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démocratisation qualitative

2. Classes sociales, sexe et parcours scolaires

2.2. Classes sociales, sexe et performances scolaires

“Alô, mulatas! Alô, alô, mulatas! O barulho que vocês estão ouvindo é um barulho de latas! De latas! Eu disse:”Latas! Latas!”.(GIL, Gilberto, 1968. Gege- Edições Musicais LTDA)

Nesta modalidade, versaremos sobre os principais agrupamentos que utilizam a percussão como base musical para a constituição de um novo repertório rítmico no interior do Ceará. Trataremos então dos “Grupos de Samba-Reggae”: manifestações percussivas inovadoras baseadas na musicalidade dos Blocos afro-baianos190, e que utilizam para suas práticas instrumentos confeccionados a partir de materiais reutilizáveis.

Estes grupos, característicos da cidade de Cruz-CE191, vem alcançando projeção no cenário cultural da Região do Vale do Acaraú192 nos últimos anos, participando de programações festivas do calendário nacional e de eventos solenes, onde são convidados por vários municípios para abrilhantarem as ocasiões com seus diversos ritmos afro-brasileiros, incluindo-se o Samba-Reggae como destaque.

São formados exclusivamente por crianças e adolescentes - estudantes de escolas públicas, que vêem nestas práticas uma forma de se interagir musicalmente. Um grupo de Samba-Reggae cruzense é organizado através de diversos naipes de instrumentos, que apresentam timbres, alturas, intensidades, tamanhos, e composições-(materiais) diferentes. Tais instrumentos são produzidos em oficinas ecológicas, onde existe a reutilização de materiais reaproveitáveis - trazidos pelos próprios integrantes. Estas oficinas são ministradas

190 Op. cit.

191 Cruz-Ce: localizada na microrregião do litoral de Camocim e Acaraú, mesorregião do Nordeste cearense. Para maiores informações sobre distância e economia, voltar ao tópico “Trajetória em cortejo” deste trabalho. 192 Vale do Acaraú: um dos principais polos regionais do Estado do Ceará, abarca municípios como Acaraú, Sobral, Cruz, Santana do Acaraú, Marco, Bela Cruz, Itarema, dentre outros.

por professores de música que inclusive, regem estas práticas coletivas em horário de pós- turno escolar.

Diferenciam-se dos Blocos afro-baianos em vários aspectos: 1º- Não realizam coreografias enquanto executam os ritmos; 2º- A maioria dos grupos não se apresenta em forma de cortejo (desfile percussivo), apenas como um Bloco fixo, sem muitos movimentos; 3º - Seus instrumentos são confeccionados, suprindo a carência de instrumentos percussivos tradicionais; 4º - Não entoam melodias durante o ato rítmico, a sonoridade exclusiva vem do batuque de objetos cotidiáfonos193 (AKOSCHKY, 1988); 5º- Seu repertório trás o Samba- Reggae como ritmo de destaque, no entanto, não é o único a ser tocado, tendo outros ritmos como: Swingueira194, Axé, Samba, Pagode, Maracatu, Baião e Marcha Carnavalesca em suas

apresentações.

Apesar de tantas divergências, espelham-se no modelo estilístico de um dos principais grupos percussivos de Salvador-BA, o “Olodum”, apresentando em seus uniformes as mesmas cores características do Samba-Reggae: preto, amarelo, verde e vermelho. Outra particularidade que define estes grupos como “Grupos de Samba-Reggae” trata-se de sua configuração instrumental, organizada nos mesmos padrões sonoros dos blocos afro-baianos, dividindo-se em categorias de instrumentos que irão compor naipes com alturas sonoras diferenciadas: grave, médio e agudo. Sobre esta divisão categórica, têm-se como exemplo no quadro abaixo alguns instrumentos - (confeccionados) que reproduzem a mesma função percussiva dos instrumentos convencionais dos blocos afro-baianos. Vejamos:

Tabela 11: Instrumentos percussivos confeccionados com material reciclado e suas respectivas sonoridades.

Instrumento Cotidiáfono - (confeccionado) Instrumento Tradicional Altura Sonora Tambores (Recipientes) de lixo. Capac. /220L Surdo de Primeira Grave Baldes de Plástico. Capac. /18L Surdo de Segunda Médio Baldes de Plástico. Capac./15 Litros Surdo de Terceira Agudo Latas de tinta Repiques Agudo Galões de Água mineral. Capac./20 L cada Caixas Agudo Cones de linhas de costura e frascos de aerossol Ganzás Agudo

Fonte: elaborada pelo autor.

193 Cotidiáfonos: instrumentos sonoros realizados com objetos e materiais de uso cotidiano, “de construção simples ou desnecessário feitio específico, que produzem som mediante simples mecanismos de acionamento” (AKOSCHKY, apud GARCIA, 2013, p, 26).

