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CHAPITRE 4 : DEMARCHE ORGANISEE DE CONCEPTION DE SYSTEMES DE

4.2.1 Au niveau du produit

4.2.1.4 Classification des désolidarisations

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Apesar de não se tratar de amostra representativa, vale ressaltar que a Revista segue uma regularidade de reportagens e as páginas eleitas para serem analisadas adiante acabam representando uma pequena amostragem de todo o conteúdo que a Revista impunha aos seus trabalhadores como modelo ideal.

A documentação primária acerca da instalação da empresa no TFA e, principalmente da instalação das vilas operárias, evidenciam uma vastidão de discursos que trazem consigo a ideia de progresso e crescimento. Mesmo que não seja intenção desta tese realizar uma análise sobre a relação da ICOMI com a modernidade121 e/ou progresso, acredita-se ser necessária a problematização desta questão, uma vez que as páginas da Revista também estão impregnadas de tal assertiva e grande parte da produção historiográfica sobre a ICOMI continua reproduzindo tal discurso.

Os autores das imagens relativas à Revista ICOMI Notícias não foram, sozinhos, os elaboradores da ideia de modernidade que impregnou todas as ações relativas à ICOMI, enquanto percepção e apropriação. A própria forma como o representaram fazia parte de um conjunto de símbolos e códigos que se pretendia fazer presente em todo o TFA122. O ideal de modernidade não se fazia sentir somente em função das imagens que foram intencionadas em meio a um ideal de progresso. É certo que estas, ao convalidá-las, davam-lhe forma, sentido e existência. Mas, para além das imagens, as narrativas também levam à interpretação de serem vinculadas a um desejo do moderno, mais do que à sua real concretização.

Dessa maneira, o fato de a modernidade ser defendida e afirmada nos discursos que permearam as ações da ICOMI não significa que existisse e fosse vivenciada na materialidade do real. Nesse sentido, a expectativa no progresso pode estar presente nos discursos oficiais, nas imagens, nas publicações e falas de quem pretende validar um ponto de vista conciliado com esta lógica. Apesar disso, é preciso observar como tais discursos modernos se concretizam na prática, ou melhor, qual é o significado que adquirem na experiência social e cultural cotidiana dos envolvidos no projeto minerador.

As imagens abaixo (Figuras 8e 9) são carregadas de tal lógica discursiva que visam se concretizar no real. Ao aparecerem na Revista pretendendo dar a ideia de uma sequência lógica, o antes e o depois da empresa, elas almejam traduzir a história da ICOMI no Amapá através das duas fotografias. Dado o caráter sequencial denotando uma evolução, as imagens

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Embora muitos autores tenham se debruçado sobre o tema da modernidade e, consequentemente, seu impacto sobre o homem, um dos mais influentes sobre essa questão foi Marshall Berman (2007). Em sua principal obra, “Tudo que é solido desmancha no ar”, Berman analisa como o homem se lança na experiência da modernidade, fazendo forte relação entre o espaço e a sociedade, que dele se serve. Sobre o envolvimento das pessoas em relação à sensação de modernidade, ele diz que “todos se sentem surpreendentemente à vontade em meio a isso tudo, sensíveis às novas possibilidades, positivos ainda em suas negações radicais, jocosos e irônicos ainda em seus momentos de mais grave seriedade e profundidade” (2007, p.28).

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Maura Leal da Silva (2007), em sua Dissertação de Mestrado, percebeu que a criação do Território Federal do Amapá traduziu a proposta de construção da nação, seguindo os ideais varguista de modernização para o país.

visam transparecer a ideia de que a empresa levou o progresso para a Amazônia, conforme analisamos a seguir.

Decorrente da intenção em sugerir uma evolução, a primeira fotografia (Figura 8) retrata um homem com o corpo curvado. Sua posição corporal se coadunaria com a representação feita das pessoas que viviam na região antes da instalação da ICOMI ou ainda das que não estavam atreladas à empresa: a de alguém que vivia em péssimas condições de vida e de trabalho.

