3.3 Identification des excentricit´es statiques
3.3.3 Classification
De acordo com Ducrot (1984), significação e sentido são os valores semânticos atribuídos às unidades lingüísticas. A significação é o valor semântico da frase e do texto. Ela é um conjunto de instruções para construir um conteúdo a partir da situação enunciativa. Há duas hipóteses para a atribuição do valor semântico,
neste caso. A primeira é de que as instruções constitutivas da significação total de uma frase podem ser calculadas através de regras combinatórias aplicadas às significações dos seus constituintes. Assim, o sentido do enunciado seria obtido, consideradas as condições de enunciação, a partir da significação da frase. Todavia, a significação da frase se estabelece independentemente da situação e a partir da significação dos seus elementos. A segunda hipótese, inversa à primeira, sugere que cada constituinte do enunciado seja interpretado em função da situação. O sentido total do enunciado resultaria da combinação das interpretações feitas sobre cada constituinte.
Mas as hipóteses não são justificáveis. Não se pode compreender o enunciado de uma frase se não soubermos a que acontecimento particular ela se refere, tampouco seria possível compreendê-lo analisando seus constituintes isoladamente, mesmo considerada a situação de enunciação. Ducrot apresenta o seguinte exemplo:
(3) O Pedro lembrava-se da guerra.
Nesse caso, há necessidade de informações suplementares relativas à totalidade da frase, como por exemplo, o tempo verbal – que situa o fato relatado na frase em relação ao momento da enunciação – e a compreensão dependeria de enunciados situados em torno da referida frase. É a totalidade da frase que fornece indícios para se encontrar o referente das expressões que compõem a frase.
Por sua vez, o sentido é o valor semântico atribuído ao enunciado e ao discurso. Ducrot questiona como se dá a construção do sentido de um discurso D, sendo D constituído de enunciados (E1, E2, E3, En), os quais realizam concretamente
as frases de um texto T, e sendo D a realização concreta de um texto T (que se constitui de frases: F1, F2, F3, Fn). Ele propõe, para esse questionamento, que o
sentido do discurso resulta da articulação entre a totalização dos sentidos individuais dos enunciados e a organização dos enunciados no discurso. Se considerarmos que nenhum dos enunciados do discurso reproduz palavras e opiniões de alguém diferente do locutor, é possível “admitir que o sentido do discurso contém o sentido de cada um dos E1, E2, ..., En.” (DUCROT, 1984, p. 376). A resposta parece estar
portanto objecto de empenhamento da parte do locutor” (idem). Quando o locutor diz, o faz em cada um dos enunciados, o que leva a uma totalização característica do discurso.
Constitui, também, o sentido do discurso a ordem em que aparecem os enunciados. Ela estabelece o movimento e a organização discursivos, e pode sugerir ou impor determinadas conclusões. A ordem faz com que tais conclusões só possam ser apreendidas na totalidade do discurso, e não particularmente em cada enunciado. É o que se pode observar com o uso do discurso reportado. A inserção de certas citações – no caso do discurso direto - interfere no efeito de sentido do discurso. Se o locutor utilizar o discurso indireto, promoverá um outro efeito de sentido. Se o discurso for realizado somente com citações, como numa peça de teatro, por exemplo, a construção do sentido do discurso será ainda mais complexa.
Sobre a atribuição de valor semântico ao texto, o procedimento de totalização das significações das frases, e também dos sentidos dos enunciados, embora eficaz, traz algumas complicações. No caso do texto, é necessário lembrar que o sentido de um enunciado é obtido a partir da significação da frase correspondente, aplicada à situação de enunciação. Tomemos como exemplo um enunciado E2, cujo sentido
resulta da significação de F2 aplicada à situação de enunciação. A situação de
enunciação de E2 abarca, também, a situação de enunciação de E1. Sendo assim,
ao construir o sentido de E2 deve-se ter em conta o sentido de E1, sendo que o
sentido de E1 prevalece sobre a significação de F1. Exemplifica-se esse fato com
discursos do tipo P mas Q. Para se interpretar mas Q é preciso determinar a conclusão r orientada por P. Essa conclusão, refutada em seguida por mas Q, quase sempre é determinada pelo enunciado e não pela frase. Pode-se concluir “que o sentido do segundo enunciado depende, em grande parte, do sentido do primeiro” (DUCROT, 1984, p. 377).
Para resumir, reproduzimos abaixo um esquema elaborado por Ducrot (1984, p. 377) que caracteriza o procedimento de construção de sentido no texto/discurso:
Semântica Lingüística Situação
F1 Significação de F1 Sentido de E1
F2 Significação de F2 Sentido de E2
F3 Significação de F3 Sentido de E3
Por outro lado, o autor explica que, não raro, a atribuição de sentido aos enunciados, no caso do discurso, pode obedecer também a um movimento retrospectivo, em que o sentido atribuído a E2 afeta o sentido de E1, atribuído
anteriormente. Parece, então, necessário interpretar E1 em duas etapas: na primeira,
o sentido resultante serviria para a interpretação de E2, e na segunda, em que o
sentido de E2 orientaria uma reinterpretação de E1, e assim sucessivamente.
Na obra Polifonia y Argumentación (DUCROT, 1990), o autor retoma os conceitos de significação e sentido. Significação é o valor semântico atribuído à frase, e é constituído por diretrizes, as quais fornecem instruções para a interpretação do enunciado. Sentido é o valor semântico atribuído ao enunciado. A diferença entre a significação da frase e o sentido do enunciado é de quantidade e de natureza. Em relação à quantidade, é fácil demonstrar que o enunciado diz muito mais que a frase realiza. O enunciado seria sobredeterminado pela frase. Por exemplo:
(4) Faz tempo bom.
O enunciado (4) diz coisas que não se encontram na frase, tais como o momento em que o locutor diz que faz bom tempo e o lugar onde ele se encontra.
Quanto à natureza, a significação consiste em um conjunto de instruções, de diretrizes que permitem interpretar os enunciados da frase. Por isso, diz-se que a significação é essencialmente aberta, diz o que se deve fazer para encontrar o sentido do enunciado. O sentido do enunciado, por sua vez, passa a ter uma
concepção polifônica, pois consiste na presença de um certo número de pontos de vista (enunciadores). O primeiro elemento do sentido de um enunciado é a apresentação dos pontos de vista dos diferentes enunciadores. O segundo é a indicação da posição do locutor em relação aos enunciadores. Das possíveis posições, Ducrot destaca três: o locutor pode identificar-se com um ponto de vista, o locutor pode concordar com um ponto de vista, e o locutor pode refutar um ponto de vista. Um terceiro elemento do sentido é a assimilação do enunciador com uma pessoa.