194 Swingueira: espécie de variante do pagode baiano, criado em Salvador-BA. É erroneamente chamado de Axé- music pelo fato de ser um ritmo de origem baiana.

Para a execução de ritmos e de técnicas como baquetamento195, rudimentos196 e manulações197 estes grupos utilizam suas próprias baquetas - confeccionadas a partir de gravetos de árvores nativas e de cabos de vassoura sem utilidade198.

Ao todo, existem cerca de oito grupos percussivos na cidade de Cruz, os quais apresentam um percentual que pode variar de 20 a 40 participantes. Tais grupos muitas vezes são intitulados remetendo-se aos nomes de suas próprias localidades, programas sociais ou ainda, de suas escolas públicas de origem. Como exemplo, têm-se o grupo “Batucan” - objeto de estudo desta dissertação, que traz os termos ‘Batu’ - referindo-se a “Batuque” e ‘Can’ - referenciando “Canema”- alcunha que faz menção à Escola Filomena Martins dos Santos por situar-se no Bairro conhecido como Canema.

Sobre este grupo, o mesmo foi desenvolvido nesta escola no ano de 2008, sob minha coordenação e regência199, tendo influenciado a formação de outros agrupamentos em escolas públicas da sede e dos distritos da cidade. A seguir, demonstraremos na tabela os grupos de percussão200 das escolas públicas cruzenses que vem introduzindo na cultura percussiva cearense um novo repertório rítmico, que traz no timbre de seus instrumentos reciclados uma nova sonoridade - autêntica e sincopada ao som do Samba-Reggae:

Tabela 12: Grupos Percussivos da cidade de Cruz-CE

Grupo Batucan ( Batuque da Escola de Canema) Grupo Batucuns ( Batuque da Escola de Tucuns)

Grupo Batulatan (Batuque Lata e Tambor - Escola de Cajueirinho) Grupo Batulago (Batuque da Escola de Lagoa Salgada) Grupo Rituque (No Ritmo do Batuque - Escola de Frei Jorge) Grupo Batucai (Batuque da Escola de Caiçara)

Grupo Batupeti (Batuque do Prog. de Erradicação do Trab. Infantil) Grupo de Batuque Maria Pereira Brandão (Batuque da Escola Maria Pereira Brandão)

Fonte: elaborada pelo autor.

Estes agrupamentos trazem sempre associados às suas práticas percussivas os conhecimentos da cultura afro-brasileira, repassando através de seus ritmos saberes que prezam a valorização cultural, o respeito, a quebra de preconceitos e a nossa história enquanto afrodescendentes que somos, instigando os alunos a conviverem colaborativamente sem qualquer tipo de discriminação racial.

195 Baquetamento: técnicas de agilidade e de mudança de intensidade com a independência das mãos nas baquetas - (dissociação motora).

196 Rudimentos: Op. cit. 197 Manulação: Op. cit.

198 Para maiores informações sobre estes assuntos, ver capítulo V.

199 Sobre este assunto, consultar a introdução deste trabalho, a qual traz mais detalhes sobre a trajetória de vida do pesquisador frente à regência deste grupo.

200 Para maiores informações sobre estes grupos, ver capítulo V, onde trazemos imagens, links de vídeos e nomes dos monitores, assim como de suas respectivas escolas públicas.

[...] a percussão é além de uma possibilidade de expressão musical, uma importante ferramenta educativa, de formação e de criação artística em contextos coletivos, tendo em suas apresentações uma proposta de valorização da cultura [afro-brasileira] e da música local [...]. (SANTOS, Catherine, 2013, p. 89)

Além destes alcances formativos, despertam outras competências de aprendizagem, como as relações socioambientais, trabalhadas durante as oficinas de construção de instrumentos reciclados. Nestas oficinas coletivas, entra em jogo a criatividade, o fazer artesanal, a experimentação sonora, o reaproveitamento de resíduos recicláveis, a preocupação com o meio ambiente e a interação humana, tendo a música percussiva como ferramenta mediadora do conhecimento.

A atividade de construir instrumentos musicais com material alternativo forma grupos com interesses em comum, propagando a prática de explorar materiais sonoros e alimentando a troca de informações entre pessoas, assim como a difusão dos conhecimentos obtidos entre eles para além dos grupos. Os próprios recicladores [passam] a fornecer matéria prima para a confecção de instrumentos, selecionando- os em seu trabalho. (GARCIA, 2013, p. 35)

O Samba-Reggae, ritmo predominante destes agrupamentos percussivos em Cruz, trata-se de um estilo de Samba baiano, sincopado, que segundo o “Dicionário da História Social do Samba”, de Lopes (2017, p. 269), “parece resultar da fusão da “levada” cadenciada das antigas escolas de samba soteropolitanas com o toque do Ijexá dos afoxés, realizada sob forte influência do reggae jamaicano”. Já Chamone (2008, p. 23) afirma que tal complexo sonoro possui “influências musicais do samba, do candomblé, do merengue e da salsa e possui uma variada gama de padrões rítmicos”.