Figura 7 – Garimpeiro com bateia na mão, em garimpo de aluvião

A inclusão de elementos paisagísticos na imagem acima inseriu o homem fotografado, no caso um garimpeiro, em uma espacialidade típica da região antes da chegada da ICOMI, dando-lhe um significado e função específicos no contexto. Ou seja, buscou-se remeter ao inóspito, às “forças” da natureza e a áreas que antes não eram tão ocupadas, mas que haviam passado a ser cenário principal da empresa.

Esse simbolismo poderia ser unicamente relacionado à posição desconfortável do garimpeiro, ou ainda às condições de trabalho a que ele estava submetido. Contudo, ao se analisar a imagem juntamente com a legenda, que possui a função de instruir o leitor sobre os locais fotografados e indicar onde a cena estava se desenrolando, fica evidente como a empresa concebia a garimpagem na região. Isto é, a de que tal prática gerava “resultados mínimos”, apesar de exigir grandes esforços desse homem: “O garimpeiro, de bateia na mão e cigarro na boca, era quem catava a riqueza que todos sabiam presente no chão do Amapá. Ia aos muitos rios e furos que corriam entre a mata. E trabalhava. Resultados mínimos”.

Assim, a sequência das imagens trazidas na Revista sugere a evolução que a empresa queria demonstrar. A Figura 8 representando o Amapá antes da ICOMI, o garimpeiro curvado, praticando uma atividade pesada para o seu porte físico, enquanto a imagem a seguir, Figura 9, representa o progresso que a empresa veio instalar na região: a máquina aparece imponente, rasgando o chão com facilidade.

Figura 8 – Máquina escavadeira cavando a mina de manganês em Serra do Navio

Ao contrário da Figura 8, na imagem acima (Figura 9), apesar de aparecer um empregado manipulando a máquina, e dois atrás dela, eles, os homens, não são o foco principal, pois o seu enquadramento é periférico, quase imperceptível: um conduzindo a máquina no canto esquerdo da imagem e os outros dois, atrás de uma pedra, respectivamente. Ainda sobre o fator humano da imagem, não é feita nenhuma menção a eles na legenda. A imagem buscou reduzir o tamanho do homem na fotografia, visto que o objetivo principal da foto não é mostrá-los como foco principal, mas também não se pretende ocultá-los por completo neste momento.

O fato de nos focarmos numa perspectiva de análise que privilegia o estudo das imagens nos autoriza a pensar acerca de um objeto promotor de múltiplas interpretações, que vão muito além do discurso escrito123. A imagem insere outra forma de reflexão, que não se limita à combinação de palavras ou sentenças. Assim, para além do discurso escrito da Figura 9, a presença de pessoas no quadro contribuiu para corroborar o que se pretendia mostrar como enfoque principal nesta imagem: a máquina. Ao compor o quadro, a comparação do tamanho dos homens com a máquina possibilitou uma estimativa do tamanho da escavadeira. Grande, imponente e volumosa, de modo que a máquina, a partir da chegada da empresa na região, passou a fazer parte da paisagem, denotando a ideia de que ela estava agindo como uma “dona” do espaço, detentora do poder.

É próprio da história da industrialização que as edificações e as máquinas tendem a tomar lugar central nas representações da sociedade “desenvolvida”, controlando o homem e suas ações. As máquinas começam a fazer parte da paisagem, além de simbolizar o conhecimento e controle técnico que era necessário para manuseá-la, diferente do garimpeiro com a bateia na imagem anterior, que não precisava dominar nenhuma técnica para manuseá- la.

O enquadramento que o fotógrafo deu à escavadeira ajuda a compreender tal questão. Na imagem ela aparece no primeiro plano, dominando todo o quadro, de frente com a pá aberta, cheia de minérios, buscando dar a impressão de que ela é um gigante semeando o progresso. A legenda vem complementar a imagem, ressaltando a importância das máquinas para o crescimento: “de repente, chegou a hora da máquina. Escavadeiras a rasgar o chão e os

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Maitê Peixoto (2013) propõe uma breve reflexão acerca da série fotográfica publicada no jornal A Plebe, no ano de 1917 e problematiza a questão de a imagem ser promotora de múltiplas interpretações, o que muito nos auxiliou a pensar nas várias possibilidades de ler as imagens da Revista ICOMI Notícias.

homens viram que riqueza grande requer trabalho grande. O minério tinha de fazer o Amapá crescer. É ele que sustenta a expansão geral”.

