele se estudavam todos os outros assuntos, inclusive o próprio vernáculo18.
No Brasil, do mesmo modo que em Portugal,
“a instrução escolar era prisioneira da orientação religiosa e calcava-se na repetição, sendo de algum modo refratária ao
16 Chefiados pelo padre Manoel da Nóbrega, os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, juntamente com o
governador Tomé de Souza.
17 Em São Paulo, há um total de 55 títulos, relacionados em 15 inventários, entre os anos de 1578 e 1700
espírito científico nascente. O que contava, tanto do ponto de vista da organização dos estudos quanto de sua apropriação pelas elites sociais, era a imitação dos textos clássicos gregos e latinos, havendo uma grande valorização do exagero, da retórica e da eloqüência. A instrução, assim, subordinava-se à civilidade das aparências, constituindo um ornamento a ser ostentado pelos indivíduos socialmente privilegiados.” (Villalta, 1997: 351).
Os colégios e seminários dos jesuítas disseminaram-se no Brasil durante o século XVII19. Apesar disso, até fins desse século, os alunos dos colégios jesuíticos eram impedidos de receber quaisquer graus e privilégios universitários, o que fazia com que os mais abastados fossem estudar na Metrópole. De acordo com Bastos (1981), os estudantes desses colégios seriam, mais tarde, seus próprios professores e foi exatamente isso o que propiciou a expansão de escolas aqui no Brasil.