Surgiu no cenário cultural baiano na década de 1980, a partir da reformulação de algumas agremiações carnavalescas que, defendendo a bandeira da igualdade racial e do combate ao racismo, criaram uma nova estética musical, tendo o Olodum (em 1979), o Ilê Aiyê (em 1974) e Muzenza (em 1981) como os principais Blocos Afro de Samba-Reggae no país.

Este ritmo afro-brasileiro é formado por variações e contratempos, executados sobre uma base rítmica do Ijexá201, que conduz o Reggae202ainda sob influências da antiga cadência

ralentada das agremiações carnavalescas baianas, as quais não sofreram com a interferência cultural das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Sobre o fundador desta nova sonoridade cadenciada, Lopes (2017, p. 269-270) afirma:

201 Op. cit.

202 Reggae: gênero musical oriundo da Jamaica. Baseia-se num estilo caracterizado por acentuações rítmicas fortes e fracas. Tem o cantor e compositor Bob Marley como ícone e referência musical.

A paternidade da nova “levada” é, entretanto, geralmente atribuída a Neguinho do Samba (Antonio Luís Alves de Sousa, 1955-2009), diretor de bateria do Olodum, o qual teria criado o samba-reggae, popularizado a partir de gravações das cantoras Margareth Menezes e Daniela Mercury.

Além de conquistar fama e espaço no cenário carnavalesco brasileiro, o Samba- Reggae do grupo Olodum e de Neguinho do Samba conseguiu alcançar projeção nacional através de gravações com a participação de artistas internacionais: David Byrne (1989),Paul Simon (1990) e Michael Jackson (1996), tendo a indústria midiática como meio difusor desta nova musicalidade desenvolvida na Bahia, e que já influenciava a criação de diversos Blocos afros, cujos princípios voltavam-se à defesa dos direitos do povo afro no Brasil.

No âmbito da música popular, outras revoluções também se processavam. A explosão midiática da percussão e o sucesso do samba-reggae, fenômenos também surgidos a partir dos anos 80, incitaram a criação de centenas de escolas de percussão e blocos-afro nos projetos sociais espalhados pelo país. O samba-reggae trouxe em suas letras e em seu ritmo a valorização do universo negro, que buscava participar mais ativamente da cena política e cultural no Brasil. A apropriação da linguagem percussiva do samba-reggae, adaptada as tendências musicais do mercado consumidor, gerou um novo paradigma rítmico, composicional e tímbrico que iria marcar profundamente a música popular brasileira. Dos bairros pobres de Salvador, dos desfiles de bloco nos carnavais, esta música, de sonoridade nova e dançante, de cadência sincopada e não muito rápida, seria imediatamente incorporada aos programas de televisão e rádio, sempre associada ao repertório carnavalesco. (CHAMONE, 2008, p.24)

O impacto cultural e artístico ocasionado pelo Samba-Reggae possibilitou que este ritmo excedesse as suas próprias barreiras territoriais, alcançando outras regiões e culturas, que, se apropriaram desta nova estética da música baiana, introduzindo-a no seu repertório tradicional através da criação de grupos percussivos influenciados pela musicalidade dos Blocos afros. Como exemplo, temos os grupos de Samba-Reggae da cidade de Cruz no interior do Ceará, que se apoderaram desta nova modalidade rítmica ressignificando-a, conquistando um espaço de legitimação junto aos outros ritmos e gêneros musicais executados por diversas manifestações da cultura popular local.

Contudo, esta nova cadência sincopada encontrada no Estado do Ceará vem fortalecer o discurso de que esta terra alencarina possui sua própria identidade rítmica, composta pela diversificação de grupos percussivos contemporâneos e tradicionais que criam e reelaboram constantemente sua música, sua arte e sua cultura. O Samba-Reggae, mesmo sendo típico da Bahia, é encontrado no interior do Ceará sob uma nova roupagem percussiva, tanto em termos timbrísticos quanto estruturais, e vem se destacando como mais uma prática afro-brasileira que compõe o nosso patrimônio simbólico e imaterial.

Imagem 15 - Apresentação cultural do Grupo Batucan Imagem 16 - Apresentação cultural do Grupo Batulago Ginásio Poliesportivo da cidade de Cruz-Ce Quadra da Escola Elvira de Sousa Brandão - (Lagoa Salgada)

Fonte: Lidonildo Costa Fonte: Evaldo Vasconcelos