Ao se observar a Figura 9 novamente, percebe-se que o fotógrafo possuía muita técnica. Ampliando o plano de visibilidade, abarca grande parte da paisagem que circunda a máquina, mesmo que a centralidade da fotografia seja a escavadeira, que recebe maior luminosidade. A máquina, no foco principal, comprova toda sua grandiosidade frente ao desbravado da paisagem, controlando o espaço e sugerindo uma certa forma de olhar para a imagem. Em compensação, o enquadramento pensado pelo fotógrafo deixa “invisível” o entorno, deslocando este espaço do restante124. Isto, associado à floresta densa ao fundo e à presença do que já foi devastado pela máquina, faz com que seja enfatizado ainda mais o caráter grandioso, imponente e moderno da escavadeira, sendo esta a responsável pela “limpeza” da área, representada pelo espaço onde a floresta já foi derrubada (lugar onde a máquina já agiu) e a floresta ao fundo, ainda intacta (esperando a máquina agir).

Publicadas as imagens numa sequência lógica de evolução, progresso e desenvolvimento, a imagem da máquina, juntamente com as vilas operárias, a Estrada de Ferro do Amapá, o Porto de Santana (muito enfocadas em outras matérias da Revista), se consolida como um dos vários símbolos do progresso que a ICOMI alegava implantar na região. A própria escolha de ser o tema de várias outras reportagens na Revista não é sem significação; os equipamentos que a ICOMI introduziu, neste momento e principalmente neste local, a Amazônia, estava permeada pelo ideal de modernidade e desenvolvimento. Outro destaque importante seria para o formato e a disposição das imagens, único conteúdo da página inteira, ocupando lugar de destaque, apesar da breve legenda.

Ao se analisar outras imagens e matérias da Revista ICOMI NOTICIAS, fica evidente que o ideal de progresso diz respeito aos vários empreendimentos modernos que a empresa alega ter feito, o que reforça a ideia de que as imagens expostas na Revista eram catalisadoras desta noção progressista. Os empreendimentos que a ICOMI ergueu no Amapá adquiriram o caráter de uma paisagem-ícone, em contraposição às imagens que antes permeavam a paisagem do Amapá, como a garimpagem, as palafitas ou o modo de vida dos ribeirinhos. Para corroborar tal ideia, a Revista insiste em usar as imagens das taperas cobertas de palha (habitação típica da região) para comparar com as casas bem equipadas que a empresa

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O trabalho de Schmitz (2012) nos auxiliou a analisar as imagens produzidas pela ICOMI no Amapá, primando por detalhes como enquadramento, planos, enfoques e perspectivas. A autora buscou inferir as novas sociabilidades e práticas sociais construídas no espaço ferroviário através da leitura de imagens.

construiu para os trabalhadores nas vilas operárias. A forma como a população vivia antes da chegada da ICOMI é vista como de uma extrema carência. Essas peculiaridades regionais são ressaltadas corriqueiramente nas páginas da Revista sem se fazer um questionamento se realmente essas condições refletiam uma pobreza ou um estilo de vida próprio da região, tanto que após a saída do empreendimento ainda se observa uma permanência desse estilo de vida típico das populações ribeirinhas.

Os espaços da empresa, então, cada vez mais se tornariam relacionados à presença de uma marca de progresso: fariam parte de um moderno, mas de um moderno que é dominado por agentes externos. O que chama a atenção é como a sequência de imagens, acompanhadas de suas respectivas legendas, adquire uma significância simbólica. Este aspecto, não deixa de aparecer também na forma imagética e em todo o discurso reproduzido pela ICOMI enquanto esteve no Amapá.

Isso indica como a representação visual do espaço tem influências recíprocas sobre o imaginário local. Nas páginas da Revista em que são retratados espaços do Amapá que não são dominados pela ICOMI (no caso da Figura 10, a Capital do TFA), a apatia e tristeza sempre se fazem presente. A exemplo da Figura 8, em que o garimpeiro aparece claudicante, a Figura 9 também demonstra toda a apatia da mulher. Na revista, como um todo, não há imagens autônomas ou soltas, mas que constroem um diálogo próximo ao texto, por isso, o texto ao lado da imagem ressalta “tôda a evidência de sua tristeza e de sua apatia”, essa e a característica que marca quem não está inserido no “progresso” que a ICOMI levou para as vilas, conforme o que a Revista queria demonstrar.

Fonte: Revista ICOMI Notícias, 1966, p. 12.

Ocultando detalhes do rosto e do corpo, mostrando apenas a silhueta, não por questões técnicas do fotógrafo, que já demonstrara habilidades para capturar as expressões faciais, a exemplo das demais imagens ao longo da Revista, a mulher não é o objeto central da fotografia, mas o fato de estar cabisbaixa, pensativa, ressalta as palavras do editor, no texto ao lado da imagem, em que ressalta seu estado de espirito, ou seja, sua “tristeza e apatia”. Retratada de um ângulo diferente das duas imagens anteriores, observa-se o entorno da personagem em sua totalidade. A mulher sustenta o peso do seu corpo na árvore, demonstrando toda uma apatia e falta de perspectiva que o periódico intentava ressaltar, ocupando o primeiro plano, mas alinhada à direita para dar maior visibilidade ao que a Revista queria “visível”.

Há a presença de algumas construções ao fundo, sem nenhuma movimentação de pessoas ou automóveis. O céu não ganha espaço, pois foi encoberto pela árvore, que ao contrário dos equipamentos introduzidos pela ICOMI, aqui representa o atraso, a natureza intocada, indomada. O terreno, ao centro da fotografia, entre a mulher e os prédios ao fundo, demonstra um caminho que é caracterizado por um trecho alagado, provavelmente uma rua sem pavimentação, asfalto e/ou calçamento, ressaltando as contradições entre um terreno não domado (fora da área de atuação da empresa) e a suntuosidade da arquitetura desenvo lvida nas construções da empresa, ressaltadas nas demais fotografias em quase todas as edições da Revista.

A presença desse cenário contrasta com os ideais de uma cidade moderna, servindo, nesse caso, como um ponto de referência da cidade, no caso a capital do Território Federal do Amapá, que precisa se adequar aos ideais de progresso e desenvolvimento que a da empresa agora pretende impor na região.

A legenda da imagem corrobora com essa ideia, uma vez que ressalta as carências da região e o progresso do ritmo acelerado que a empresa empreendeu no Amapá:

O Amapá oferece, ao visitante, um espetáculo ambíguo, em que o progresso a ritmo acelerado coexiste com áreas de pobreza e estagnação. Uma tomada de consciência dessa situação, entretanto, vem fazendo com que os amapaenses permaneçam atentos para as oportunidades de dissolução desses focos de atraso, numa atitude que só poderá resultar, a longo termo (sic), no desenvolvimento integrado de toda a

região. Hoje, na própria capital do Território, o problema pode ser visto com toda a evidência de sua tristeza e apatia.

Analisando as recorrências e diferenças entre as imagens que representavam os que estavam à margem dos benefícios empreendidos pela empresa, Figura 8 e 10, deduz-se que ambos não seguem uma mesma visualidade: a primeira dá ênfase ao homem em uma posição desconfortável, exercendo sua atividade de garimpeiro, mas torna invisível o que o circunda, enquanto que na Figura 10, todo o entorno é capturado, para confirmar que, mesmo estando na capital do TFA, ela não vislumbrava grandes expectativas para sua vida estando ali. Por isso, devemos entender que o discurso visual da Revista deve ser considerado parte de uma estratégia para produzir sentido ao grupo que se fazia representar em suas páginas